segunda-feira, 29 de abril de 2013

O VALOR DA VIDA



Cynthia Magaly Moutinho de Souza. Provavelmente até semana passada nunca ouviram falar desse nome, não é verdade? Pois é, eu também não.

Ninguém ouvira falar da Cynthia porque ela não era ninguém famosa. Era uma pessoa comum como você e eu. Cynthia tinha 47 anos e era dentista em São Bernardo, cidade da grande São Paulo.

Cynthia atendia uma paciente na quinta-feira passada como fazia todos os dias até que tocaram a campainha. Perguntou quem era e a pessoa se identificou como cliente. Abriu a porta.

Não. Não era cliente. Era um assaltante, três no total. Entraram anunciando assalto e a paciente foi amarrada e vendada. Essa paciente só ouviu gritos. Gritos de terror da dentista pedindo para que não fizessem aquilo. O que seria aquilo?

Aquilo era fogo. Incendiaram, sim, queimaram viva Cynthia Magaly Moutinho de Souza. Eram inimigos dela? Ela devia dinheiro a algum bandido? Traficante? Era testemunha em algum processo? Fez alguma coisa de errado? Não!! Nada disso e mesmo que ela tivesse feito alguma dessas situações anteriores não era motivo para lhe incendiar, nada é motivo pra incendiar alguém.

Cynthia Magaly Moutinho de Souza, dentista de São Bernardo, 47 anos, foi incendiada viva porque lhe assaltaram e só tinha 30 reais no consultório.

Nunca ninguém ouvira falar na Cynthia. Hoje ela é famosa no Brasil inteiro por causa de sua morte.

A polícia já identificou os três assassinos. Um foi reconhecido em câmera de vigilância por tentar passar o cartão da vítima em uma loja de conveniência. Chegando a esse chegaram aos outros dois assassinos. O que confessou ter ateado o fogo é um menor de 17 anos.

Menor de 17 anos..Isso me leva de volta à coluna de segunda passada sobre maioridade penal. Repetindo o que eu escrevi sou contra a redução da maioridade. Não acho justo e inteligente botar um garoto que cometeu um furto numa cadeia de adultos com bandidos já formados. Ele nessa situação só terá ótimos professores pra se aprimorar no crime.

Mas como também escrevi acho que menor que comete crime hediondo tem que ir pra prisão de adulto porque esse já é bandido com diploma de faculdade, pós-graduação, mestrado e doutorado. Quem comete crime de adulto tem que pagar como adulto. 

Que tipo de recuperação podemos esperar de um homem de 17 anos que ateia fogo em uma pessoa viva? Ele não tem formação psicológica e educacional pra saber que se tacar fogo em alguém ela morrerá e com grande sofrimento? Um de 17 anos não tem essa formação e um de 18 tem?

Colocar um assassino cruel desses com moleques que cometeram pequenos crimes também não é de uma certa forma lhes dar um professor para se aprimorarem no crime? Vão botar um assassino frio, cruel e que ateou fogo em uma pessoa inocente sem compaixão, ouviu seus gritos com frieza em um reformatório junto com garotos que batem carteira na Central e daqui a pouco ele estará nas ruas para tacar fogo em mais pessoas.  

Essa lei tem que ser revista porque se pararem pra analisar em todos os grandes crimes, todos que nos chocam tem menores envolvidos e a lógica do crime é nítida. Sabem que quase nada pega para um menor de idade então lhes chamam pra cometer crimes e se der algum problema é só esse menor assumir tudo.

Reparem só. Seja no caso da dentista, do estupro e seqüestro de turistas na van, o menino João Hélio que morreu arrastado por um carro, até mesmo o caso de Oruro, que se não foi cruel como os outros teve grande repercussão, todos tiveram menores envolvidos.

Isso tudo ocorre no nosso país. Pessoas morrem por motivos torpes todos os dias e a sociedade ta preocupada com quem vai pra cama com quem, com quem gosta de mulher, de homem ou dos dois.

Quantas pessoas já não pagaram com a vida ao longo desses anos? Famílias ceifadas pela violência aumentando estatísticas, criando comoção, repercussão e foram esquecidas logo depois com o mundo andando como sempre?

Quem além da família daqui algumas semanas se lembrará da dentista Cynthia Magaly Moutinho de Souza? Ninguém fala mais do caso dos turistas, ninguém lembra mais do caso do ônibus 328 castelo/ Bananal que caiu do viaduto e matou sete, da tragédia de Realengo menos ainda.

A vida anda valendo nada. As pessoas se comovem com terrorismo nos Estados Unidos, com mortos em Boston quando nem sabem se chegarão ao fim do dia vivos. Como eu já disse a Cynthia era uma pessoa comum, como a gente e ninguém está livre de um assalto, tomar um tiro ou ser queimado por não ter dinheiro.

Eu me comovo e me choco muito mais com casos como esse em São Bernardo do que com Boston porque essa é a nossa realidade, nosso dia a dia. É o ser humano se desnudando aos nossos olhos e mostrando sua face mais cruel e decadente. Queimar gente viva por dinheiro não é coisa de ser humano, não é coisa de gente e nem posso falar que é coisa de animal porque bicho nunca faria isso. Bicho só mata pra comer ou quando se sente ameaçado.

A cada vez que uma pessoa como a gente toma um tiro ou é incendiada é como se cada um de nós tivesse uma arma apontada pra cabeça ou fósforo apontado para nossos corpos cobertos de gasolina.

Seja uma dentista queimada viva, um jogador de futebol torturado e escapando da morte apenas por ser famoso. Cada ato de violência nos machuca um pouco. É o terrorismo nosso de cada dia. Boston é aqui.

Qual é o valor da vida?

Em alguns casos trinta reais.










O CARRO VERMELHO


* Conto publicado no blog Ouro de Tolo em 16/2/2013


Todos riram da desgraça do sequestrador e até onde eles sabiam o cara nunca mais praticara crimes na vida. Meu pai rindo comentou que a sogra do Dr Bezerra era uma bela punição para todos os meliantes.

Rindo bebi mais um gole de cerveja e lembrei de minha sogra, contei que ela era parecida com a sogra do Dr Bezerra e meu pai contrariado respondeu que não era bem assim.

Perguntei “Como assim não era? A mulher é o cão!!”. Meu pai irritado respondeu que não e que dona Elza era uma boa pessoa.

Coloquei uma batata frita na boca e falei que bem que todos desconfiavam que meu pai “pegara” dona Elza. Meu pai irritado demais mandou que eu respeitasse minha ex-sogra e a memória de minha mãe.

Retruquei que não havia falta de respeito nenhum, minha mãe já morrera e meu pai era um homem desimpedido então nada proibia. Completei que muito da personalidade da Bia, minha ex-mulher, devia vir da mãe “filha de surucucu, surucucu é”.

Meu pai respondeu que Bia era um doce de pessoa e retruquei que eu devia ser diabético, evitar doces e perguntei se meu pai sabia que ela estava namorando. Meu pai sorriu e não só confirmou que sim como disse “é um bom rapaz”.

Pronto, me emputeci. A galera vendo o clima de tensão na mesa logo pegou cavaco, surdo e propôs que começasse uma roda de
samba. Levantei e disse “vou ao banheiro” e saí com a rapaziada preparando o samba. 

Enquanto estava no mictório pensava na desgraçada da Bia e seu novo namorado. Na pensão que tinha que pagar a nossa filha Ana Julia para que a Bia desfrutasse com o “novo garotão” e ficava mais puto ainda. Almeidinha urinava ao meu lado e comentou “você ainda gosta dela”.  

Perguntei se ele ficara maluco e o garçom respondeu que não, eram anos trabalhando naquele bar, ouvindo e conhecendo histórias e sacramentou “o garçom é um psicanalista que serve cerveja”.

Agradeci a “consulta grátis” e emendei “Freud, deixa um chopp lá na mesa pra mim”. Almeidinha colocou a mão no meu ombro e disse “se gosta, corra atrás dela”.

O garçom saiu do banheiro, pensei alguns segundos e gritei “porra Almeidinha, você pegou no meu ombro sem lavar as mãos!!”.

Saindo do banheiro ouvi o som da batucada e me sentei. Meu pai bebia um chopp e me disse “o Almeidinha trouxe pra você e peguei, pede outro”. 

Pedi e a rapaziada me apresentou ao Baltazar, sujeito que chegara há pouco na mesa. Continuaram cantando sambas antigos, quando aquele ex-harmonia da Unidos da Ponte que citei disse “vamos cantar uma música que não é samba em homenagem ao Baltazar”.

Deu o tom ao cavaquinhista e mandou “meu carro é vermelho, não uso espelho pra me pentear”. A galera caiu na risada, Baltazar ficou puto e eu nada entendi. Perguntei a meu pai qual era o problema e ele me contou.

Baltazar cabelinho, apelido ganho devido ao cuidado que sempre teve com o cabelo, é compositor de samba-enredo dos bons ganhador de samba em escolas como Vila Isabel, Unidos da Tijuca e São Clemente. Dizem que é dono de vários outros sambas do carnaval e tem um “escritório” de samba-enredo, isto é, compõe sambas em diversas escolas para outros assinarem, mas Baltazar sempre negou essas histórias.

Renomado, querido, idolatrado Baltazar sempre passou uma ótima imagem e principalmente de credibilidade, isso fazia que ele recebesse vários convites durante o carnaval para ser julgador de desfiles por todo o país.

Naquele ano especialmente Baltazar ansiava pelo convite. O homem comprou uma casa nova, teve gastos e estava na pindaíba sem um tostão no bolso e via um convite como a solução mais
rápida já que ele tirava pelo menos uns cinco mil reais julgando carnaval.

E o convite não chegava, o carnaval se aproximava e ele ficava cada vez mais preocupado. Até que um dia o telefone tocou.

Era seu amigo Reginaldo, aquele que sempre descolava convite para que ele julgasse. Reginaldo ligou marcando uma choppada com o amigo.

Marcaram no “Casa de bamba” e ficaram em silêncio esperando que Almeidinha servisse. Quando o garçom se distanciou Reginaldo brindou com o amigo e disse “agora podemos falar”.

Baltazar não entendia o porque de tanto mistério e ansioso perguntou se tinha algo pra ele. Reginaldo respondeu que sim e Baltazar abraçou o amigo agradecendo.

Constrangido Reginaldo se desvencilhou e sem olhar os olhos do amigo contou que o cachê era de dez mil reais. Baltazar agradeceu e comentou que era uma grana suficiente para se segurar até receber os direitos de arena dos sambas que venceu.

Direito de arena é um dinheiro que o compositor recebe geralmente um mês depois do carnaval equivalente a venda de ingressos na Sapucaí e direito de transmissão.

Muito constrangido Reginaldo lembrou Paulinho da Viola e comentou que nesse caso tinha um “porém, ah porém”. Baltazar não entendeu e em seu ouvido Reginaldo contou que o carnaval “estava encomendado”.

Baltazar nada entendeu e Reginaldo explicou “o carnaval já tem campeão, é a Unidos do Vermelho e Branco, escola nova que tem um bicheiro por trás e pagou um milhão pra liga pra ser campeã”.

Baltazar comentou que não se metia em nada roubado e agradeceu o convite recusando. Reginaldo mandou que o amigo parasse de besteira que aquela atitude não enchia barriga de ninguém e ele estava precisando. Baltazar já se levantava pra ir embora quando Reginaldo emendou “cada jurado vai ganhar um carro”.

Aquela notícia balançou Baltazar que mesmo assim foi embora.

Em casa o compositor contou a história para a mulher e tomou uma bronca “seu imbecil, como assim você não aceitou? Sabia que tem que pagar colégio? Ta em época de matrícula como André e Cláudio vão estudar??”.

Baltazar ainda tentou retrucar, mas sua esposa emendou “Nem é aqui no Rio é em outra cidade e se a tal escola tem bicheiro e dá um milhão pra ganhar deve usar dinheiro pra cacete pra fazer um grande desfile, ganharia por bem ou por mal”.

Baltazar pensou bem e ligou para Reginaldo aceitando o convite. A mulher mandou que ele perguntasse a marca do carro, Baltazar perguntou e Reginaldo respondeu que não sabia, apenas sabia que era vermelho da cor da escola.

Baltazar viajou para a cidade no carnaval, a cidade de Trololó do Oeste que ficava a dez quilômetros do nada e vinte quilômetros de coisa nenhuma. Parecia uma cidade fantasma, pequenina e Baltazar se perguntava como aquilo ali poderia ter carnaval.

Mas tinha e Baltazar foi para o local de desfile, subiu até a cabine e foi designado para julgar harmonia. Era um jurado por quesito, dez quesitos então dez carros vermelhos seriam distribuídos.

Os desfiles começaram com escolas simples, uma pior que a outra. Baltazar bocejava, quase dormia, mas tinha o consolo de que pelo menos a Unidos do Vermelho e Branco “trucidaria” as co-irmãs. Chegou a hora de seu desfile e ele já preparou a caneta pro dez.

Começou o desfile da agremiação campeã e o que passou por seus olhos assombrou Baltazar. A escola era péssima, horrível, horrorosa, parecia um bloco de bêbados conseguindo ser a pior de todas.

Alegorias caindo aos pedaços, fantasias se desmanchando, bateria errando tudo, cavaco desafinado, porta bandeira tomando tombo, cantor errando o samba. Os julgadores constrangidos se olhavam sem saber o que fazer. Um dos julgadores olhou para os outros e estendeu as mãos como se fizesse sinal de paciência e falando “fazer o que? É dez”.

Baltazar abismado olhava o desfile quando um buraco gigantesco entre alas começava a abrir a sua frente. De propósito deixou cair a caneta no chão e ficou procurando por minutos até que o jurado sentado ao lado contou que tinham resolvido o problema, ele se sentou e deu o dez.

O desfile da escola acabou e todos respiraram aliviados. Faltava apenas uma escola e já tinham visto tanta coisa ruim que não custava nada ver mais uma e aquele pesadelo acabar, foi a vez da Unidos do trololó.

E aí aconteceu o drama. A escola estava linda. Alegorias perfeitas, fantasias de bom gosto, bateria com ótima cadência, excelente samba-enredo, tudo perfeito. As arquibancadas deliravam, cantavam o samba, gritavam “é campeã” e os jurados não sabiam o que fazer.

A escola passava compacta, linda, aguerrida na frente de Baltazar que apenas pensava “fud...”. Olhava para os lados e os jurados atônitos não sabiam o que fazer. Não tinha o que fazer, não tinha como descontar pontos daquela escola.

A cagada estava feita.

O casal de mestre-sala e porta bandeira começou a se exibir pro jurado do quesito que estava ao lado de Baltazar e de repente Baltazar levantou e deu um grito dizendo “A bandeira enrolou!! A bandeira enrolou!!”.

Todos os julgadores olharam para ele que continuou “A bandeira enrolou que eu vi, vai logo porra, desconta ponto do casal!!”. Pegando a mão do julgador e o conduzindo pra anotar 9,5.

Pois bem, ninguém sabe até hoje se a bandeira enrolou mesmo ou foi invenção do Baltazar. A verdade é que as duas escolas tiraram 10 em tudo, mas a Unidos do Vermelho e Branco foi campeã graças ao 9.5 que a Unidos do Trololó levou em mestre-sala e porta bandeira.

Alguns dias depois Reginaldo bateu na porta de Baltazar entregando o cheque de dez mil reais e dizendo “bom trabalho”. Baltazar perguntou pelo carro e Reginaldo apontou para o lado de fora.

O carro estava lá, vermelho, lindo.

Baltazar pegou a chave, se despediu do amigo e foi com a família passear com carro. Ao voltarem entraram em casa debaixo de muita chuva e enquanto fechava a porta ainda deu tempo de Baltazar ver um raio acertar uma árvore e ela cair em cima do carro.

Perda total.

Desolado Baltazar foi no dia seguinte ao banco sacar o dinheiro e o atendente disse que o cheque não tinha fundos. Baltazar sem carro,
sem dinheiro, desorientado ligou várias vezes para Reginaldo e nada do “amigo” atender.

Só restou pegar um ônibus e voltar pra casa pensando no que diria pra esposa. Ao lado no banco do ônibus um homem lia o jornal e ria, gargalhava. Curioso Baltazar perguntou o que era e o homem respondeu.

“Você acredita que teve suborno no carnaval de Trololó do Oeste? Um cara que se dizia bicheiro fez acordo com a liga, os jurados, pagou todo mundo em cheque só que eles não tinham fundo e nem bicheiro ele era. Era carteiro e se mandou da cidade, como tem otário no mundo!!”.

Baltazar com sorriso amarelo respondeu “é mesmo” e a viagem de ônibus prosseguiu sem Baltazar saber que os carros eram roubados e a polícia estava na porta da sua casa.

E na ganância do carro Baltazar entrou de carona na roubada.






sexta-feira, 26 de abril de 2013

ELA, EU E MICHAEL JACKSON



Nesse momento vejo na HBO um documentário sobre Michael Jackson contando sobre sua carreira e um espetáculo teatral que estão preparando em sua homenagem com suas músicas. Artistas que participam desse musical e outros como seus irmãos falam no documentário sobre ele, seu talento e vida pessoal.

Michael Jackson independente das bizarrices é um artista, mais que isso, uma personalidade que está enraizada na minha vida para sempre. Eu posso viver mais cinquenta anos, passar décadas de sua morte que se eu escrever um texto sobre ele quando estiver com oitenta anos de idade escreverei exatamente isso.

Acho que nem é só comigo, mas com boa parte das crianças da primeira metade dos anos oitenta. Arrisco-me a dizer que Michael Jackson foi meu primeiro ídolo, antes mesmo de Zico que é o maior de todos os meus. Eu sou da geração “Thriller”, quando comecei a me entender como gente foi na época que o álbum surgiu e Michael se  tornou o maior artista do mundo.

Thriller é do fim de 1982, o clipe é do fim de 1983 e como na época não tínhamos a velocidade da informação como hoje o estouro pra valer no Brasil foi em 1984. Eu tinha sete pra oito anos e criança nessa idade já se acha, pensa que é adulto e Michael Jackson era o cara. Botava aquela jaqueta brilhante, óculos escuros, luva e fazia o moonwalk!!! Cara, isso pra gente era o máximo!! Todo moleque da minha geração queria fazer o moonwalk e dar o golpe do karatê kid!!

A onda em 1984, 1985 era o break. Toda festinha tinha concurso de break pra ver quem dançava melhor. A garotada imitava os passos do Michel Jackson, era um barato. Em 1985 com a chegada dos Menudos seduzindo as meninas os garotos se uniram contra e enquanto elas dançavam músicas do grupo ficávamos quietos só agitando na hora do Michael. Isso nós com oito anos, depois fomos envelhecendo e ganhando malandragem de chamar as meninas para dançar nesse momento. 

Se a memória não me engana Thriller não foi a primeira música lançada por aqui. A primeira foi “Beat it” e depois “Billie Jean”.Eu adorava “Beat it” e gostava de cantar com todo meu inglês “perfeito” de um moleque de sete anos que mal sabe o português. No “embromation” eu me sentia o Michael Jackson. Pegava uma caneta, fingia que era microfone e cantava. Claro que sozinho, porque sempre fui tímido e morria de vergonha.

Até que passou Thriller no Fantástico.

Família toda na sala pra ver o clipe e eu fiquei com medo. Vi o Michael Jackson transformado, com aqueles olhos grandes e fechei os meus. Depois com o tempo fui prestando mais atenção no clipe, curtindo a dança. Continuava preferindo Beat It, mas Thriller ganhou lugar no meu coração.

Fui crescendo. Surgiu Bad e achei estranho o fato dele estar menos negro. Começaram a aparecer histórias bizarras como ele dormir numa câmara anti-envelhecimento, querer comprar esqueleto do homem elefante, pedir pra ser congelado ao morrer pra um dia voltar a vida. Histórias que inventam e a gente acaba pegando como verdade.

Aí a idolatria foi diminuindo. Ainda curti Bad, parei pra ver no Fantástico o lançamento mundial de Black & White e achei a música boa, mas cada vez mais seu aspecto bizarro me chamava mais atenção que as músicas.

Já adulto me separei totalmente de Michael Jackson deixando para trás meu primeiro ídolo como um boneco que na infância foi nosso melhor amigo e depois fica perdido numa caixa em um sótão. Descobri o Jacksons 5, suas músicas e a participação efetiva dele em “We are the world”. Achei bacana, curti as canções, mas só. Tinha outros ídolos, o Aloisio adulto deixara Michael Jackson nas lembranças apenas.

Ele colaborou com isso também. Cada vez mais branco, esquisito, parando de fazer músicas, se metendo em confusões, acusações de pedofilia.

Michael Jackson foi se destruindo e destruindo tudo de bom que deixou para as pessoas.

A coisa começou a mudar em 2005. Perdi minha mãe e tinha que sobreviver de alguma forma. Comecei a vender Dvds piratas numa feira aqui no meu bairro aos domingos. Tirava uma graninha legal que dava pra me manter e pra chamar clientela colocada dvds para tocarem.

E nisso surgiu um Dvd chamado “The number one” com os melhores clipes de Michael Jackson.

O ídolo da minha infância reapareceu pra ajudar o adulto. Era colocar Thriller na barraca e aparecia uma multidão para assistir. O Dvd vendia como água e me ajudou muito. Em casa quase todos os dias assistia ao dvd e relembrava como aquele artista era fantástico. Finalmente dei o devido valor a Thriller. A dança, aos figurinos, a história, a voz. Sim, um grande cantor, mas que tinha tanta qualidade artística em tantas funções diferentes que a voz perfeita tecnicamente ficava em segundo plano.

Já voltara a ser fã quando no espaço aberto do site galeria do samba contaram que ele sofrera uma parada cardíaca. As informações eram desencontradas até que veio a confirmação da morte. Fiquei sem chão, chorei, fiquei muito triste e olha que estamos falando de um cara que perdeu a mãe, o amor da sua vida.

Desorientado, só mandei um sms pra minha namorada dizendo “Michael Jackson morreu” e fiquei a tarde, a noite e a madrugada toda zapeando as tvs e entrando em sites da internet pra ver notícias de sua morte. 

Quando as emissoras passaram aqueles clipes que fizeram minha infância para homenageá-lo em sua morte a criança Aloisio voltou. Eu que tive tantas perdas na vida, machucado por mortes e separações via ali um bom pedaço daquela criança morrendo junto com ele. Pode parecer exagero e até pode ser, mas era todo um simbolismo.

Não era apenas o Michael Jackson com jaqueta vermelha e cara esquisita dançando com mortos vivos que morria. Era minha infância, toda uma era de minha vida, toda uma lembrança.

E a gente viu como pode ser injusto. Ele ficou branco, ficou esquisito, mas em vez de perguntarmos porque preferimos rir. Em vez de pensar na sua infância sofrida com pai autoritário debochamos. Em vez de pensar que era uma pessoa solitária e triste galhofamos. Em vez de perceber que o menino que lhe acusou de molestar depois pediu desculpas afirmando ser obrigado pelo pai a dizer aquilo lhe chamamos de tarado e pedófilo.

Michael Jackson morreu na nossa frente. Sabíamos que ele iria morrer pelo caminho que percorria e assistimos a tudo com pipoca e refrigerante como assistíamos a seus clipes geniais.   

Eis que quase quatro anos depois de sua morte eu, não sei porque, tenho a idéia de botar Thriller pra Bia ver no youtube. Eis que também não sei porque ela se apaixona no ato pela música, o clipe e por “Maicou Jeston”.

Ela não pode me ver que diz “Me leva pra ver o Maicou Jeston” e eu trago para meu quarto e coloco o clipe. Todas às vezes vê a parte falada e me pergunta o que conversam. Assiste sempre com muita atenção e na hora da dança levanta tentando imitar e cantando “trile, trile nai” no embromation que eu cantava.

No fim na hora da risada bota a mão na minha boca e sorrindo pede para que eu não imite a risada. Mas sempre dou um jeito de rir e ela finge medo.

Todos os dias isso, às vezes mais de uma vez por dia e na casa da vó me contaram que ela ficou louca quando lançaram o comercial da Sky com a música. Ela pulava e gritava “Maicou Jeston”.

Acabou que por ironia do destino o primeiro ídolo da minha vida também virou o primeiro ídolo de minha filha.

Michael Jackson deixou a caixa do sótão e voltou a ser um grande amigo depois de trinta anos. Meu primeiro ídolo, o cara que me ajudou num momento difícil e o cara que me uniu definitivamente a minha filha porque sei que quando ela tiver minha idade e ouvi-lo vai lembrar de mim.

Faturou mais de um bilhão de dólares? Mais de cem prêmios? Mais de cem milhões de cópias de um mesmo disco? Recordista de faturamento em shows?  Recordista de vendas de disco e artista que mais músicas botou no primeiro lugar das paradas? Ficou branco, com nariz esquisito e parecendo um monstro? É o rei do pop e talvez o artista mais completo que já surgiu nesse planeta?

Nada disso é importante.

O importante é que ele é o “Maicou Jeston” da Bia e nosso melhor amigo.

*Quis o destino que eu descobrisse após a coluna terminada que a apresentação histórica postada no começo do texto, onde ele apresentou ao mundo todos os passos de dança que se tornaram sua marca, tenha ocorrido no dia 16 de maio de 1983. Essa data, 16 de maio, é do nascimento da Bia.


Esse aí ainda vai nos assustar, encantar e divertir por muito tempo. Ainda bem.   



   

quinta-feira, 25 de abril de 2013

HISTÓRIAS DE NOSSA HISTÓRIA



*Coluna publicada no Blog Ouro de Tolo em 21/4/2013


Hoje e amanhã são datas significativas para a história do Brasil. Hoje é o dia da Inconfidência mineira, o evento principal do dia e que lhe faz ser feriado. Feriado que esse ano cai no domingo (aliás, feriado domingo é como dançar com a irmã, bem, deve ser já que não tenho irmã, enfim). Além da Inconfidência a data marca outras situações importantes para nossa história como a inauguração de Brasília e a morte do presidente Tancredo Neves.

Além do dia de hoje tem amanhã que é o dia marcado pelo descobrimento do Brasil, não é feriado e terça o dia de São Jorge, esse feriado no Rio. Pobre guerreiro da Capadócia que vem sendo maltratado e sofrendo bullying pela novelista Glória Perez. Dizem as más línguas que depois que “Salve Jorge” estreou aumentou o número de frequentadores de igrejas evangélicas, messiânicas, budistas e religiões afros, mas diminuindo devoção a Ogum.

Enfim, por quê estou escrevendo sobre isso? 

Porque isso tudo que citei é história e história pode ser dividida em três situações. A versão do vencedor, do vencido e a história de fato que nunca é exatamente como as duas primeiras e ninguém conhece cem por cento. Além disso, a história é volátil (primeira vez que uso essa palavra na vida) ela é volúvel e inconstante sendo mudada com o tempo e a bel prazer de quem comanda a época e quem conta.

Por exemplo. Cristãos falam que Deus criou tudo. Adão e Eva são os primeiros seres humanos da história e expulsos do paraíso por causa de uma serpente. Cientistas e ateus falam do big bang. Histórias não passam de versões de um acontecimento.
Como cada religião tem o seu “Messias” e ele voltará. Nem toda a humanidade ouviu falar em Jesus Cristo. Aqui lhe tratamos como o filho de Deus, para alguns foi um profeta. Fenômenos como abertura do mar vermelho ou da arca de Noé por quem segue o cristianismo foram obras de Deus, para alguns períodos de seca e enchente.

Para Eric Von Daniken, por exemplo, esse “Messias” que as religiões esperam na verdade são ETs que vieram aqui,ajudaram na construção desse planeta com sua sabedoria e adiantamento tecnológico e prometeram um dia voltar.

Isso explicaria a mim pelo menos as pirâmides do Egito. Elas são algo que chamam minha atenção e fascinam. Como podem ser tão bem construídas numa época sem tecnologia?     

Quem quiser conhecer sua tese compre o livro “Eram os Deuses astronautas?”.

Falo sobre isso tudo para chegar ao Brasil.

Aprendemos na escola que Pedro Álvares Cabral chegou aqui em 22 de abril de 1500, gritou “terra a vista” e descobriu o país. Deu os nomes de “Terra de Santa Cruz”, “Ilha de Vera Cruz” até nosso nome oficial hoje graças ao pau brasil. Depois os jesuítas chegaram e catequizaram os índios. Tudo assim, de forma tranquila e histórica.

Com o tempo informações não contadas em livros chegam. Que o descobrimento na verdade foi uma invasão, já existia uma nação aqui chamada Pindorama e nem se sabe se a data certa dessa invasão é essa.

Fatos e atos são escondidos em nossos livros como o pedido de emprego que Pero Vaz de Caminha fez para um sobrinho ao Rei de Portugal na famosa carta que enviou, que a catequese indígena foi feita através da força, de lutas, morte, genocídios. Uma geração formada pelos livros dos anos 80 só conseguiu chegar a essas informações no fim daquela década com a volta da democracia.

Eu mesmo precisei ter professores de ideologia diferente da oficial do país para saber essas coisas.

Como fui alfabetizado e ensinado que Tiradentes foi um grande herói nacional. Era o líder de uma rebelião que queria libertar o país e pagou por isso. Foi preso, enforcado e esquartejado com seus restos mortais espalhados.

Quando a gente é criança não estranha o fato, por exemplo, de Tiradentes ter morrido com a cara de Jesus Cristo. Sim, o profeta, o filho de Deus citado acima e tão amado.

Aí fica a pergunta. Tiradentes é um herói forjado?

Hoje qualquer pessoa sabe que ele não morreu daquela forma. Pelo menos não com aquele cabelo e aquela barba. Enforcados em sua maioria tinham as cabeças raspadas e nem mesmo Jesus devia ter aquele aspecto. Numa terra de mulatos, pessoas queimadas pelo Sol fizeram um Jesus loiro, cabeludo, europeu pra ganhar o mundo.

A igreja Católica foi a inventora do marketing. Criou ou contou uma história, de forma romanceada claro como todo bom autor faz, muito boa, com todos os ingredientes que uma boa trama tem que ter e essa é a história mais fantástica da história da humanidade sendo contada a quase dois mil anos.

Voltando a Tiradentes. A liberdade política nos permitiu conhecer outras versões da história. Como eu disse acima temos várias versões de um mesmo acontecido e a realidade ninguém acaba sabendo. A versão que corre hoje é que Tiradentes não era o líder dos inconfidentes, era apenas mais um do grupo, o pobre em um grupo de jovens ricos e acabou sendo o “bucha” assumindo tudo sozinho.

Uma coisa que aprendi com todas as histórias revolucionárias, principalmente aqui no Brasil, é que uma revolução sempre é criada através de interesses próprios e sempre tem um “bucha” pra caso dê errado. Nesse caso sobrou para o dentista.

Escrevi sobre isso numa coluna polêmica ano passado chamada “os filhos da miséria”.

Os inconfidentes não eram diferentes dos revolucionários de São Paulo nos anos 30 do século passado ou de Sérgio Cabral e sua trupe agora em relação aos royaltes. Revoltaram-se por causa dos impostos que eram obrigados a pagar, rebelaram-se por interesses que não foram atendidos, não por um país tanto que no que pregavam não citavam libertação dos escravos, por exemplo.

E a história desse país foi continuando como a Guerra do Paraguai em que aprendemos que nosso país foi heróico em uma guerra e com o passar dos anos ficamos sabendo que o Brasil foi pau mandado da Inglaterra para combater um país vizinho que crescia e começava a lhe incomodar.

Duque de Caxias. Grande herói nacional que virou nome de cidades na verdade pode ser um genocida. O Brasil pode ser o responsável pela miséria, pela pobreza de um país que dura até hoje.

Dizem que a versão original da música “Índia” fala da guerra sobre a ótica paraguaia, mostra tudo o que sofreram, mas também não sei se é um fato ou versão.

Como eu disse a história é contada pelos vencedores, pelo status quo. Nossos assassinos e genocidas são mostrados como heróis. Islâmicos provocam o terror e americanos guerreiam pela liberdade. Boston sofre terrorismo, Iraque é bombardeado pela democracia.

Antes que falem alguma besteira não defendo ataques a cidades americanas, lamento o que ocorreu em Boston ainda mais porque teve criança no meio. Mas não vi emissoras de tv correrem ao Iraque, ao Afeganistão pra entrevistar vítimas de ataques, para mostrar como era a vida de alguns que morreram sob ataque americano.

Ataques atrás de armas que nunca foram encontradas. Mas quem liga? O que importa é que a democracia prevaleceu. Isso que a história registra.

Como ficará pra história que os Estados Unidos é a maior democracia do mundo mesmo com candidato com menos votos sendo eleito presidente e a Venezuela ditadura com Chavez sendo o político mais vezes eleito na história.

A história é feita por muitos, mas contada por poucos e de modo que lhe interessa.

Pra finalizar. Em 1989 logo depois da vitória da Imperatriz Leopoldinense nossa professora de história da sétima série pediu que fizéssemos um trabalho em cima dos erros históricos da letra de “Liberdade, liberdade, abra as asas sobre nós”.
O samba, que é lindo, conta a história oficial, aquela que aprendi até poucos anos antes daquela data, até os militares deixarem o poder.  

Eu era o único da turma que gostava de samba e conhecia o mesmo. A professora saiu de sala e todos os alunos vieram em mim sabendo disso. Falei que copiaria a letra para eles em troca de dinheiro e lanche.

Comi bem naquela semana e comprei um tênis que eu queria. Moral da história? Nenhuma, é apenas uma história que conto.

Ou pode não ter sido assim e ser apenas uma versão.

Pra ser história não é necessário ser verdade.













A GUANABARA E OUTROS PROJETOS DE ESTADO

*Coluna publicada no blog Brasil Decide em 21/4/2013



Foi me pedido que escrevesse essa semana sobre projetos que existem no congresso para a criação de vários estados no país. Vi uma reportagem de 2011 que diz que se todos os projetos fossem aprovados teríamos 37 estados e alguns territórios.

Os mais novos não devem saber ao certo o que é o território já que não temos nenhum hoje. Eu que sou da geração dos anos 80 lembro que Amapá, Acre, Roraima e Fernando de Noronha já foram territórios. Os três primeiros se transformaram em estados e o último anexado a Pernambuco.

Território pra quem não sabe é uma espécie de estado que recebe dinheiro da federação, mas não tem prefeito, nem governador tendo um gestor nomeado pela presidência da República.

Desses vários projetos que existem no congresso, entre eles o do estado do Triângulo, projeto que desde 1988 adormece na câmara para a separação do triângulo mineiro de Minas Gerais um plebiscito ocorreu. Foi no Pará para a população dizer se queria a separação em três estados ficando Pará, Tapajós e Carajás.

A idéia foi recusada pela população e tudo continuou na mesma.

Além dos territórios que viraram estados eu só vi um estado surgir que foi o de Tocantins na promulgação da constituição de 1988. A região antes fazia parte de Goiás. Durante a história também ocorreu de estados mudarem de regiões do país como São Paulo que já pertenceu ao Sul e agora é do Sudeste que por sinal já foi Leste.

Bem. Encerrando a parte didática da coisa vou passar o que penso. Sobre a criação de novos estados e depois sobre uma situação que afeta diretamente o local que eu moro.

Eu acho que há casos e casos sobre separação. Penso realmente que em estados com grande território pode vir a ser interessante. Muitas vezes o poder público não chega ao interior do estado que fica abandonado. Transformando esses lugares em estados eles receberiam verba federal para quem sabe assim modificar suas realidades.

O problema nesse caso é que teremos novos estados com novos governadores, novos deputados federais, estaduais e todo um poder público que onera ainda mais a união. O gasto seria pesado, prejuízo também então acho realmente que cada questão deva ser bem avaliada para perceber se é realmente uma necessidade ou tentativa de aproveitamento político. Algo tão comum em nosso país.

Um estudo tem que ser feito, um olhar para não deixar que nasçam estados pobres e que os estados que tiveram parte amputada também não empobreçam. Realizado esse estudo e provado que o local crescerá, o estado que perderá uma parte não será prejudicado acho que pode ocorrer mesmo com prejuízo financeiro do país a princípio, mas um prejuízo que pode ser sanado com evolução de partes atrasadas e esquecidas de nosso território.

O nosso caso aqui é especial.

Especial porque o Rio de Janeiro foi a capital do império e da República. No século XIX a primeira constituição republicana previa a construção da nova capital do país no Centro Oeste. Como é tradicional aqui o projeto foi empurrado com a barriga até que cobrado em campanha JK prometeu fazer.

E pra azar do Rio fez.

Azar do Rio porque a cidade perdeu muito deixando de ser a capital. Serei polêmico e talvez os brasilienses não gostem muito, mas não sei se para o Brasil a construção da cidade foi boa. Pelo menos para ser capital.

Porque com a mudança da capital o poder político parou de ouvir “a voz rouca das ruas”. Não foi mais incomodado com pressão que certamente teria com a capital sendo no Rio ou em São Paulo.

Como eu disse o Rio perdeu muito. Perdeu estrutura, perdeu dinheiro e a situação tentou ser amenizada com a criação do estado da Guanabara. Uma situação inusitada de uma “cidade estado”. Um estado com apenas um município.

Com essa situação o ex Distrito Federal e agora estado continuou recebendo um bom dinheiro e foi uma época de grandes obras. Mas o estado do Rio de Janeiro que vem a ser a região metropolitana do estado atual sem a capital e o interior empobreceu.

Dessa forma sem consultar a população, coisa que os “guanabarianos” reclamam até hoje, a fusão foi feita.

A Guanabara virou capital do novo estado e teve a sua renda dividida com o interior. Os militares ainda tentaram ajudar fazendo a usina em Angra, mas não adiantou.

Acelerou o processo de degradação do município. A conta é simples. Menos dinheiro, menos oportunidades, menos empregos, mais pobres, menos escolaridade, menos habitação, mais tomada de favelas, mais situação favorável de estabelecimento do crime organizado em lugares esquecidos, mais caos.

Aí me perguntam. A culpa do Rio ter entrado em um processo de decadência é por causa da perca da capital e da fusão? Seria muito fácil eu responder que sim, dessa forma eu eximiria de culpa toda a incompetência política fluminense que é tão notória.  

Mas imagine você pai de família que tem X de orçamento por mês e de repente passa a receber menos 3x tendo que sustentar uma família maior.

Fatalmente a sua linda casa não conseguirá ser mantida com orçamento menor. Vão aparecer goteiras, problema no piso, sofazinho rasgado. Se você não tem dinheiro pra manter a casa como era ela deteriora e perde valor.

E assim ocorreu com o Rio.

Aí logicamente vem a pergunta. É a favor da cisão?

Respondo que não. Eu não era a favor da fusão. Se hoje existissem Guanabara e Rio de Janeiro e existisse a proposta de juntar os dois lugares eu seria contra, se tivesse plebiscito votaria contra. O estado do Rio é pobre? Passa por problemas? Como diria o filósofo e poeta Coronel Fábio “cada cachorro que lamba sua caceta”.

Mas a fusão ocorreu, trinta e oito anos se passaram e acho melhor não mexer mais nisso. Já somos um estado interligado completamente e uma separação agora poderia provocar caos, traumas, brigas desnecessárias, gastos mais desnecessários ainda. Boa parte dos trabalhadores do município vem de outras cidades e teriam que pagar passagem interestadual. Imagine pegar uma barca pra Niterói e ter que pagar como se fosse para outro estado.

O Rio, como eu disse, perdeu com a fusão, teve sua casa deteriorada, mas também teve tempo suficiente para ter criatividade e reverter a situação sabendo utilizar seu orçamento novo e até criar novas fontes de renda e isso começou a ocorrer. Grandes empresas chegaram no interior do estado e agora temos o Pré Sal que dá uma levantada em lugares como Macaé, por exemplo.

Também tem a questão dos royaltes, mas esse é outro papo.

O Rio é sede das Olimpíadas de 2016, da final da Copa de 2014, vem recebendo dinheiro e ajuda que há muito não recebe, é um estado pequeno geograficamente, rico em turismo, marca forte e tem obrigação de crescer sem ser capital do Brasil ou se livrar do interior.

Essa é minha opinião. Sou guanabariano, mas não quero mais a Guanabara.

Carioca do estado do Rio de Janeiro.



quarta-feira, 24 de abril de 2013

MANGUEIRA EM CINCO CARNAVAIS



Semana passada fiz um texto para o blog lembrando dos noventa anos da Portela e decidi lembrar cinco carnavais inesquecíveis. Não vi todos ao vivo, mas foram cinco carnavais que se não tive oportunidade de ver em sua época me marcaram ao longo dos anos como compositor e sambista.

Essa semana é marcada pelas eleições na Estação Primeira de Mangueira, tão gigante, tradicional e com marca tão valiosa quanto da Portela. Tão machucada nas últimas décadas quanto, mas assim como a escola de Madureira continua com seu charme, magia e imponência.

Mangueira de “O mundo encantado de Monteiro Lobato” que lhe deu o título em 1967, “Lendas do Abaeté” de 1973. Mangueira oriunda do bloco dos Arengueiros e que nasceu como bloco no dia 28 de abril de 1928. Completará oitenta e cinco anos nesse fim de semana de suas eleições. A primeira agremiação a ter uma ala de compositores e desde sua fundação mantém a característica, a da única marcação de surdo em sua bateria. 

Mangueira de grandes figuras como o histórico cantor Jamelão, como Dona Zica, Dona Neuma, Carlos Cachaça, Nelson Cavaquinho, Nelson Sargento, Delegado, Mussum, Alcione, Beth Carvalho, Hélio Turco e aquele que ao lado de Noel Rosa pra mim é o maior sambista da história e ao lado de Chico Buarque o maior de nossos compositores. Cartola.

Assim como fiz com a Portela destacarei cinco carnavais da segunda maior detentora de títulos de nosso carnaval, dezoito no total e assim como fiz com a azul e branca são carnavais que eu vi ou que me marcaram como compositor e sambista.


YES, NÓS TEMOS BRAGUINHA 1984



Samba de Jurandir, Hélio Turco, Comprido, Arroz e Jajá.

Foi o primeiro desfile na Sapucaí como local fixo de desfiles. A passarela do samba realizada por Darcy Ribeiro e projetada por Oscar Niemeyer. Primeira vez também que o desfile foi dividido em dois dias.

Como já expliquei no texto sobre a Portela cada dia teve uma campeã e as melhores de cada foram disputar um supercampeonato no sábado seguinte. A escola não ganhava um campeonato desde 1973 e começava ali com um dos maiores compositores de nosso carnaval uma seqüência de grandes desfiles homenageando personalidades.

O desfile da Mangueira entrou para a história por um fato que nunca mais ocorreu. As escolas ainda não sabiam lidar com a Praça da Apoteose, lugar que hoje serve para dispersão,  mas na época ainda contava como desfile.

Aproveitando que era a última escola e a confusão que estava na frente para dispersão aconteceu aquilo que entrou para a história como “A volta da Mangueira”. A escola voltou pela pista desfilando, cantando e sambando feliz o belo samba que lhe deu o supercampeonato.  



CAYMMI MOSTRA AO MUNDO O QUE A BAHIA TEM E A MANGUEIRA TAMBÉM 1986



Samba de Ivo Meirelles, Paulinho e Lula.

Mais uma vez a Mangueira homenageando uma personalidade, um grande compositor. Dessa vez o compositor Dorival Caymmi. Um dos autores do samba é Ivo Meirelles que veio a se tornar um artista conhecido e presidente da agremiação.

O carnaval de 1986 foi o primeiro que assisti pela tv e marcante por belos sambas e pela chuva que fez com que a Beija-Flor de Nilópolis desfilasse com água nas canelas. A Mangueira com muito samba no pé e cantando sua bela obra que citava o supercampeonato de 1984 e um refrão pequeno e chiclete “tem xinxim e acarajé/ tamborim e samba no pé” brigou fortemente com a escola Nilopolitana e garantiu seu segundo título em três anos mostrando ser a grande escola dos anos 80.

Muita gente acha que a Beija-Flor merecia ter vencido, mas a Mangueira desfilou com porte de campeã e pra mim foi merecido.

Fica como um detalhe pessoal meu. Com apenas nove anos de idade não entendia como alguém podia cantar tem “xixi” numa letra de música.



CEM ANOS DE LIBERDADE, REALIDADE OU ILUSÃO 1988



Samba de Hélio Turco, Jurandir e Alvinho.

Samba maravilhoso. Na minha opinião o melhor da história da Mangueira. Um dos melhores de todos os tempos e não foi campeão do carnaval. 

O carnaval de 1988 foi um carnaval diferente. Era o centenário da Lei Áurea, lei assinada pela Princesa Isabel libertando os escravos no país e dessa forma as escolas de samba em sua maioria decidiram homenagear a data.

A bicampeã Mangueira foi uma delas. Buscando o inédito tricampeonato na Marquês de Sapucaí a escola entrou na avenida poderosa cantando de forma valente e emocionante que o negro estava livre do açoite da senzala e preso na miséria da favela. Era um desfile para campeonato, ao contrário do contestado bicampeonato de 1987.

Só que parodiando o homenageado do ano anterior Carlos Drummond de Andrade no meio do caminho tinha uma Kizomba, tinha uma Kizomba no meio do caminho. 

A catarse provocada pela Unidos de Vila Isabel impediu o sonhado tricampeonato. Mas os dois desfiles são históricos, campeões e merecem todas as homenagens. O samba mangueirense é uma aula e tem que ser ouvido por todo mundo que pensa em fazer samba-enredo.



CHICO BUARQUE DA MANGUEIRA 1998  



Samba de Nelson Dalla Rosa, Vila Boas, Carlinhos das Camisas e Nelson.

Mais uma vez a Mangueira partindo para um campeonato homenageando uma grande personalidade brasileira. Um homenageado a altura dos que lhe deram seus últimos campeonatos. O gênio Chico Buarque de Hollanda.

O ano mangueirense começou com polêmica em relação ao samba-enredo. O samba composto por compositores paulistanos foi mal visto por muita gente. Alguns por questão de bairrismo, outros por não lhe acharem do nível do homenageado.

Eu particularmente gosto do samba, é a cara da Mangueira e acho que exigir um samba do nível de Chico é complicado. Ele é um dos maiores de nossa história e como se equiparar a alguém assim?

A Mangueira vinha por uma fase ruim. Onze anos sem ganhar um carnaval, sem dinheiro, algumas vezes ameaçada por queda para o acesso a verde e rosa não era uma das favoritas daquele carnaval embalado pelo samba “Orfeu do carnaval” da campeã do ano anterior Unidos do Viradouro.

Mas como eu costumo dizer aquela esquina da Presidente Vargas com a Marquês de Sapucaí tem magia e assim que ouvi o samba começar a ser cantado com Chico Buarque no carro de som, aquela comoção toda em torno dele pensei “campeã”.

Não deu outra. Ninguém sabe fazer enredo sobre personalidades como a Mangueira. Ninguém sabe como fazer carnaval sem dinheiro como ela e dessa forma, empatada com a Beija-Flor e embalada por “seu guri” a Mangueira voltava a ser campeã do carnaval.



BRASIL COM Z É PRA CABRA DA PESTE, BRASIL COM S É NAÇÃO DO NORDESTE 2002


 Samba de Lequinho e Amendoim.

A Imperatriz conseguira em 2001 realizar aquele sonho que eu disse ser da Mangueira em 1988,  a primeira tricampeã da Marquês de Sapucaí. Um tricampeonato contestado, vaiado, mas tricampeonato.

Mangueira continuava com sua agonia. Tirando o título de 1998 a agremiação não vinha para as cabeças. Até conseguira um terceiro lugar no ano anterior, mas não era considerada favorita, era meio deixada de lado.

Em 2001 Max Lopes, o carnavalesco supercampeão de 1984 retornou para agremiação e fez esse enredo sobre o Nordeste para 2002. Enredo feliz com um samba mais feliz ainda. Samba com refrães fortes e um ousado refrão de seis versos no meio. Ousado e lindo que terminava com o genial trocadilho “Doce cartola sua alma está aqui” relacionando o compositor ao doce.     

Fez um grande desfile, de campeã e uma apuração dramática com a Beija-Flor. De novo com a Beija-Flor como em 1986 e 1998. O sistema de decimais começara naquele ano e a agremiação foi campeã com apenas um décimo de vantagem sobre a nilopolitana.

Foi o último ano de Mangueira com dona Zica que faleceu antes do carnaval de 2003. No ano que o “doce cartola” foi cantado o amor de sua vida foi lhe reencontrar.


Bem..Aí estão cinco carnavais que amo da Mangueira. Esperando que a escola faça uma boa escolha nas eleições e retome seu caminho de vitórias e grandes carnavais. Que saia das páginas policiais e volte a valer sua força de grande expressão cultural desse país.

Que o cenário de seu futuro seja uma beleza.


 O carnaval precisa e merece.