sexta-feira, 29 de março de 2013

PAIS E FILHOS




“Estátuas e cofres em paredes pintadas, ninguém sabe o que aconteceu. Ela se jogou da janela do quinto andar, nada é fácil de entender”.

Esses são versos da música que dá o nome ao título da coluna de hoje no blog.“Pais e filhos” é um dos maiores sucessos da Legião Urbana e uma música que mexe com a gente quando toca.

Mais ainda com quem tem filhos.

Estamos próximos da Páscoa. Data que celebramos a ressurreição de Cristo, o filho dileto de Maria e de Deus e uma das datas mais familiares que existem, acredito abaixo apenas do Natal.

Data em que escondemos ovos de chocolate para nossos filhos procurarem, do almoço em família, tudo aquilo que comerciais de margarina adoram passar.

Data que cultivamos o amor entre familiares e o espírito de Jesus e do coelhinho da Páscoa, apesar do governo federal fazer anúncio de acidentes com música infantil querendo acabar com o último.

E logo depois da páscoa vem abril e abril é um mês importante demais pra mim, mês que descobrirei o sexo de meu segundo filho. Provavelmente pelas dicas de ultras anteriores será um menino o que me faria ter um casal.

A música diz “Meu filho vai ter nome de santo”. Pois é, o meu terá, será João como o santo e ainda terá o reforço de um anjo, Gabriel. João Gabriel, meu filho vai ter nome de santo, vai ter nome de anjo. Vai ser abençoado por Deus.

Anjos, santos, não sei dizer bem o que é um filho. Tenho uma menina linda que quem me conhece um pouco sabe como a amo, Ana Beatriz, a minha princesinha, a minha moleca bagunceira quem chamamos de Bia, Biazinha ou Bibica.

A Bia surgiu em um momento importante. No seio de uma família dizimada pela dor, com problemas alguns muito sérios e a salvou. Não sei quem mandou a Bia para nós, mas podemos apenas agradecer eternamente pelo maior presente de nossas vidas. Posso falar sem exagero nenhum que a Bia mudou radicalmente a vida de três pessoas. Salvou literalmente a vida de duas e me fez amadurecer.

Com a Bia mudei de estágio na vida. Uma mudança natural, que a maioria das pessoas passam e é tão difícil. Mudar de filho para pai ou mãe. Ainda mais pra mim que sempre fui o “queridinho”, o primeiro filho, primeiro neto, primeiro sobrinho e perdi tudo isso numa tacada só com morte de minha mãe. Tive que de uma hora pra outra sair de asas protetoras. Encarar o mundo e virar adulto.

Não era pra virar pai, não me preparei pra ser pai, nunca.  Uma namorada engravidou uma vez, mas perdeu a criança com quatro meses. Quem me conhece sabe que a Bia não é minha filha natural, apenas no sétimo mês de gestação me ofereci pra Michele pra registrar a criança e dar um nome a ela, ter a quem chamar de pai.

E era pra ser apenas isso, mas logo tive um bebê recém nascido em meus braços e não sabia como segurar. Depois dando mamadeiras, passando madrugadas com ela, ensinando a arrotar, tentando descobrir porque estava chorando e um dia me toquei que era pai.

Fui filho por vinte e oito anos, sou pai a pouco menos de quatro e posso dizer que muito da experiência desses vinte e oito anos estou usando nesses quatro. Todo o amor, carinho que recebi de minha mãe repasso pra Bia. A educação, o caráter, os princípios, as músicas que me ensinou, as brincadeiras. Todos os bons exemplos e as boas recordações que trago dela invisto na Bia sabendo que é o melhor para seu desenvolvimento.

Quando a gente tem um filho aprende a ser menos egoísta. Sabemos que tem um serzinho frágil que não sabe se defender nem sobreviver sozinhos que dependem da gente. Aprendemos que deixamos de ser prioridade em nossas vidas para eles serem. Se tivermos que deixar de comer por eles vamos, se tivermos que deixar de viver por eles vamos.

Sempre achei isso clichê, coisa da boca pra fora, mas é verdade. Não adquiri isso de imediato e nem deve ser assim, tem que ser naturalmente. Mas numa viagem a São Paulo senti saudades da Bia. Ela estava com quatro meses na época e comecei a perceber que algo diferente ocorria.

E tive a certeza que era louco por ela e não podia mais viver sem minha Bia quando com oito meses ela sofreu uma queda na casa da avó e parou hospital sem eu ter certeza do que ocorrera de verdade. O desespero foi tão grande e o choro veio tão de imediato quando soube que ela estava bem que percebi que uma grande história de amor nascera.

O amor mais puro e bonito que existe. Entre pais e filhos. O amor que não pede nada em troca, que só quer aquele alvo do amor feliz mesmo que aquilo não seja a nossa felicidade. Com a Bia aprendi a conhecer melhor a Regina, minha mãe. Depois de alguns anos morta aprendi não só a conhecê-la melhor como a entender seus atos em relação a vida e em relação a mim.

Percebi que eu fui o grande projeto de sua vida e mesmo com todo sofrimento do fim ela foi tranqüila porque seu projeto se encaminhara pra andar com suas próprias pernas e que agora essa é a minha missão, fazer a Bia e o João Gabriel caminharem.

Ter filho é saber que você nunca mais terá paz. Quando pequenos nos preocupamos com seu chorinho no berço ou quando estão quietos demais. Mais velhos com as quedas aprendendo a caminhar e as doenças. Uma simples tosse é um desespero. Depois nos preocuparemos porque chegam tarde em casa acabando com nossas madrugadas ou quando o amor machucar seu coração. Aí serviremos como um band aid mal colocado tentando com colo e cafuné diminuir essa dor.
 
Adultos serão nossas eternas preocupações até porque filhos para seus pais sempre serão crianças. Mesmo que já cuidem de outras crianças.

Minha maior frustração na vida é saber que minha mãe nunca pegará a Bia no colo, assim como não pegará o filho que vai nascer e minha maior preocupação é saber como conduzirei essas duas crianças até se tornarem adultas. Mas eu também não sabia como lidar com a infância e acho que estou conduzindo muito bem.     

Além do mais sei que não estarei sozinho. Tem alguém lá em cima cuidando de mim, da Bia e do Biel na barriga da Michele e essa pessoa nunca me abandonará mesmo depois de morta.

Você vai me ajudar nessa mãe, não adianta, não vai escapar. Cuide de seus netos que estará cuidando de mim. 
Seus netos..Nunca imaginei falar isso pra dona Regina. Mas são..A vida continua e é linda por causa disso.

São meus filhos que tomam conta de mim...



      

quinta-feira, 28 de março de 2013

AS ÁGUAS DE MARÇO



*Coluna publicada no blog Brasil Decide em 24/3/2013

Ligo a TV, boto no RJTV e lá fala da tragédia da chuva. Vejo sites da internet e as manchetes são “Dilma se solidariza com vítimas das chuvas”. Penso, as imagens e as manchetes são de hoje ou foram reaproveitadas?

As chuvas no verão brasileiro são tão tradicionais quanto o Natal, reveillon, carnaval e superfaturamento em obras. Uns quarenta anos atrás Tom Jobim compôs a música “águas de março” que diz “São as águas de março fechando o verão é promessa de vida no meu coração”.

Quer dizer. Décadas atrás Tom Jobim já cantava as chuvas de nosso verão e os governantes sempre são pegos de surpresa. Não é maravilhoso?

A chuva é federal? Estadual? Municipal? De oposição? Culpa do BBB? Não sei, só sei que todos os anos as águas caem e provocam tragédias. O pessoal da oposição corre culpando os governos esquecendo que já estiveram no governo e nada fizeram em relação a isso. Os adeptos do governismo correm pra defender dizendo que leram não sei aonde que as chuvas que caíram na região serrana desse ano foram mais intensas que todas as de 2012 juntas.

Ta explicado né? O governo, seja lá qual for, foi pego de surpresa. Natural, afinal de contas foi no longínquo ano de 2011 que tragédias na região Serrana ocorreram pela última vez.

Como nossos pobres políticos podem prever depois de tanto tempo que outra forte chuva iria cair levando barracos e pessoas?

Eu falo mais da situação do Rio de Janeiro porque aqui que eu vivo e conheço melhor, mas o leitor pode levar a situação pra sua cidade que tenho certeza que é a mesma. Aqui rapidamente nós achamos fotos da Praça da Bandeira, região perto do estádio do Maracanã do início do século XX com a mesma transbordando e parecendo um rio. 

Achamos desse ano com as chuvas que ocorreram semana passada e está a mesma situação. Em cem anos não resolveram o problema da Praça da Bandeira!! O Japão tomou duas bombas atômicas na fuça nesse período e se não fossem as diversas homenagens que existem no país ninguém perceberia.

O Japão se recompôs de duas bombas atômicas e o Rio não resolve o problema da Praça da Bandeira.

Pior. A última chuva que devastou nosso estado foi em 2011. Dois anos. Novas vítimas das chuvas surgiram em 2013, novos desabrigados e muitos dos desabrigados de 2011 estão sem suas vidas solucionadas, muitas das áreas atingidas não foram reconstruídas.

Na mesma época, fim de 2010 começo de 2011 ocorreu o tsunami no Japão devastando o país e ele se recuperou!! Tsunami!! Não foi meia hora de chuva!! Mas a impressão que dá é que a chuva foi lá e o tsunami aqui!!

De quem é a culpa? De todo mundo.

Da natureza. Sim, da natureza que fez o Rio cheio de montanhas, morros que provocam desabamentos e dificuldades no escoamento da água.

Do prefeito Pereira Passos no começo do século XX que fez o “Bota abaixo” retirando as pessoas de suas casas não dando locais pra elas ficarem e essas sendo obrigadas a ocupar os morros cariocas e fluminenses.

Por “coincidência” isso ocorre novamente agora no governo Eduardo Paes.

Da população que joga seus lixos nas ruas em locais não preparados para o recebimento. Lixo que é levado pelas águas e entope os escoamentos. Na última chuva aqui na capital em todas as fotos mostrando a enchente tinha sacos de lixo.

Aliás, a última enchente em Caxias foi piorada porque o ex-prefeito Zito por raivinha de não ser reeleito parou com a coleta de lixo e as conseqüências vieram em janeiro.

E principalmente dos governantes que se aproveitam dos motivos que dei e tiram o corpo fora. Tudo o que eu falei acima é real, mas não são motivos o suficiente para que esse problema não seja resolvido. Como falei, existem fotos de cem anos atrás e todos nós lembramos de tragédias ao longo dos anos.


Rio de Janeiro 66, 88, 96, São Paulo 2010, Niterói 2010, Região serrana 2011 e 2013. Sem forçar muito lembrei de várias. Acontece que essas tragédias ocorrem em época específica do ano e no restante do mesmo esquecemos e o governo empurra com a barriga. Porque obras pra evitar enchentes custam caro e não dão votos.

Na região serrana mesmo a única providência que se tem notícia de 2011 pra cá é que instalaram um aviso sonoro em caso de possibilidade de chuva.  
Pouco. Muito pouco para vidas perdidas, para ver sonhos serem levados por enxurradas.

Não é uma bomba atômica. Não é uma onda de tamanho extraordinário.

É chuva, uma simples chuva.


É pau, é pedra, é o fim do caminho.




 




   


O GRANDE IRMÃO NA SOCIEDADE DO ESPETÁCULO



*Coluna publicada no blog Ouro de Tolo em 24/3/2013

Bem, decidi voltar ao tema da sociedade do espetáculo ate porque ela sempre cria fatos novos.

Na próxima terça começará o ano de 2013. Antigamente a gente dizia que o ano começava quando acabava o carnaval, agora é quando acaba o BBB.

Hoje saem os finalistas e quatro são os candidatos ao título de um milhão e meio de reais. Fernanda, Nasser, Andressa e Natália.

Quem você acha que ganha?


Não sei quem você acha e também não é o tema dessa coluna as chances de cada um. Para isso têm os sites da uol, ego, terra e etc pra informar.

Falaremos do BBB, mas por outro ângulo.

Não vai nenhum elogio e nenhuma crítica ao fato de falar que o ano começa quarta. Só ver os fatos. O ano inicia-se oficialmente dia 1 de janeiro e logo depois já começa o BBB que fica sendo o principal produto da Globo, de todas as atenções até sua final e só depois dela se inicia a programação do ano da emissora.

Qual a graça do BBB?

O programa é a mesma coisa que você pegar a família e ir domingo ao zoológico achar graça de ver os macacos comerem banana ou nos primórdios do mundo reunir a rapaziada de casa e ir ao coliseu ver um cristão virar comida de leão.
Entretenimento da curiosidade com a vida alheia.

O temo Big brother vem do livro “1984” de George Orwell. A história contada é a de Winston que vive aprisionado numa engrenagem totalitária de uma sociedade completamente dominada pelo Estado. Onde tudo é feito coletivamente, mas cada qual vive sozinho e ninguém escapa da vigilância do “Grande Irmão”.

O programa virou sucesso pelo mundo e chegou ao Brasil no fim de 2001 no SBT sendo chamado de “Casa dos artistas”. Um monte de subcelebridades reunidas em uma casa durante meses. A globo que comprara o formato da empresa holandesa que o criou tentou tirá-lo do ar e não conseguiu. O programa foi grande sucesso.  

Em 2002 A globo finalmente estreou o formato brasileiro chamando de “Big Brother Brasil”. O programa já tem onze anos, fez alguns milionários, transformou anônimos em famosos esporádicos e alguns realmente se tornaram pessoas famosas até hoje como o deputado federal Jean Wyllys, a atriz Grazy Massafera e a apresentadora do Pânico Sabrina Sato.

Programa polêmico. Muito debatido e criticado por ser vazio com pessoas vazias em um ambiente vazio. Mas faz sucesso, muita gente gosta e assiste.

Eu mesmo que me considero uma pessoa com alguma cultura e abrangência no conhecimento assisto mesmo dizendo que não vou assistir. Por quê?

É a sociedade do espetáculo amigos. Uma das características da sociedade do espetáculo é colocar o produto na sua mente porque tudo é produto pra ela seja um BBB, o novo papa argentino, a chuva provocando desastres e o novo técnico do Flamengo.

E nesse caso juntam a sociedade do espetáculo e seu jeito agressivo de divulgar o produto com aquele sentimento que é o mais humano que existe. A curiosidade.

O buraco da fechadura. O macaco no zoológico e o cristão no coliseu. Curiosidade, morbidez. Vibrar com a briga no BBB como quando um piloto bate na F1. A novela da vida real. O brasileiro adora novela, se puder orientar através de seus votos como a novela prosseguir melhor ainda.

A Globo é mestre no entretenimento e com sua campanha maciça nos faz deixar de assistir pra fazer parte do programa. Nos envolvemos com aquelas pessoas que nunca vimos na vida e três dias depois nem lembraremos quem é. Chamamos de falsos, jogadores, cretinos quem nem conhecemos direito, esquecendo que aqueles ratinhos de laboratório estão ali brigando por um milhão e meio de reais. Grana que muda a vida de qualquer um.

Elegemos mocinhos e vilões da vida real quando tudo ali é fake. A Globo nos chama como o canto de uma sereia “Vem, ame esse, odeie esse”. Faz o pobre manipulado como eu, assistir coisas editadas como verdadeiras e se quiser ver mesmo como é de verdade compre o PPV. É baratinho e você poderá passar a noite vendo os ratinhos dormindo.

Os BBBs não acrescentam nada a nossa vida, a nossa realidade. Na maioria das vezes são realmente pessoas vazias em um programa vazio como citei acima. Pessoas “guerreiras” e que ganham a “idolatria nacional” mesmo não sabendo soletrar “possessivo” ou dizendo que a capital de Rondônia é Roraima. Amamos fulana porque é verdadeira e queremos que vença o programa. Verdadeira? Como você sabe se ela é verdadeira se consegue muitas vezes ser traído por amigo de uma vida inteira?

Sua audiência vai caindo ao longo dos anos. Perdeu a aura da novidade, mas ninguém cogita tirar do ar e nem vai tirar. Por quê? Porque TV não é necessariamente audiência, é muito mais anunciante.

Tudo no programa tem um merchandising, um anunciante, um produto. Empresas se digladiam pra ter seus produtos na casa e a Globo que dá um milhão e meio pra quem vence fatura pelo menos cem vezes mais.

Vai acabar com um programa assim? Evidente que não. 

A sociedade do espetáculo precisa do BBB e seus ratinhos e precisam de nós assistindo esses ratinhos e não percebendo que os ratinhos manipulados somos nós.

Que compramos aquela novela como verdade. Que achamos que com o voto decidimos algo. Compramos seus produtos, compramos suas idéias. Compramos pra nossa vida algo que é apenas entretenimento como um filme ou qualquer programa de TV.

O BBB é forte porque a sociedade do espetáculo consegue manipular os sentimentos bons e ruins. Existe devido os fanáticos que acompanham e os intelectuais que criticam. Nessa guerra toda de gente que se acha superior por não ver e gente que vê e se acha superior por votar muitas vezes em site e por telefone contra os falsos quem vence é a emissora e seus anunciantes. 

Terça sai um novo milionário da casa. Alguém que desperta paixões, que ficaremos felizes ou irritados por vencer, mas daqui a pouco esqueceremos porque um novo produto da sociedade do espetáculo surgirá. 

Até que um dia descobriremos que somos Winston vigiados pelo “Grande Irmão” ou Jim Carrey em show de Truman.

Será que um dia pegaremos a liderança?


Não. A sociedade do espetáculo já pegou e estamos no paredão.

Vai, trinta segundos pra sua defesa.









quarta-feira, 27 de março de 2013

ELIS REGINA E OUTRAS MULHERES BACANAS



Eu gosto de navegar pelo youtube, principalmente na parte da madrugada onde tudo fica mais tranqüilo. Sou notívago desde pequeno, devo ter pego isso de minha mãe e assumo, adoro a noite.

Numa dessas madrugadas procurei uma música “dois pra lá, dois pra cá” de João Bosco e Aldir Blanc porque iria escrever um conto pro Ouro de Tolo em que usaria parte dessa música. Ouvi interpretação da Elis Regina. Grande interpretação.

Nos vídeos relacionados tinha “Como nossos pais” de Belchior. Um dos grandes compositores de nossa história que infelizmente hoje em dia só é lembrado pela mídia e por pessoas por causa de confusões. Pois bem, assisti o vídeo e me espantei.

Não tenho dúvidas em dizer que essa interpretação foi a mais marcante que vi em toda minha vida. Elis era baixinha, chamada de pimentinha, mas parecia uma gigante quando cantava. Interpretação visceral, com a alma. A mulher olhava para a câmera e mesmo pequenina conseguia meter medo. A veia do pescoço aparecendo, os olhos com fúria. Maestria na voz.   

É o vídeo que postei acima.

Aí lembrei que semana passada fiz uma coluna citando quatro homens monstros sagrados da música, que viraram cinco com a morte repentina de Emílio Santiago e nada mais justo então que fizesse na semana seguinte falando de mulheres.

E nada mais justo que começar por Elis, pra mim a maior cantora que esse país já teve.

Morreu jovem, com apenas trinta e seis anos e assumiu perfeitamente o papel de “grande cantora com vida trágica” que tantas assumem desde que a primeira mulher abriu a voz pra cantar. Elis era na vida como no palco, se entregava de corpo e alma, botava o coração na frente. Um talento em erupção.

São muitas as grandes interpretações dessa gaúcha que despontou cantando “Arrastão” de Edu Lobo e Vinicius de Moraes. Muitos os amores que marcaram sua alma, as dores que comprimiram seu peito e lhe fizeram sair de cena em definitivo em 1982 provocando comoção nacional.

Trinta e um anos se passaram e a certeza que fica é que Elis nunca será esquecida.

Assim como Maysa Matarazzo


Outra da escola de Elis Regina de dramaticidade. Casou-se nova com um homem dezessete anos mais velho e seu casamento ruiu quando decidiu levar a música a sério. Mulher de muitos amores, muitas desilusões.

Eu sempre digo que a infelicidade é uma arma a favor do artista e Maysa aproveitou bem para se tornar uma das grandes do gênero samba canção e fossa. Sua voz passava melancolia, tristeza, mas também beleza.

Muitos são seus sucessos como cantora e compositora. Destacam-se “ouça”, “meu mundo caiu”, “tarde triste” e a magistral interpretação da canção francesa “ne me quitte pas”.

Não conseguiu o mesmo sucesso na vida pessoal. Depressiva começou a beber demais e usar medicamentos. Isolada, solitária morreu com apenas quarenta anos em um desastre automobilístico na ponte Rio-Niterói enquanto ia pra sua casa de Maricá.  Com apenas quarenta anos uma das vozes mais bonitas e dramáticas do Brasil se calava. Uma vida em alta velocidade que deixou como última anotação a frase “Hoje é novembro de 1976, sou viúva, tenho 40 anos”.

Vidas que se interrompem cedo, no auge da maturidade artística. Vidas que não conseguem muitas vezes acompanhar o sucesso das carreiras.

Combinação drogas, bebida e talento já me puxou outra estrela na mente.

Cássia Eller.


Cássia era nitroglicerina pura, furacão, tsunami que devastou o cenário da nossa música antes mesmo daqueles na Ásia. Homossexual assumida, mulher de atitude, coragem que pôs um filho no mundo em produção independente, assumiu caso com integrante de sua banda e mostrou os seios no rock in rio.            

Cássia podia ser debochada cantando que não era mais uma garotinha, podia ser doce lembrando que um dia chegamos a acreditar que tudo era pra sempre e o pra sempre sempre acaba.

Podia ser raivosa cantando Nirvana, a mãe do Chicão, a voz do rock nacional que respira por aparelhos numa UTI, a saudade que fica em toda uma geração.

Cássia faz falta. Sua rebeldia que podia virar doçura preenche com ausência sentida o nosso cenário artístico. Tão imprevisível nas atitudes foi previsível na hora de morrer. Morreu de enfarte. Mais um coração que não agüentou tantos excessos.


E ela nem esperou o segundo Sol chegar.

E pra finalizar um ser de luz sobre a coluna.

Clara Nunes.


Mais uma que chegou apenas aos quarenta anos e deixou uma saudade imensa até hoje. Portelense, umbandista, cantou suas paixões como ninguém e vendeu discos como ninguém também sendo a primeira cantora brasileira a ultrapassar as cem mil cópias vendidas.

A sambista mineira, mas com alma carioca se consagrou como uma das cantoras mais populares do Brasil nos anos 70. Nesse período e nos anos 80 gravou grandes sucessos como “menino Deus”, “o mar serenou”, “canto das três raças”, “morena d`angola” e “Portela na avenida”. O verdadeiro hino da escola de Madureira.

Clara não teve drama com drogas e bebidas como as de cima, mas teve também seu sofrimento pessoal. A cantora tinha como um de seus sonhos ter um filho e sofreu três abortos espontâneos por miomas no útero que acabou sendo removido. A obsessão se transformou em sofrimento e trouxe abalos emocionais.

Em 1983 se internou para uma simples cirurgia de varizes e não mais voltou. Morte cercada de polêmicas onde até bruxaria é cogitada. Clara agonizou por 28 dias e seu velório foi realizado na quadra da Portela que tanto amava para cinquenta mil pessoas.

Clara foi muito homenageada. Logo após a morte com a música “Ser de luz” de Paulo César Pinheiro (seu marido) e Mauro Duarte com interpretação magistral de Alcione. No ano seguinte fez parte do enredo da Portela.

Dizem que na hora que a Portela entrou na avenida pra cantar “É cheiro de mato, é terra molhada, é Clara Guerreira, lá vem trovoada” começou a trovejar na Marquês de Sapucaí. Era o trovão de Clara anunciando sua presença com a escola na avenida em seu último título do carnaval.   

Clara claridade, ser de luz que nasceu pra fazer feliz os corações dos brasileiros. Clara era uma entidade, uma força da natureza.


Quatro grandes cantoras que partiram muito cedo. A sorte que o artista não morre, se torna imortal através de sua obra e muitas pessoas que nasceram após essas mortes tem a oportunidade de conhecer seus trabalhos e virar fãs.

As vozes de Elis Regina, Maysa, Cássia Eller e Clara Nunes superam o tempo e o espaço.


Vozes que entram na onda sonora da emoção.










terça-feira, 26 de março de 2013

MEU GURI


*Conto publicado no blog Ouro de Tolo em 30/6/2012



E lá foi Filó descendo mais uma vez o morro. 

Com dificuldade devido aos oito meses de gravidez recebeu um “boa noite tia” dos soldadinhos do tráfico do morro e com medo e arfando respondeu. Lá foi Filó para mais uma noite de trabalho.

Lá foi Filó para a Vila Mimosa, conhecido centro de prostituição no Rio de Janeiro. Apesar de já ter passado dos quarenta anos e há algum tempo não ter a beleza da juventude essa era a forma de Filó sobreviver. Mulher sozinha e moradora de favela esse foi o único trabalho que a mulher conheceu desde quando ainda menina se oferecia a caminhoneiros na beira da estrada onde morava.

Engravidou em um “acidente de trabalho” não tendo a mínima idéia de quem fosse o pai. Cogitou no início abortar e inclusive tomou remédios, mas o danado era forte e não teve remédio que conseguisse lhe matar. Sem recursos, sem cultura Filó foi levando a gravidez sem acompanhamento médico, sem pré-natal e só sabia que o moleque estava vivo porque as vezes dava chutes em sua barriga. Filó ria e falava que seria jogador de futebol.

Sim, menino. Filó tinha certeza que carregava um. Quando era mocinha sonhava em ter filho homem, varão, aquele que lhe protegeria no mundo algo que nunca ocorreu na vida. Ela que cuidava dos irmãos menores depois que a mãe faleceu, pelo menos foi assim até o pai lhe aplicar uma surra de bambu e expulsar de casa ao saber que se prostituía.

Caiu no mundo, caiu na vida e estava nessa situação até aquele instante tendo que trabalhar com oito meses prestes a parir. 

Não era fácil a vida de Filó tendo que competir com meninas algumas vezes com dezesseis, dezessete anos. Era deixada de lado pelos homens e muitas vezes tinha que cobrar mais barato para que algum velho bêbado lhe notasse e levasse para o quarto. Os homens embriagados, com bafo de cachaça subindo em cima dela como animais no cio e Filó deitada na cama com a mão na barriga tentando proteger o seu guri.      

Como já disse não era dotada de muita beleza e pelas costas sofria ironias das outras prostitutas e de clientes por sua idade e ainda por cima estar grávida, mas Filó tinha bom coração e sempre que podia ajudava as meninas, dava conselhos e até em casa chegou a levar algumas para almoçar quando estas não tinham o que comer e mesmo ela tendo pouco até para si.

Na noite descrita no começo Filó não foi muito feliz no trabalho. Já começava a madrugada e o frio do inverno tomava conta da Mimosa. 

Vestida com poucos trajes que em vez de passar sensualidade apenas passava constrangimento Filó sentada em uma mesa do lado de fora do bar bebia um trago pra tentar se esquentar quando sentiu um líquido escorrer pelas pernas.

Notou que sua bolsa estourara, sentiu fortes contrações e correu atrás de um taxista amigo pedindo ajuda. O homem não pensou duas vezes e levou filó ao hospital mais próximo. Chegou ao local já em trabalho de parto.

“Mas que moleque danado e apressado” pensou Filó, sim porque ela estava ainda de oito meses, mas o guri queria nascer logo. O parto foi complicado porque o menino estava atravessado, mas o fim foi feliz e ele nasceu.

Nasceu sem chorar o que deu susto na equipe médica, mas com um tapinha deu tudo certo e ele abriu o berreiro. O médico cortou o cordão, embrulhou o menino chorão em uma manta e entregou nos braços de Filó. O primeiro contato entre mãe e o filho, o começo de uma história de amor. 

Filó olhou aquele menininho em seus braços e sentiu algo inexplicável, coisa que só uma mãe sente. Não era o momento ainda dele nascer, ainda faltava um mês e Filó ainda tentava arrumar mais algum dinheiro e comprar coisas que o menino precisaria, mas quando Deus manda temos que acatar e assim Filó pensou.

Olhava o garoto em seus braços e falou “tadinho, já nasceu com cara de fome”. Não pensara em um nome, nada e perguntou ao medico qual era seu nome, ele respondeu Ricardo e Filó disse que seria esse.

No fim da madrugada a chuva batia na janela e Filó dava seu peito ao filho como seu primeiro alimento e cantava baixinho pra lhe ninar.

Foi levando a vida como podia, com a garra de uma mãe e assim aos trancos e barrancos conseguia criar Cadinho, apelido que o menino ganhou. Nem ela sabia explicar como conseguia, mas talvez no fundo soubesse sim. Era quando fazia o almoço, gritava que estava na mesa e lá vinha o moleque correndo arteiro com uma pipa na mão dizendo que cortara as pipas dos outros moleques.

Cadinho lavava as mãos e sentava-se a mesa com a mãe que puxava a oração e agradecia ao Senhor por aquele alimento. Muitas vezes era uma sopa rala, mas era o que o dinheiro conseguia comprar e ela agradecia da mesma forma que se fosse uma comida farta.

Cadinho, bom menino, nunca foi de dar trabalho para a mãe. Soltava pipa, jogava bola, rodava peão e estudava em um colégio público perto de casa. Filó chegava de manhã da Vila Mimosa e sem dormir preparava um café preto com pão dormido para o filho e lhe acordava para a escola. O menino já chegava à mesa com o uniforme, banho tomado, penteado e tomava seu café.

No fim Filó olhava seus cabelos para ver se tinha piolhos, suas unhas para ver se não estavam grandes e sujas e dava um beijo em sua testa dizendo “boa aula meu filho, Deus lhe abençoe”.  O menino ia para a aula, mas ela não conseguia descansar com medo da violência que assolava a cidade, só respirava aliviada quando ouvia a porta abrir e o “mãe cheguei”.

O menino foi crescendo e começando a entender as coisas e no que a mãe trabalhava. Uma noite Filó se despediu de Cadinho e ele pediu “mãe, vai não”. Filó cheia de ternura e pena chegou próxima ao filho e disse que tinha que ir senão não teriam o que comer no dia seguinte. Deu um beijo em sua testa e pediu que não fosse dormir tarde saindo de casa.

Cadinho com lágrimas nos olhos viu a mãe descendo o morro para se prostituir e decidiu que aquilo não poderia ficar assim, teria que ajudar.

Desceu o morro no dia seguinte depois da aula e foi para o sinal de trânsito lavar carros quando o sinal estava vermelho. Não dava muito dinheiro, mas o guri era valente e ficava lá até a noite para levar uns trocados pra casa. Uma noite um amigo do morro viu Cadinho trabalhando e disse ao menino que aquilo não dava dinheiro e lhe colocaria em algo que daria.

E o menino alguns dias depois chegou em casa cheio de sacolas. Filó nada entendeu e quando viu eram muitas sacolas com comida. Cadinho feliz dizia que era comida para o mês inteiro e pediu a mãe que lhe ajudasse a guardar as compras. Filó espantada perguntou aonde o guri tinha arrumado dinheiro para aquilo tudo e Cadinho respondeu que estava trabalhando e nunca mais faltaria nada em casa. 

Pediu que a mãe sentasse e quando Filó sentou no sofá chegou com uma caixa. Ajoelhou em frente a mãe, tirou seu chinelo e abriu a caixa colocando um sapato novo naquele pé cansado. Filó perguntou o que significava aquilo e Cadinho respondeu que não queria mais a mãe usando sapato velho e furado, ela merecia tudo do bom e do melhor.

O moleque comprou tênis novo para ele, vídeo game, TV de LCD e a mãe olhava e se perguntava que emprego era aquele que ele arrumara. Cadinho abraçava a mãe e dizia que em breve ela poderia parar de trabalhar e descansar que ele que tomaria conta dela.

Uma noite Filó passou mal na Mimosa e decidiu voltar pra casa mais cedo. Subia o morro devagar para economizar ar quando viu a cena que mudaria sua vida.

Viu um grupo de garotos com fuzis na mão tomando conta da favela para que nenhuma facção inimiga invadisse e nesse grupo estava Cadinho. Menino magrinho, frágil na aparência carregava um fuzil maior que ele e quando viu a mãe ficou branco.

A mãe olhava o filho e não conseguia falar nada, nem Cadinho. De repente ela teve uma crise de choro e subiu o morro correndo. Cadinho desesperado correu atrás gritando pela mãe.     

Filó entrou em casa chorando e Cadinho entrou logo atrás abraçando a mãe e dizendo que lhe amava. Filó aceitou o abraço e chorava desesperadamente no ombro do filho dizendo que não queria que ele morresse. Cadinho chorando também prometeu que nunca morreria e pediu que a mãe parasse de trabalhar. Filó deixando as lágrimas correrem pela sua face olhou o filho e respondeu que não podia. Cadinho enxugou as lágrimas da mãe e pediu mais uma vez que ela parasse e deixasse que ele tomasse conta dela.

Filó abaixou os olhos e concordou em parar com Cadinho lhe abraçando forte agradecendo e dizendo que lhe amava.

Naquela noite acabou a paz de Filó. Qualquer estampido que ouvisse ou atraso na volta para casa de Cadinho ela já achava que era alguma coisa. O coração da mulher parava por alguns instantes e só voltava a bater quando ele mexia na porta e dizia “mãe, cheguei”.

Algumas vezes o menino ficava em casa e eles juntos no sofá assistiam a filme na TV nova. Cadinho com o tempo deitava no colo da mãe e ela lhe fazia carinho. Nenhum dos dois falava nada e nem precisava.

O amor que nutriam um pelo outro era maior que qualquer palavra que pudesse ser dita. Um só tinha ao outro no mundo e era a razão de viver mútua. De repente Filó rompia o silêncio e cantava a mesma música que cantou no dia que ele nasceu para novamente lhe ninar e o menino caía no sono.

Um dia Filó fazia o almoço quando sentiu um mal estar e deixou a panela de macarrão cair no chão espalhando toda a comida. Seu coração gelou, algo tinha acontecido. Segundos depois ouviu gritos desesperados de “Tia!! Tia!!”.

Filó correu para a porta e encontrou um amigo de Cadinho, ele não conseguia falar nada, só balbuciava “o Cadinho tia..”.

A mulher deu um grito de pavor e saiu correndo da favela. Desceu o morro numa velocidade que nunca descera na vida e na frente da favela encontrou um tumulto. Muitos populares, carro da polícia e ela com uma força encontrada não se sabe aonde saiu empurrando e passando pelas pessoas que diziam “era bandido mesmo”, “bandido bom é bandido morto”.

Furou o cerco da polícia e encontrou um corpo estendido na calçada com um plástico preto em cima.

Um policial tentou segurá-la e Filó deu um grito como se ele saísse da alma “meu filho!!”. Ela debruçou-se sobre o corpo e tirou o plástico preto encontrando o menino, o seu Cadinho com os olhos fechados parecendo um anjo e com mais de vinte marcas de bala.

Não dá pra descrever bem o que ocorreu depois, acho que só uma mãe conseguiria descrever direito. Filó chorando pegou o corpo do filho nos braços e deu um grito de dor, uma dor forte, dilacerante que parecia sair de suas entranhas.

Olhou para o céu gritando “não!!!” e em um choro corrosivo como ácido apertou forte Cadinho contra seu peito, seu ventre como se quisesse que ele voltasse para sua barriga e assim lhe protegeria de todas as dores e males do mundo.

Cadinho estava morto, Filó também, mas o amor de uma mãe por seu filho nem a morte é capaz de dar fim.

Olha aí, ai o meu guri, olha aí...

..olha aí, é o meu guri.
*Esse conto é dedicado ao meu amigo Cadinho que perdeu o seu guri em novembro de 2010.


segunda-feira, 25 de março de 2013

A TROPA DE ELITE NA TERRA DA UPP



Nesse momento pela 28647365857° vez acabei de ver o filme “Tropa de Elite” pelo canal a cabo MegaPix e daqui a pouco no mesmo canal verei pela 76757769° vez Tropa de Elite 2 pelo mesmo canal. Sendo que esse ano passará na Globo(o filme passaria hoje e isso motivou o texto, não sei porque mudaram).

Falar o que desses dois filmes?  Se for levar pelo lado da galhofa poderíamos dizer que são a “Lagoa azul” do novo milênio. Filme que as pessoas sempre brincam por tanto ter passado na TV. Aliás, o curioso disse tudo é que com a era da tv a cabo esses filmes já foram tão vistos e o 2 será passado pela primeira vez em tv aberta sendo tratado como inédito.

Mas esses filmes são muito mais que isso.

Tropa de Elite 1 e 2 já entraram pra história do cinema nacional. Aliás, o 1 já entrara antes mesmo de ser lançado com o vazamento pra pirataria. Pra mim isso foi trabalho de marketing, deixaram vazar pra ganhar os noticiários e o filme passou de mão em mão, impressionando quem assistia e garantindo o sucesso.

O 2 não precisou disso. Já veio ancorado no enorme sucesso do primeiro e conseguiu se tornar o filme nacional mais visto da história.

E fica a pergunta. Por quê esses filmes fizeram e fazem tanto sucesso?

Primeiro porque os dois falam de nossa realidade. O primeiro tem provavelmente os diálogos mais sensacionais da história do cinema nacional. Vários bordões foram criados e ganharam as ruas como “07 passa a 12”, “pede pra sair”, “ninguém vai subir”, “faca na caveira” “Você é um fanfarrão 02”, “bota na conta do papa” entre outros.

Além disso, mostrava aquilo que a população amedrontada queria ver. Policiais “esculachando” bandidos, matando, torturando, um filme contra as drogas que o púbico vibra com policial batendo em maconheiro. O filme que é testosterona pura, uma grande explosão vinga uma população cansada de ter medo.

O segundo já é mais cerebral. Tem uma história que nos tira a respiração porque sabemos que ali está o dia a dia de nossa cidade. Quem conhece um pouco de Rio de Janeiro identifica cada pedaço do filme, sabe em qual caso verdadeiro foi baseada cada situação contada ali na ficção. Vê a jornalista morta e lembra da jornalista do Dia, vê a rebelião comandada por Seu Jorge e lembra da de Uê em 2002, vê o Fortunato dançando e lembra da "dança do capiroto" de um famoso apresentador policial, vê o governador corrupto e se assusta vendo de forma nítida alguns dos que comandaram nosso estado.

Isso incomoda, como incomoda.

Tropa de Elite é baseada em “Elite da tropa”, livro de 2006 dos policiais do BOPE André Batista e Rodrigo Pimentel junto com o antropólogo Luiz Eduardo Soares. O livro impressiona porque foi a primeira vez que o treinamento e a vida dos policiais do BOPE são expostos e muito do submundo da cidade chega ao conhecimento da população.

Assim como no filme o livro teve seqüência. O Elite da tropa 2 com os mesmos três autores mais Cláudio Ferraz. Abaixo um trecho o livro.

"(...) minha vida tem sido investigar e liquidar o crime organizado sob a face mais cruel: as milícias. Dito assim soa bem? Acho que sim, mas não cauteriza nem preenche o buraco imenso em minha vida pessoal que o destino cavou. Com o anjo da morte na cadeia, mais um passo vai ser dado no rumo certo. Tudo bem. Contudo, outras milícias brotarão Rio afora, hoje, amanhã. A fonte continua ativa. As polícias estão aí, entregues à própria sorte e a um ou outro corregedor destemido, nadando contra a corrente. O esforço, meu, do Fausto, de Aluízio, Marquinho e Tonico, de nossa tribo, vai dar em que lugar? O esforço é generoso, concordo. Mas vai mudar o quê? De que adianta correr atrás do leite derramado, apagar incêndio, reduzir os danos de uma tragédia maior do que nós?"

E com o livro, com os filmes vemos como somos vulneráveis e nem sabemos em quem confiar.

Que nossa polícia é corrupta todo mundo sabe. Que nossos políticos são coniventes e ganham muitas vezes com isso também. Mas tem coisas que nossa cidade partida ainda surpreende.

Sabiam que ainda existe tráfico de drogas nos morros que tem UPP? Pois é. O estado alega que é impossível acabar com o tráfico de drogas no mundo e a função da UPP é recuperar território, não acabar com as drogas.

Vocês sabiam que milícia vende comunidades que domina para traficantes? Pois é, essa descobri semana passada com a venda de um morro aqui da Ilha.

A milícia que por sinal era até defendida por muitos políticos, governantes. A prática da milícia é simples. Eles não vendem drogas, mas tudo na comunidade tem a taxa deles. Desde venda de gás, lan house, até gatonet. É a taxa da proteção. O curioso é que a proteção paga é pra proteger deles mesmos.

A UPP vem sendo bem sucedida no ponto em que os morros dominados por elas melhoraram. As pessoas têm maior sensação de segurança, recuperaram o direito constitucional de ir e vir. Algumas situações vêm ocorrendo nessas como tiroteios e abuso do poder policial o que mostra que apesar de ser bem sucedida na recuperação do espaço tem problema.

Mas não é o único problema. As ações para tomada dos morros são avisadas com antecedência o que permite que os traficantes fujam. O governo alega que assim evita carnificina e morte de inocentes.

Só que tem uma coisa. Se você tem ratos em casa tem que botar veneno para acabar com a praga, se der vassourada pra afugentar  apenas vão para outro cômodo. Esses traficantes saíram dos morros ocupados por UPPs, mas se espalharam por outros bairros do Rio e cidades próximas. A violência não diminuiu, apenas mudou de lugar.

Fora que eu não vi ainda uma UPP ser instalada em comunidade comandada por milícia. É estranho isso, como também é estranho que quase todas as UPPs são em morros que eram dominados por uma facção específica e existem três. Por quê o Dendê, por exemplo, que é um dos maiores morros da cidade e onde o tráfico ganha muito dinheiro não tem UPP?

O que quer de verdade com UPP o governo? Recuperar território ou pegar os morros mais famosos passando sensação de segurança, garantindo mídia e votos?

A sensação de segurança que temos depende muito da mídia. Na época do Brizola a sensação que tínhamos era a de viver no Iraque. Até arrastão tinha hora marcada e com cobertura da Globo. Agora parece que a mídia está a favor e passa a impressão que as coisas melhoraram.

Mas não sei se melhorou até porque nunca saberemos o quão ruim esteve e pior, não sabemos quem é o mocinho e o bandido desse filme, em quem confiar.

O Capitão Nascimento de hoje pode ser o Coronel Fábio de amanhã como já provou o ex-chefe da polícia civil Álvaro Lins que hoje é um condenado.

Num mundo de Fragas e Freixos, Fabios, Rochas e Álvaros, Garotinhos, Baianos e Guaracis onde o "saco" pode dar a diferença entre verdade e mentira só nos resta rezar e nosso santo não tenha se vendido. 

E talvez vendo todas essas pessoas comprando e vendendo dignidade em um momento de crise de consciência se lembre da cervejinha que já deu a um guarda, do produto pirata que comprou, do estacionamento em local proibido, gatos, jeitinhos e aceite a cruel realidade que o policial corrupto e o político que se vende fazem parte de uma sociedade que também é corrupta e se vende. Espelho da sociedade, engrenagem de um sistema.

E o sistema é foda parceiro.