sexta-feira, 29 de abril de 2011

Capítulo IV - Ericka

Eu continuava a minha sina, mas essa sina ganhava contornos de dramaticidade. Rodrigo namorava Fabíola, Gustavo tinha conseguido perder a virgindade e eu continuava na mesma, pior, tudo de ruim a fama ia pra mim. Ganhei o apelido de “o doido da cabra epilética”, todo mundo ria de mim no colégio, eu sempre fui um pára raio de confusões e muitas vezes sem ter culpa.
Mas seguia minha vida, na esperança que um dia conseguisse resolver “meu problema”, não tive mais coragem de voltar na zona, nenhuma menina queria nada comigo. Mas as coisas sempre podem mudar.
Um dia, estávamos na sala de aula quando entrou uma menina nova para a turma, linda demais, branca, cabelos negros, altura mediana, seios empinados, bundinha arrebitada e uma manchinha verde perto de uma das orelhas que era um charme. Perguntou ao professor se poderia entrar, era aluna nova transferida pro nosso colégio, se chamava Ericka.
Ericka, esse nome nunca mais saiu de meus pensamentos, um bálsamo pros meus ouvidos. Entrou e sentou na mesa do lado da minha, meu coração disparou, nunca havia sentido nada parecido. Balbuciei com toda timidez e nervosismo possível um “bem vinda”, ela sorriu e agradeceu.
Meu coração disparou ainda mais como se tivesse próximo de um enfarte, que situação louca, nunca havia sentido, não conseguia mais prestar atenção na aula. Em um momento ela me pediu a borracha emprestada, peguei e entreguei na sua mão, o momento em que nossas mãos quase se tocaram, separadas apenas por uma borracha pareciam não ter fim, eu não queria que tivesse fim..Ericka..Ericka...
Fato, não conseguia mais parar de pensar nela, fui pra casa com a menina nova em minha mente. Passei pela sala meus familiares falaram comigo e eu nem respondi, deitei na cama ainda com a roupa do colégio e fiquei pensando nela, no seu olhar, sua voz, seu sorriso. Quando eu gostava da Manoela era muito pequeno, claro que era um sentimento verdadeiro, mas era de criança ainda, agora não, aquele era um sentimento adulto. Talvez nem tão adulto porque eu mesmo ainda estava me transformando em um, mas era meu primeiro amor.
Mais tarde, de noite, como fazia todos os dias encontrei com meus amigos de fé na praça, de um lado dela ficava a igreja, do outro a prefeitura e ali era o ponto de encontro dos jovens da época. Não consegui disfarçar a minha empolgação e contei para eles tudo o que havia ocorrido, tudo o que eu sentia e olhe que eu sempre fui um rapaz tímido até com meus amigos, mas daquela vez não consegui segurar. Contei e no fim Gustavo perguntou se a moça que descrevi não era aquela que se aproximava.
Gelei, olhei para trás e vi a Ericka, linda com um vestido azul, aquele sorriso que já marcara a minha vida. O problema que do lado dela estava o George, um almofadinha da cidade com o qual nunca me dei bem. Ela me cumprimentou, respondi com meu nervosismo peculiar e o George provocou perguntando se ela já conhecia o “doido da cabra epilética”, ela respondeu que não, ele a pegou pela mão, saíram andando e ele disse, rindo, que contaria, assim os dois foram se afastando e meu coração diminuindo.  
Meus amigos se irritaram, levantaram do banco da praça e perguntaram se eu não faria nada. Eu respondi que não havia nada a ser feito, mas eles insistiram dizendo que ela era linda e não podia ficar com um idiota como o George, que eu tinha que lutar por ela. Abaixei a cabeça e falei que não tinha como lutar, não sabia como lutar.
Os dias foram passando e meu amor platônico não só continuava como fortalecia. Acordava pensando nela, ia dormir pensando nela, mal prestava atenção nas aulas e sofria ao ver sua proximidade com George. Me alimentava mal, Ia para a praça todas as noites na esperança de vê-la, receber um cumprimento mesmo ao lado dele, sentava na cadeira na sala de aula e torcia para ninguém sentar ao meu lado para que ela sentasse. Torcia para que ela não levasse a borracha e me pedisse emprestado. Meu dia acabava quando alguém que não era ela sentava na mesa ao lado, estava apaixonado.
Até que uma noite passei mal, dor de garganta, febre, mal conseguia dormir, diz minha mãe que a febre chegou aos 40° e eu delirando falava “Ericka”. De manhã perguntou quem era e eu respondi que era ninguém, acabou que não fui ao colégio, insisti muito, implorei à minha mãe, mas ela não deixou que eu fosse. Fiquei triste na cama, deitado, pensando que não a veria naquele dia, meu dia não tinha nenhuma graça sem ela, minha vida não tinha nenhuma graça sem a Ericka.
Peguei no sono, até consegui ter um sono pesado quando minha mãe mexeu no meu ombro, sonolento acordei e perguntei o que acontecia, minha mãe respondeu que a menina do meu delírio estava na sala, não entendi nada, ela então contou que eu tinha uma visita e que eu fosse na sala ver quem era.
De pijama, sonolento ainda, fui até a sala e tomei um susto, a Ericka estava sentada no sofá me esperando. Olhei, fiquei branco, gelei, parecia que iria morrer, minha mãe ao lado se preocupou e perguntou se eu estava bem, balbuciei um sim. Ericka levantou do sofá disse “Oi Doido, está melhor?” e me deu um beijo no rosto, um suave beijo no rosto, um beijo doce capaz de tirar toda febre e dor que ainda pudesse ter no meu corpo.
Papeamos a tarde toda, me contou que ficou preocupada porque eu não fui e decidiu ir à minha casa ver como eu estava, encontrou com meus amigos no colégio e eles responderam onde eu morava. Que era época de provas e eu não podia ficar sem a matéria, então levara para mim para que eu pudesse copiar.
Sentamo-nos à mesa que tinha na sala e comecei a copiar. Ela me olhava, eu sabia que ela me olhava e isso me deixava nervoso, mão trêmula, em um momento ela levantou, colocou a mão na minha testa para ver se eu ainda tinha febre, mas minha testa estava gelada, eu suava frio, queria que aquele momento acabasse nunca.
Ela foi embora, me deu outro beijo no rosto e partiu. Eu parecia que flutuava ao voltar pro quarto, me deitei e só pensava nela, dormi, sonhei com ela. No dia seguinte fui pra aula e ela ao meu ver sorriu, tirou sua mochila da mesa ao seu lado e disse que tinha guardado o lugar para mim, se era um sonho eu não queria mais acordar.
Assim fomos criando um laço de amizade, andávamos sempre juntos, o que gerou ciúme do George. Ela me disse que tinha nada com ele, gostava dele, mas só como amigo, isso dava grande esperança para o meu coração.
Virou minha melhor amiga, minha confidente, confidenciava tudo, menos o meu amor, ela virou presidente da nossa comissão de formatura e me chamou pra fazer parte do grupo. Claro que aceitei para poder ajudá-la e pra não ficar longe dela.  Ela foi a primeira pessoa a ler as coisas que eu escrevia. Crônicas, poesias, pensamentos que eu tinha e a história de um herói atrapalhando que sempre tentava salvar uma princesa, mas se dava mal.
Ela adorava essas histórias, gargalhava, nunca contei que essa princesa era inspirada nela e o herói atrapalhado eu, mas eu me sentia assim mesmo, um herói atrapalhado diante de uma princesa.
O tempo ia passando, o fim de ano se aproximava e com ele a minha angústia, era o último ano de colégio, não a veria mais todos os dias. Provavelmente não a veria mais, ela devia ir estudar numa cidade maior, fazer faculdade e eu também. Meu pai exigia que eu fizesse uma faculdade e virasse alguém, meu irmão mais velho Tadeu, já era militar e minha irmã Sandra professora, eu era o único ainda na escola, como seria depois? Como viver sem a presença da Ericka? Não podia deixá-la escapar assim pelos meus dedos, eu era tímido, mas era um homem, não um rato, tinha que enfrentar meu medo e me declarar.
Mas como me declarar? Eu não conseguia, por várias vezes a chamava pra conversar, ela perguntava o que eu queria, eu gaguejava e falava que era nada. Eu era um fraco, uma negação, uma vergonha pra classe masculina.
Pensei, já que não consigo falar, vou escrever. Em casa de noite sentei-me à mesa com papel e lápis pensando no que escreveria, teria que ser algo forte, profundo, que fizesse com que ela tivesse vontade de me namorar. Comecei a escrever, escrevi tudo que sentia, desde a primeira vez que a vi, o quanto ela era importante pra mim e quanto a amava.
No dia seguinte estava muito tenso no colégio, com a carta dentro da minha mochila. Aproveitei a hora do intervalo e coloquei dentro da sua, na volta para a aula eu não conseguia disfarçar mais a tensão, até ela me perguntou se eu estava com algum problema, respondi que não, só vontade de ir embora. Mal ela sabia o que tinha dentro da sua mochila, mal eu me cabia de tanta ansiedade, numa mistura de ansiedade e arrependimento por ter feito a carta e entregue, mas já era, já estava feito.
Não a vi durante o dia, fui pra praça de noite e ela não apareceu. No dia seguinte na aula ela estava um pouco mais séria que o normal e eu mais tímido, quase não nos falamos, eu pensava “será que ela não viu a carta?”. Fui pra casa, retirei meu caderno para fazer a lição e vi dentro da mochila uma carta.
Uma carta perfumada, escrita por uma letra bonita, era da Ericka. Nela agradecia tudo o que eu tinha escrito, mas pedia desculpas, porque só me via como amigo e não teríamos mais nada que amizade.
Meu chão sumiu, parecia que meu peito havia tomado uma facada, era uma sensação de morte, a mulher que eu amava só me via como amigo e não queria meu amor. Deu vontade de chorar, mas segurei o choro já que meu pai sempre falava que homem não chorava, Mas naquela hora não me sentia homem, apenas um menino que queria o colo da mãe.
Mais tarde nos encontramos com o conselho de formatura, nos cumprimentamos, demos um sorriso um ao outro, mas não era a mesma coisa. Ela chegava perto de mim e eu me distanciava, dava uma desculpa e saia de perto. Eu não conseguia, era demais pra mim ser amigo da mulher que amava, saber que ela não queria ser meu amor.
Já não sentava mais tão perto dela na sala de aula, nossos assuntos eram mais sobre a formatura. Aquela intimidade toda já não existia, sentia que fazia falta para ela, pra mim também, mas era mais forte do que eu. Naquele momento eu só queria que o ano acabasse logo e queria fazer faculdade no Rio de Janeiro, bem longe de Tremembé.
Um dia voltava da aula e vi uma grande aglomeração na frente da igreja, além das pessoas estavam polícia e uma ambulância. Saí correndo em direção a igreja para saber o que ocorria, a polícia não deixava ninguém entrar. Na porta da mesma encontrei Sandra chorando, perguntei o que ocorria e ela só conseguia dizer “a mamãe, a mamãe..”, fiquei nervoso e perguntei o que tinha a minha mãe, ela respondeu “ta morta, dentro da igreja”.
Não teve polícia que conseguiu me segurar, entrei na igreja e lá estavam meu pai e o Tadeu. Meu pai me viu e começou a gritar dizendo que a culpa era minha, que eu havia nascido e só trazido desgraça para a família, que eu sabia de tudo e havia escondido.  Entrei em direção ao altar sem entender nada, perguntava “ tudo o que? O que aconteceu?” quando cheguei perto do altar vi a cena que nunca mais esquecerei.  
Caídos no altar, os corpos de minha mãe e do padre Pinheiro. Cheguei devagar perto do corpo da minha mãe, me ajoelhei, abracei e comecei a chorar, chorar muito, nunca havia chorado tanto na minha vida, nunca tinha deixado que me vissem chorar em público, não entendia o significado daquela cena, o porque aqueles dois corpos no chão. Tadeu me puxou e me deu um abraço, os dois chorando, depois me entregou uma carta e pediu que eu lesse, era uma carta em conjunto de minha mãe e do padre Pinheiro.
Carta de minha mãe e padre Pinheiro
“Prezados familiares, amigos, comunidade
Vocês podem não entender o que aconteceu,  só nós dois sabemos o que nos motivou a cometer tal ato, um ato extremo que vai contra as leis de Deus, nos apaixonamos, um amor proibido, doído, que ia contra todos os nossos princípios, contra nossa vontade, mas um amor puro, intenso e como todo amor maravilhoso e não sujeito ao pecado. Pedimos desculpas a todos, aqueles que amamos e sofrem nesse momento com nossa atitude, que vocês nos perdoem, que Deus nos perdoe”
Li a carta, devolvi ao Tadeu e sentei espantado no banco da igreja, minha mãe e o padre estavam tendo um caso, se apaixonaram e não agüentaram conviver com esse amor proibido, fizeram um pacto de morte, o padre deu um tiro no peito da minha mãe e depois acertou sua própria cabeça, duas mortes instantâneas.
Meu pai esbravejava, falava os maiores impropérios sobre minha mãe e o padre, eu olhava pro vazio, olhava Cristo preso na cruz e via minha mãe ali, crucificada. Pensava na vida terrível que ela deve ter tido, minha mãe não casou com meu pai por amor, foi obrigada por meu avô, meu querido avô Ventania que com o tempo ficou mais doce, amoroso e se arrependeu de ter feito isso com minha mãe. Ela viveu em função desse casamento, dos filhos.
Minha mãe foi a mulher que mais amei na vida, a minha melhor amiga, minha maior companheira, a pessoa que esteve sempre perto de mim pra mostrar o quanto eu era bom, o quanto eu era importante, o quanto me amava. Lamento profundamente não ter vivido mais tempo com ela, sinto muita saudade de seu carinho, de seu afago em meu rosto, de seu beijo, do seu colo. Com a minha mãe partiu metade de mim, até hoje me emociono muito ao falar dela, só queria que ela aonde quer que esteja saiba que a amo muito, pra sempre, saudades imensas e melhor parar de escrever sobre ela que as lágrimas já teimam em surgir, obrigado por tudo mãe.
Com lágrimas nos olhos eu olhava pra Cristo na cruz, meu pai olhou pra mim e gritando perguntou o que tanto eu olhava. Me levantei, enxuguei as lágrimas e saí andando em direção a porta da igreja, ele gritava mandando que eu parasse, mas não ouvia nada, só queria sair dali. Ainda passei pela Ericka do lado de fora me perguntando se eu estava bem e precisava de algo, não lhe dei ouvidos, continuei andando até não ter mais ninguém por perto.
Fui pro meu local preferido, aquele que eu gostava de ficar sozinho meditando, a beira do rio onde eu pescava com meu avô. Sentei lá na beira, fiquei jogando pedrinhas pro seu fundo e depois parado, sentado, olhando pro nada, sozinho apenas com a minha dor. Fiquei a noite toda lá não queria ver ninguém, parecia que tinha morrido também, lá sentado olhando pro nada, mergulhado no vazio.    
Na manhã seguinte já estavam todos no enterro quando eu cheguei, roupa amassada, todo desgrenhado, cara funda. Entrei e todos me olharam, meu pai foi ao meu encontro dando bronca e perguntando onde estava, não respondi, abracei meus irmãos e depois meus irmãos da vida Rodrigo e Gustavo. Ericka me deu um beijo no rosto e limpou minhas lágrimas, peguei em uma das alças e começamos o cortejo.
Cemitério cheio, minha mãe era uma pessoa muito querida, mas não estava cheio apenas por causa do carinho que nutriam por ela, mas pela fofoca que aquela história causou. Mesmo com olhar fundo e mente vazia eu conseguia ouvir a mistura de choro e burburinho, mas não me importava, estava enterrando minha mãe. Pela segunda vez ia a um cemitério, segunda vez enterrando alguém que amava, algo que seria freqüente em minha vida.
Fui pra casa, me tranquei no quarto, não quis ver ninguém, Rodrigo, Gustavo, Ericka foram a minha casa e não atendi, a empregada perguntou se queria comer algo, também não quis, fiquei dias trancado, pensando, faltei aulas..
Um dia decidi voltar à vida, voltei ao colégio, sentia as pessoas falando às minhas costas, mas não reagia, o “doido da cabra  epilética”, tinha virado o “filho da mulher do padre”.
Isolei-me um pouco de amigos, família, fui ao conselho de formatura, comuniquei que não queria mais fazer parte, a Ericka ainda tentou me convencer a ficar, mas não havia mais clima. Meus dias eram da casa pro colégio e do colégio pra casa, parei de ir na praça de noite, preferia ficar em casa lendo meus gibis e escrevendo. Escrevia sobre as coisas que sentia, meus planos pro futuro, a saudade de minha mãe e de como eu gostava da Ericka, seguia escrevendo minhas historinhas, com o herói atrapalhado sempre se dando mal.
O fim das aulas se aproximava e eu me distanciava da Ericka, ela se sentava em um canto da sala e eu em outro completamente afastado. Ela voltou a andar com o George, o burburinho era que os dois estavam namorando, um dia no corredor do colégio encontrei os dois se beijando, ela notou que eu vi, mas ergui a cabeça e passei por eles como se nada tivesse acontecido, meu avô sempre falava “um homem nunca deve abaixar a cabeça”. Passei com a cabeça erguida e o coração chorando, já ansiava pelo fim das aulas, por ir embora.
Chegaram as provas finais, fui bem, passei em tudo. Como de costume na época meus amigos jogaram ovos podres em mim, bastante farinha, voltei a rir como há tempos  não fazia. Gustavo e Rodrigo eram como irmãos, passamos por muita coisa juntos, me perguntaram sobre a festa de formatura e eu disse que não iria
Ericka estava passando por nós e perguntou “como assim não vai?”, respondi que não iria porque estaria em Belo Horizonte pra na manhã seguinte prestar provas para uma faculdade. Era mentira minha, iria ficar em casa mesmo, mas precisava sair pro cima. Ela pareceu triste, disse que era uma pena e foi embora, nessa hora o Gustavo me disse “essa menina gosta de você”, respondi que era delírio dele, que eu já havia me declarado e ela recusado meu amor, ele reafirmou que ela gostava.
Procurei não ficar com aquilo na mente, aproveitar as férias pra fazer coisas que eu gostava, coisas que meu avô me ensinou a gostar, cuidava dos passarinhos nas gaiolas, saía pra pescar, mesmo sozinho, era uma ótima terapia mesmo nunca pegando nada, escrevia. Escrevia muito, bastante, saía com meus amigos também, pouco a pouco a minha vida voltava ao normal. Mas ao mesmo tempo completa indefinição sobre meu futuro, do que eu queria pra vida. Meu pai me cobrava uma decisão, que não estava ali para sustentar filho vagabundo e já que eu estava pra me formar teria que decidir se ingressaria numa universidade ou iria trabalhar.
Minha relação com meu pai sempre foi tempestuosa. Por algum motivo eu acreditava que ele não gostava de mim, acho que nem era algo pessoal, porque com meus irmãos também era assim. Meu pai era um homem sério, quieto, amargo, incapaz de mostrar qualquer tipo de amor e carinho, não sei se foi devido sua criação, era do tipo de homens que pensava que seu papel na família era trabalhar e colocar dinheiro em casa, não era papel de homem mostrar afeto. Isso me incomodava, ainda mais perdendo meu avô e minha mãe que eram tão dóceis e amorosos comigo.
Mas mesmo com a pressão dele eu não conseguia decidir, queria dar um tempo de Tremembé, conhecer outros lugares. Eu era jovem, tinha um mundo inteiro lá fora para conquistar, mas ao mesmo tempo me sentia ligado à cidade, tudo que eu vivi estava ali, coisas boas, ruins, saudades..
No dia da festa de formatura fui à biblioteca da cidade e peguei alguns livros pra ler, estava decidido a passar a noite lendo sem pensar na festa que estava ocorrendo. Fui para meu quarto comecei a ler quando bateram na porta, era meu pai.     
Perguntou o que eu fazia em casa no dia da minha festa, respondi que não iria, ficaria em casa lendo uns livros. Ele me falou que eu estava errado, que aquela era a minha noite, a noite que havia batalhado tanto na vida para que chegasse. Mandou que me lembrasse dos dias e noites que perdi, que não me diverti, que dormi menos, de tudo que batalhei, que não era hora de ficar em casa lendo e sim de me divertir, que a minha mãe não iria gostar de me ver em casa.
Falou, saiu e eu fiquei sem entender nada, havia sido meu pai mesmo que falara aquelas coisas comigo? Que havia sido dócil, mandado me divertir e ainda citou a minha mãe? Pela primeira vez desde sua morta ele tocou em seu nome. Pois bem, fiz o que ele mandou, peguei a roupa que já estava separada pra ocasião, coloquei e fui embora.
Chegando ao baile parece que o mesmo parou, todos ficaram me olhando, ninguém acreditava na minha presença. Gustavo e Rodrigo vieram me abraçar entusiasmados e eu rindo mandei que tomassem cuidado com a minha roupa e o meu cabelo. Ericka parou de dançar, se aproximou de mim, me deu um beijo no rosto e disse “bem vindo”, eu agradeci e dei uma volta no salão, vi as pessoas se divertindo, isso me fazia bem.
Na presença dos meus amigos, dos meus colegas de classe, da música, da bebida, da diversão e também por estar no mesmo ambiente da Ericka esqueci por alguns momentos o quanto minha vida estava difícil. Ria como há muito tempo não acontecia, até me arrisquei a dançar, algumas meninas malucas toparam meu convite pra dança, uma das melhores noites da minha vida e eu só podia agradecer ao meu pai por ter me convencido a ir.
Em um determinado momento o apresentador pegou o microfone e disse que estava na hora de anunciar o rei e a rainha do baile, eu nem sabia que teria aquilo. Não percebi que tinha uma urna próxima a entrada em que as pessoas votavam, logo comentei com meus amigos que era barbada a escolha da Ericka e do George. Ele começou o anúncio pela rainha e deu o óbvio, anunciou o nome da Ericka, todos aplaudiram, ela linda como sempre subiu ao palco, recebeu a coroa e agradeceu a todos pela escolha, chegava a hora de anunciar o rei, o apresentador pegou um papel, abriu e anunciou..
Anunciou o meu nome !! Quando ele anunciou uma grande algazarra tomou conta do salão, todos aplaudindo e gritando meu nome, eu espantado, desde a ocasião das bolinhas de gude nunca mais havia vencido nada na vida e até então acho que aquela tinha sido minha única vitória e ainda por cima teria direito a uma dança com a Ericka. Gustavo e Rodrigo começaram a me empurrar pro palco, era a noite perfeita, era..
Quando estava na escada para subir no palco fui empurrado pelo George que subiu na minha frente e tomou o microfone do apresentador. Começou um discurso dizendo que a escolha era um absurdo, que eu sempre fui um nada no colégio, um ninguém, que havia me envolvido em situações bizarras, com cabras, com ataques epiléticos em zona e que por fim tinha uma mãe adúltera que corrompeu o padre da cidade, que eu só merecia o desprezo de todos.
Bem, falar da minha mãe foi demais pra mim. Fui em disparada ao seu encontro e dei um soco em seu rosto tão forte que ele voou do palco e caiu em cima das pessoas, a diretora aos gritos me mandou embora. Saí do palco com a Ericka me puxando, mandando que eu esperasse, mas não quis saber, saí da festa enfurecido.     
Fui pro lugar de sempre, a beira do rio, uma mistura de raiva e tristeza, havia sido uma noite muito boa e ela acabou daquela forma, estava tudo acabado pra mim mesmo, eu não tinha mais espaço em Tremembé, a melhor coisa era ir embora. Chorava de raiva sentado na beira do rio quando ouvi uma voz me chamar.
Quando olhei pra trás era a Ericka, perguntei o que ela fazia ali, ela disse que saiu da festa me seguindo, que não queria me deixar sozinho. Agradeci, mas falei que não precisava da piedade dela, da piedade de ninguém, que bastava a minha auto piedade.
Ela se aproximou de mim, passou a mão no meu rosto e disse que não era piedade, era amor, falou e beijou a minha boca, meu primeiro beijo de verdade. Abracei aquela mulher com todo carinho e amor que eu sempre tive, um momento mágico, que sempre sonhei e queria que se eternizasse. Após o beijo eu falei que ela fez aquilo por pena, não me amava, tinha deixado bem claro na carta que me enviou.
Ela respondeu que não, que era amor e não conseguia mais viver sem mim, ainda perguntei pelo George, ela respondeu que ele significava nada pra ela, que o amor era pra mim. Tudo que sempre sonhei em ouvir tinha conseguido, a Ericka era minha, começamos a nos beijar, tirar nossas roupas, finalmente eu faria amor e com uma mulher que amava. Ela ficou apenas de calcinha e sutiã, eu ávido para que ela tirasse tudo, quando botou as mãos nas costas para tirar o sutiã uma imensa luz surgiu.   
Virei e a cena que vi poucos de vocês acreditarão, mas era a mais pura verdade. Um imenso clarão e do clarão surgiu uma nave espacial, descendo aos poucos, até descer no mato, eu olhava aquilo incrédulo, com mão nos olhos para poder enxergar, a porta da nave se abriu, olhei pra Ericka e perguntei “você está vendo o que estou vendo?”.
Ela não respondeu nada, estava paralisada, parecia hipnotizada por aquela cena, ainda perguntei “Ericka, você está bem?”, ela não me respondeu e começou a andar. Tentei segurá-la perguntar aonde ia, mas a impressão que dava é que ela não estava mais ali, seguiu andando, andando, em direção a nave, até que entrou nela, a porta se fechou e a nave subiu, subiu e num imenso clarão sumiu.
Pois é, a nave foi embora, com a Ericka dentro e eu fiquei ali embaixo, só de cueca, sapatos, é..a velha mania dos sapatos, sozinho, com cara de bunda. Depois de tudo que batalhei, na hora que iria conseguir o que mais sonhava do nada aparecia uma nave e os ETs levavam meu amor embora.
Pior que com a subida da nave minha roupa pegou fogo, estava só de cueca e tinha que voltar pra casa assim, sem roupa, sem a Ericka e ainda tendo que explicar o que aconteceu, o que evidente ninguém iria acreditar.
Me dei mal no fim como o herói atrapalhado das histórias que eu fazia pra ela, na boa, eu sou muito azarado.












quinta-feira, 28 de abril de 2011

Capítulo III - Adolescência e sexo

Cheguei aos meus 18 anos, época importante, a hora que um menino virava homem e todos os rapazes contavam suas peripécias sexuais, que faziam e aconteciam e claro eu contava também, com a única diferença que as minhas eram mentira. Eu cheguei aos 18 anos e o único beijo na boca que havia dado na vida foi aquele que a Manoela me roubou, mas eu precisava manter a pose, me mostrar o garanhão, o bom, mesmo quando não era nada disso.

E lógico isso me incomodava demais, estava na flor da idade, com os hormônios em ebulição, precisava de sexo, mas não sabia como. Vivia em uma cidade pequena e as meninas eram recatadas demais e as que não eram recatadas ou era minha irmã e ela não contava ou não queriam nada comigo por eu ser um tímido desajeitado, a impressão que eu tinha era que Gustavo e Rodrigo viviam a mesma situação que eu, mas também não admitiam.

Um dia achei uma revista debaixo da cama do meu irmão e essa revista tinha uma propaganda com uma mulher de calcinha e sutiã, vocês têm noção nesses tempos de playboy, sex hot o que era ver uma mulher de calcinha e sutiã apenas em 1938?

Peguei a revista, levei pro colégio e cobrava dinheiro pra que os outros meninos vissem, até que a diretora viu um menino folheando, tomou a revista e o colocou de castigo. Lógico que ele contou de quem era a revista e eu fui chamado em sua sala.

Diretora: Doido, você ficou doido?

Doido: Desde que nasci senhora diretora  

Diretora: Você está debochando de mim?

Doido: Claro que não senhora diretora

Diretora: Explique-me essa revista

Doido: Pela capa ela fala de rádio

Diretora: Eu falo dessa página!! Dessa!!!

Doido: Nossa senhora diretora, a senhora tem revistas com mulheres assim? É pecado, o padre Pinheiro não vai gostar

Um detalhe pra vocês da minha personalidade, eu era tímido, desengonçado, mas era e até hoje sou debochado, muita gente não gosta desse aspecto de minha personalidade e a diretora foi uma delas, não viu graça e chamou meu pai no colégio, posso dizer que a surra doeu. 

Ganhei uns trocados, uma surra e continuava com meu problema, sexo, eu precisava de sexo. Um dia Rodrigo me confidenciou que seu pai tinha muitos animais no sítio que morava e que tinha umas cabras muito jeitosas e que de vez em quando ele praticava com elas, estranhei e perguntei o que ele queria dizer com “praticava”.

Ele disse que a cabra parecia uma mulher e que na falta da mulher as vezes ele utilizava a cabra para se satisfazer, fiquei espantado, falei que aquilo não era coisa de Deus, que o padre Pinheiro iria excomungá-lo quando soubesse, Rodrigo perguntou se eu não queria experimentar um dia pra ver como era, topei.

Alguns dias depois fomos ao sítio, Rodrigo assoviava e chamava “Mimosa, Mimosa, hei Mimosa”, chamava de um jeito carinhoso, parecia que já eram íntimos. Nisso aparece uma cabra, andando em direção a ele, parecia rebolar, gostar daquela situação, chegou perto, Rodrigo fez um carinho na cabra e disse “é sua”. Eu fiquei constrangido e argumentei que eles pareciam íntimos, que ela era sua namorada e eu não queria atrapalhar a relação, ele ficou fulo da vida e perguntou “vai ou não?” disse pra ele ir antes e que depois eu iria.

Deixei os dois lá namorando um pouco e saí de perto pro casal ficar mais a vontade e pensar como iria escapar daquela situação constrangedora, quando estava encostado numa árvore pensando na vida ouço um grito e saio correndo para ver o que tinha acontecido.

Vou de encontro aos dois e vejo Rodrigo desesperado engatado na cabra, perguntei o que havia acontecido e ele me respondeu que ficara preso, ainda perguntei “como assim preso?” e ele desesperado gritou “preso!! Não quer sair !!”. Eu não sabia se ria ou se me desesperava e perguntei o que fazer, Rodrigo respondeu que não sabia, mas implorou para que eu fizesse alguma coisa. Depois de muito pensar respondi que iria fazer e que ele não saísse dali, peguei a bicicleta e saí correndo, ao longe ainda consegui ouvir um “seu filh..da put..e eu vou pra onde com essa cabra engatada???”

Procurei pelo Gustavo por toda a cidade, consegui encontrá-lo na igreja ajudando o padre Pinheiro a organizar a missa, fiz vários psius e ele não me ouvia, até que gritei “Gustavo!!”. Padre Pinheiro reclamou, pediu respeito com a casa do Senhor e o Gustavo veio ao meu encontro perguntar o que eu queria. Falei em seu ouvido, ele saiu correndo comigo e nem deu tempo pro
padre falar nada, pegamos nossas bicicletas e fomos para o sítio.

Lá encontramos o Rodrigo na mesma situação, Gustavo deu uma risada, Rodrigo soltou um palavrão e eu falei que
aquela era uma situação seria,  não era momento pra rir, bem eu tentei falar essa frase mas no meio dela comecei a gargalhar, ficamos eu e o Gustavo gargalhando e o Rodrigo nos chamando pelos piores nomes possíveis.

Cinco minutos depois, quando cansamos de gargalhar, Rodrigo perguntou se já estávamos satisfeitos e poderíamos ajudá-lo, Gustavo contou que a única solução era levá-lo no hospital. Rodrigo se desesperou, disse que tudo menos isso, que já estava até se acostumando em ficar engatado com a cabrinha e que não havia mais problema.

Nenhum dos três sabia dirigir, coube ao Gustavo a missão de pegar o caminhão do pai. Ele pegou a direção, sentei ao seu lado e atrás na caçamba em pé o Rodrigo engatado na cabra. Pra tentar colocar um pouco de dignidade na situação colocamos um lençol em cima da cabra e assim ninguém saberia o que estava acontecendo, mas logo na segunda curva o lençol voou e deixou Rodrigo exposto com a cabra para todos nas ruas verem e rirem, não notamos que o lençol havia voado, então ele foi assim até o hospital.

Chegamos lá e não tinha médico, apenas uma enfermeira, a Fabíola. Que por um grande azar e ironia do destino era o alvo da paixão do Rodrigo, entramos primeiro eu e Gustavo no hospital e ela nos perguntou o que havia ocorrido, dissemos nada, que era melhor ela sair e ver com os próprios olhos, ela saiu conosco e quando olhou soltou um grito “Rodrigo !!! “ ele chorava, tentava esconder o rosto com a camisa e balbuciava “eu vou matar vocês”.

Com jeitinho, não seu qual foi, ela conseguiu que os dois desengatassem, o pai de Rodrigo e Gustavo foi buscá-los, Rodrigo andando com extrema dificuldade e Gustavo rindo. Não
sei porque, o que ocorreu, mas aquilo ajudou o Rodrigo com a
Fabíola e eles começaram a namorar.

Cheguei em casa e meu pai já me esperava com o cinto na mão, minha irmã gargalhava, minha mãe pedia para que meu pai não me batesse, mas adiantou nada. Me pegou pela orelha e subiu a escada comigo para me bater, acabei entrando de bode expiatório, sobrou pra mim, subindo a escada ainda ouvi o Tadeu falando “era melhor você ir na zona”, enquanto subia pra apanhar pensei “é isso, a zona”.

Esperei passar uns dias e procurei Gustavo e Rodrigo falando que ali estava a solução de nossos problemas, na zona. Rodrigo relutou um pouco devido ao trauma da cabra, Gustavo já se mostrou mais empolgado, combinamos que no fim de semana iríamos até lá e finalmente eu conheceria o mundo do sexo.

Botei a minha melhor roupa, a roupa de missa, encontrei os dois na praça e partimos pra zona, chegamos lá e estava bastante cheio, muitos homens bêbados, gritando, cantando, se divertindo, mulheres nem tão bonitas assim, mas com certeza melhores que uma cabra. Sentamos numa mesa e pedimos cachaça, a senhora que nos atendeu voltou com três copos de groselha, engolimos a groselha como se fosse cachaça e ficamos olhando o movimento. As horas passavam, era grande a rotatividade, o entra e sai dos quartos e os três lá tímidos, sem tem o que fazer.

Nesse momento três mulheres se aproximam e perguntam se podem sentar com a gente, atrapalhados respondemos que sim e puxamos cadeiras para que sentem, pedimos bebidas e a senhora entrega cachaça para as meninas e groselha para a gente. Papo vai e papo vem, Gustavo e Rodrigo estão animados conversando com as suas duas enquanto eu ficava praticamente
em silêncio com a que estava ao meu lado.

Só tive coragem de perguntar seu nome, ela respondeu que se chamava Magali, até que ela era bonita, loira, seios fartos, na hora quis ser um nenenzinho..mas além de não ser um estava completamente tímido, perguntei se ela estudava, ela riu e disse que a escola dela era a da vida, que nela tinha aprendido tudo e poderia ser uma ótima professora pra mim.

Engasguei com a groselha. Ela acendeu um cigarro, deu uma baforada no meu rosto e disse “você nunca esteve com uma mulher”, fiz cara de desdém e contei que tinha estado com muitas, que mulher era o que não faltava pra mim, ela olhou sério e repetiu a frase “você nunca esteve com uma mulher”, respondi que não, não tinha. Ela pegou na minha mão, disse que estava na hora de conhecer uma e me puxou, nisso os outros dois casais acompanharam, falamos com um senhor que estava no balcão e entramos em um corredor, eram os quartos.

O quarto não era grande coisa, era um cubículo com uma cama mal forrada, um travesseiro rasgado e um calor dos infernos. Entramos, ela me mandou tirar a roupa, tirei e pela primeira vez fiquei nu na frente de uma mulher. Ela me olhou de cima a baixo, riu e perguntou se eu não iria tirar os sapatos, pois é, estava pelado de sapatos e meias, pedi desculpas e retirei. Ela mandou que eu me deitasse e contou que eu iria ver estrelas.

Na hora que ela começou a tirar a roupa em vez de ver estrelas, comecei a ouvir barulho, era uma grande gritaria de mulheres, perguntei o que ocorria e antes que alguém me respondesse
ouvi um grito me chamando. 

Botei a ceroula, saí do quarto e encontrei o Gustavo também
com ceroula e a mulher que estava com o Rodrigo dizendo que ele estava morrendo. No quarto Rodrigo estava tendo um ataque epilético.

É..vocês não sabiam que ele sofria de epilepsia? Pois é,
até aquela noite eu também não. Segurei sua cabeça enquanto o Gustavo desenrolou sua língua, eu nunca tinha visto o Rodrigo ter um ataque epilético e ele resolveu ter na hora que eu iria transar pela primeira vez.

Em poucos minutos meu pai e o pai deles chegaram na zona, meu pai irritadíssimo me pegou pela orelha e disse que em casa conversaríamos, a conversa dele era surra de cinto, o pai dos meus amigos fez o mesmo com eles. Mas notei que o Gustavo sorria ao deixarmos o local, perguntou pra ele o motivo daquele sorriso e ele respondeu “deu tempo”.

Estava difícil pra transar, começava a pensar que provavelmente iria morrer virgem.             

 









quarta-feira, 27 de abril de 2011

Capítulo II - Bola de gude, teatro e Manoela

Minha infância caminhava assim, uma infância normal, feliz, de uma criança normal mesmo que tenha nome de “Doido”.

Eu era um menino que estudava, brincava, adorava brincar na rua, no meu tempo não existiam computadores, vídeo games, meu negócio era brincar de peão, pipa, bolinha de gude, futebol, ficar de noite na rua e contar histórias de fantasmas com meus amigos.

Existia um casarão abandonado no bairro que falavam que era mal assombrado, uma noite eu, Gustavo e Rodrigo nos sentindo os valentões, decidimos fazer uma expedição na casa, munidos com lanternas entramos a procura de fantasmas, só achamos ratos e o Rodrigo tratou de quebrar a perna rolando da escada, quase que ele que virou um fantasma.

Mas eu me sentia o maioral mesmo era na bolinha de gude, ah, nisso ninguém me vencia, eu era imbatível, nem tanto..um dia chegou um menino novo no colégio e na hora do recreio me desafiou para uma partida, jogamos “a vera” mesmo, expressão usada quando é com aposta, pra valer, apostamos 100 bolinhas de gude num jogo, o colégio todo parou pra ver o desafio, até a Manoela estava lá e eu perdi..

Minha primeira derrota, eu olhava incrédulo as crianças levantarem o menino nos braços e o comemorarem como o novo campeão, a Manoela dando parabéns, ele rindo feliz e pegando minhas bolinhas, nunca havia me sentido tão humilhado, nem quando numa pescaria com meu avô o peixe mordeu a isca e levou minha vara embora, fui pra casa de mãos abanando, cheguei chorando e meu pai veio me perguntar o que tinha acontecido.

Respondi e ele me deu uma bronca, disse que um Alencar Varela não chorava, ainda mais por causa de bolinhas de gude e que não criava derrotados, eu tinha uma semana pra levar de volta essas bolinhas pra casa, vencer o menino e que se eu não fizesse isso tomaria uma surra de cinto de ficar com marcas, falou e saiu da sala, nisso chegou meu avô que ouviu toda a história, me fez um carinho na cabeça e falou pra eu não me preocupar, que iria me ensinar técnicas pra vencer o aluno novo.

Fiquei uma semana treinando com meu avô no quintal de casa, treinávamos o jogo de triângulo, consistia em a gente com nossa bola conseguir conquistar e tirar do triângulo o máximo de bolinhas, o com buracos, onde se usa a famosa expressão “marraio, feridô sou rei”, onde temos que conseguir colocar a bolinha em três buracos antes dos opositores e também o desafio cru mesmo, de um tentar acertar o outro, era como o Daniel San treinando karatê com o Sr. Myiagy (sim, sou velho, mas vi karatê Kid), faltava só meu avô me mandar pintar cerca e falar que fazia parte do treinamento.

Treinei muito, sangue, suor e lágrimas, ta, nem foi isso, exagerei, mas me senti pronto e desafiei o menino, o colégio parou de novo, apostamos 300 bolas, todas as bolas que eu tinha, se perdesse era meu fim, a Manoela foi assistir, aquilo me fez tremer, comecei perdendo mas reagi e venci, o fim foi diferente, os meninos me levantaram dessa vez, a Manoela me deu parabéns, o campeão estava de volta, restou ao garoto me cumprimentar e me dar as 300 bolas.

Voltei pra casa triunfante, me sentindo campeão mundial de alguma coisa, ator de Hoolywood, entrei e fui subindo as escadas, meu pai perguntou, apenas disse “venci” e pisquei pro meu avô, todas as vitórias da minha vida, até que não foram muitas, devo ao meu avô, o melhor homem que eu já conheci, minha mãe foi a melhor mulher.

Entrei no banheiro, tirei a roupa, me enfiei debaixo do chuveiro e despejei as 600 bolas, as minhas e as que conquistei, em cima de mim, eu merecia, eu era o campeão.

Sim, eu era campeão de bolinhas de gude, mas em assunto de coração eu era um “perna de pau”, via a Manoela todos os dias e mal conseguia falar com ela, me tremia todo com sua presença, não sabia como resolver, até que no meu colégio começaram aulas de teatro e resolvi participar, não porque eu me considerasse um grande ator, mas porque ela participava, iríamos encenar no fim do ano o nascimento de Cristo, ela seria a Maria, eu um dono de uma casa que recusaria hospedar os pais de Jesus.

Eram os meus melhores momentos na semana, quando eu tinha a oportunidade de ficar perto da Manoela, ensaiava com afinco as minhas três falas, me sentia um grande ator encenando Shakespeare, Manoela ficava linda vestida de Maria.

Chegou o dia da peça e deu tudo errado, cenário caindo, todo mundo esquecendo o que tinha que dizer, o que era pra ser um drama virou uma peça de comédia, na minha vez o menino que fazia o José esqueceu de dar a deixa pra que eu entrasse, deixa no teatro é uma fala ou ato que antecede entrada ou participação de alguém.

Nisso eu não entrei, a nossa professora mandava que eu entrasse e eu falava que o José tinha esquecido a deixa, foram uns cinco minutos nessa discussão e a platéia toda rindo, meu avô, minha mãe e meus irmãos gargalhavam, meu pai não sabia onde botar o rosto, até que entrei em cena, e os recebia em minha casa, eles se alimentavam, pediam pra se hospedar e eu não deixava.

Acontece que tinha uma cadeira na cena, que eu devia sentar, levantei e sentei algumas vezes na cadeira e a platéia percebeu que ela estava bamba, tentaram me avisar e eu não percebi, sentei na cadeira e ela quebrou, caí de bunda no chão.

Por alguns segundos fiquei paralisado no chão sem saber como agir, morto de vergonha meu mundo tinha acabado ali ao ver todos rirem de mim, ao ver a Manoela rindo de mim, mas uma idéia veio a minha mente, deixei de lado naquele momento o ator de Shakespeare e imaginei o que Chaplin faria naquele momento.

Então levantei, me virei para a platéia, fingi limpar a roupa e disse que não faziam mais móveis como antigamente e que os marceneiros deviam ser crucificados, a platéia gargalhou e começou a aplaudir, eu me abaixei agradecendo e ali salvava a minha participação e a peça, que continuou até o fim com muitos erros, como o fato da Maria ter dado a luz ao menino Jesus, estar com ele sentada na manjedoura e continuar com a barriga de grávida, mas aquele foi o meu dia, o meu momento, depois de encerrado recebi os cumprimentos de todos e um beijo no rosto da Manoela, a minha vontade era de nunca mais lavar meu rosto.

Era o momento mais amoroso da minha vida até então, superado dois meses depois quando um dia estava em casa e bateram na porta, atendi e era ela.

Deu um beijo de leve na minha boca, disse que gostava de mim e saiu correndo, fiquei sem reação, naquele mesmo dia peguei a minha bicicleta e saí correndo para sua casa, finalmente estava decidido a revelar todo o meu amor, quando virei a esquina de sua casa vi o carro de sua família indo embora e atrás um caminhão de mudanças, ela foi embora pra outra cidade, foi embora pra nunca mais voltar, foi embora da minha vida e se transformou em minha primeira desilusão amorosa, a primeira de muitas.

Mal consegui dormir naquela noite pensando no beijo que ela me deu e que ela tinha ido embora, dormi tão mal que acordei antes do meu avô para irmos pescar, levantei e bati na sua porta para sairmos, ele não me ouviu, bati mais, mais, mais..e ele não foi pescar comigo, não acordou naquela manhã, não acordou nunca mais.

O enterro do meu avô foi lindo e triste, quando o caixão dele desceu a minha infância também desceu e foi enterrada junto.










Capítulo I - Um pouco da minha infância

Meu nome é Doido..pausa pra risada de vocês..todo mundo ri quando descobre..ta bom já né não precisa avacalhar também, não, não é apelido, meu nome é Doido mesmo, Doido de Alencar Varela, meu nome é uma contração de dois nomes, Doriana, nome da minha mãe e Idovaldo, nome do meu pai, nasci no dia 9 de agosto de 1920 na pequena cidade de Tremembé do Oeste, uma cidadezinha que fica a quinhentos quilômetros do nada e mil quilômetros de coisa nenhuma, sou o caçula de três irmãos, Tadeu o nome do meu irmão, Sandra da minha irmã, é..eles ganharam nomes normais, meu pai, o Sr. Idovaldo Varela era o prefeito da cidade, até que tínhamos uma boa situação financeira, não faltava nada para nós, vivi uma infância normal, dentro de uma família normal, pelo menos eu pensava que era.
Minha rotina era a rotina de qualquer criança, minha mãe me acordava cedo, pra ir ao colégio, sempre tentava enrolar na cama, mas ela não deixava, acordava cheio de sono, ia pro banho e quando sentava na mesma já estava tudo posto com o esmero de sempre de minha amada mãe, o café preto, forte pra acordar, o leite quentinho, pão, manteiga, até hoje sinto o cheiro da manteiga derretendo no pão quentinho, o cheiro gostoso do café da manhã feito com amor, comíamos apressados e minha mãe falava “calma menino, parece que vai tirar o pai da forca!!” Eu achava graça quando ela falava isso e não entendia também, enquanto ela cuidava de nós, de nossa alimentação meu pai sentado à mesa não dizia uma palavra, jornal aberto nas mãos, lia sério, concentrado, as vezes esbravejava algo reclamando de algum aumento de preço ou algo que acontecia na capital do país.
Meu avô por parte de mãe vivia conosco, chamado carinhosamente de Ventania..ele ganhou esse apelido porque na juventude ninguém andava de cavalo tão rápido quanto ele, dizem que foi assim que ele conquistou a minha avó, ela tinha marcado com dois rapazes e ele chegou antes, meu avô era um doce de pessoa, um grande amigo que passava o dia cuidando de seus passarinhos na gaiola e ouvindo rádio, adorava ouvir músicas na vitrola também, mas no fundo meu avô era um homem triste, sentia saudades da minha avó, vovó Ema, convivi pouco com ela, mas lembro que me amava muito e fazia os melhores pastéis que já comi na minha vida, vovô sentava conosco na mesa mas bebia apenas leite, falava que o pão com manteiga atacava sua azia e logo levantava pra dar comida aos passarinhos.
Levantava-me, escovava meus dentes e ganhava benção da minha mãe, partíamos os três pro colégio, a manhã toda lá, as aulas com a tia Gema eram boas, adorava história e português, mas odiava matemática, sempre odiei e até hoje sou fraco em contas, nunca consegui entender o teorema de Pitágoras, equação de 2° grau, tive muitos pesadelos com X e Y, mas não era isso que mais me atraía no colégio, era a Manoela, menininha da minha turma, mesma idade, que eu amava em silêncio, dizia que era a minha namorada mas ela nem sabia, não tinha coragem de me declarar, a Manoela era loirinha, simpática, conversava com todo mundo, muito popular e eu um menino
tímido, poucos amigos, nunca que conseguiria algo com ela .     
“Doido!! Se você não falar com ela aí que não conseguirá nada !!”
Era isso que eu ouvia e ganhava um tabefe na cabeça quando sentado na cadeira da sala de aula eu me desligava do mundo e ficava olhando a Manoela, o tabefe normalmente partia do Gustavo e o Rodrigo do lado rindo falava “O Doido não é de nada, só é de marmelada”, Gustavo e Rodrigo eram dois irmãos, os meus melhores amigos, não só daquela época mas foram os melhores amigos que tive na minha vida, nós éramos inseparáveis, em todos os cantos juntos
Depois das aulas corríamos pra casa, almoçávamos e já nos encontrávamos na rua pra jogar bola, ficávamos na rua jogando, nos divertindo até de noite, os nossos jogos eram muito concorridos, a molecada toda da cidade aparecia, meu irmão Tadeu jogava com a gente e era muito bom de bola, minha irmã Sandra aparecia as vezes também, o curioso que quando ela aparecia os meninos não ligavam mais tanto pro jogo, adoravam conversar com ela, saíam das partidas e iam passear com minha irmã, longos passeios, algumas vezes os meninos nem voltavam, quando íamos ver tinham poucos nas partidas, nem jogávamos com o time completo, situação estranha mas parecia que minha irmã era mais popular que nossas partidas de futebol.
Os jogos iam até de noitinha, até o momento que ouvíamos o assovio do meu pai, esse assovio era um código dele, no primeiro já era pra ficar atentos e correr pra casa, porque se ele desse o segundo era surra de cinto na certa quando chegasse em casa.  
 Chegava em casa, fazia meu dever, jantávamos e nos reuníamos um pouco na sala, perto do aparelho de rádio pra ouvir as notícias e os programas de variedades, meu avô contava histórias de sua juventude, do século XIX, Tadeu e Sandra não gostavam muito de ouvir, mas eu adorava, fascinado parava e ouvia meu avô contar como se estivesse vivendo a situação naquele momento, os olhos cansados dele ganhavam vida, parecia um adolescente, depois minha mãe avisava que era a hora de dormir, botava meu pijama, me ajoelhava ao lado da cama e com as mãos nela rezava e agradecia a Deus por ter protegido a minha família, é, eu era uma criança feliz.
Fim de semana a situação era um pouco diferente, mas eu acordava cedo da mesma maneira, meu avô me chamava antes de amanhecer para irmos pescar, passávamos o dia inteiro na beira do rio pescando e ouvindo suas histórias de pescador, de como era bom, os tipos de peixe que apanhou, contou que costumava pescar peixes maiores que ele, eu nunca conseguia pescar nada, era uma negação, pra dizer a verdade ele também não, mas na verdade nem íamos pro rio pra pescar, íamos por nos amávamos e amávamos nossa relação, estar juntos, voltávamos rindo, de mão abanando e antes de entrar em casa passávamos na peixaria pra comprar peixe, afinal saímos pra pescar e bons pescadores não voltam pra casa de mãos abanando.
No fim da tarde nosso esporte preferido era jogar botão, eu narrava os jogos como se fosse um jogo de verdade, eu sempre o vencia e saía contando vantagem que era o melhor, depois de alguns anos que fui entender que na verdade ele me deixava ganhar e fazia aquilo pra me deixar feliz.
Domingo era dia de missa, minha mãe nos acordava cedo, botava minha melhor roupa e íamos pra missa do padre Pinheiro, padre novo ainda, na casa dos trinta e poucos anos, moreno, bem apessoado, as beatas suspiravam por ele, a sua missa era muito bacana, não era chata, eu gostava de ir me confessar com o padre mesmo tendo nada pra confessar, ia lá e ele já me reconhecia falando “Doido, você não tem nada pra confessar, vá pra casa vai” e me passava cinco pais nossos e cinco ave marias por importuná-lo, depois da missa vinha a melhor parte, o almoço de domingo e esse almoço era muito caprichado, minha mãe era uma cozinheira de mão cheia e fazia uma macarronada maravilhosa.
Era no almoço de domingo que meu pai nos dava mais atenção, ele perguntava como havia sido a semana, queria saber principalmente do colégio, o papo era engraçado, era mais ou menos assim..
Doido: Mãe me passa mais macarrão

Idovaldo: E então, como foram nos estudos

Tadeu: Tirei 10 em geografia pai

Idovaldo: Parabéns meu filho e você Sandra?

Sandra: Não tive provas essa semana pai

Tadeu: Mentira pai, todo mundo teve

Doido: Mãe me passa mais macarrão !!

Sandra: É mentira dele pai, a minha turma não teve

Tadeu: Teve sim pai, é porque a Sandra não fica o tempo todo em sala de aula

Idovaldo: Como assim dona Sandra? O que você fica fazendo?

Doido: Macarrão mãe !!

Sandra: Nada pai, eu faço parte da comissão de jovens católicos do colégio e as vezes tenho que me ausentar, mas participo sim das aulas

Tadeu: Curioso pai que só tem meninos nessa comissão, porque ela só anda com meninos

Idovaldo: É verdade isso Sandra?

Doido: Mãe!! Macarrão !!

Sandra: Não pai, é mentira!!

Tadeu: No futebol também pai ela sempre vai lá pra conversar sozinha com os meninos, parece uma rameira

Doido: Pai, o que é rameira?

Idovaldo: Doriana !! Você vai dar o macarrão desse garoto ou eu terei que dar??

Minha família era assim...


Vou dar um presente pra vocês, vai aí a receita da macarronada maravilhosa da minha mãe

Macarrão Com Creme de Leite

ingredientes

  • 2 pacotes de macarrão (500grs) talharim
  • 600g de mussarela fatiada e picadinha
  • 600g de presunto fatiado e picadinho
  • 2 lata creme de leite com soro
  • 1 cebola picadinha
  • 2 colheres (sopa) de margarina

modo de preparo

Cozinhe o macarrão normal com água um fio de óleo e sal. Escorra-o e reserve.
Numa panela, refogue a margarina com a cebola e quando amolecer a cebola sem escurecer, coloque o presunto.
Quando der uma fritadinha no presunto, desligue o fogo e coloque o creme de leite e reserve. Num refratário, despeje a mistura da panela, a mussarela picadinha, o macarrão e assim em camadas até terminar, cobrindo com mussarela. Levar ao forno para derreter e corar um pouquinho a mussarela.

Bom apetite

APRESENTAÇÃO

Oi, tudo bem? Sei lá, fico meio sem graça me apresentando, sempre fui tímido, um garoto tímido, um adulto tímido, não seria depois de burro velho que mudaria isso né? Mas enfim, melhor eu escrever algo útil pra vocês antes que fechem esse livro e coloquem de novo na estante da livraria, sei lá, tem tantas opções boas por perto, vai que saiu um novo Harry Potter, o Paulo Coelho fez alguma viagem mística pra Botsuana, aí esse aqui fica cheio de teias de aranha.
Enfim, eu poderia estar roubando, matando, enchendo a paciência de vocês vendendo chicletes no ônibus, mas não, venho humildemente anunciar o meu livro, ele não é um livro de auto ajuda, você não ficará rico lendo, eu talvez consiga pagar a conta de luz se você comprar, então seria um livro de auto ajuda pra mim, não contém viagens místicas, não tem bruxo adolescente, é apenas uma autobiografia e também não é a autobiografia de ninguém famoso, sou uma pessoa normal como você, como meu editor, espero ter arrumado um, como o vendedor aí da livraria e até mesmo o cara que acabou de entrar aí pra assaltar, ih caramba, ele ta armado, melhor alguém fazer alguma coisa, sou uma pessoa como outra qualquer com muitas histórias pra contar, algumas podem parecer verdade, outras não, tira suas conclusões.
São apenas confissões de um cara normal e por si só acho que vale a pena, divirta-se e caso não goste pense pelo lado positivo, pelo menos aquela sua mesa bamba ganhará um calço.