sábado, 30 de novembro de 2013

ERA DA VIOLÊNCIA 2: CAP XI - GALALITE E SCARFACE




Rui entrou no carro e fomos embora. Não trocamos uma palavra durante todo o trajeto. Eu olhava João, sentado ao meu lado atrás, e ele apenas observava a paisagem. Olhar distante.

Tentava imaginar o que ele pensava. O que todos pensavam. Cinco pessoas foram mortas naquela noite e com requintes de crueldade. Não era uma situação normal.

O primeiro deixado em casa foi João. Perguntei se estava tudo bem e ele apenas respondeu “Sim” caminhando. Depois foi a minha vez enquanto Rui e Scarface prosseguiram.

Rui desceu e antes de entrar em casa comentou com o taxista “Não esqueçam do Sem Alma, amanhã é dia de pegar esse filho da puta, depois ligo para dar as coordenadas”.

É..Voltamos assim ao capítulo que Galalite e Scarface mataram o Sem Alma.

Scarface entrou na quitinete que morava, pegou uma cerveja e ligou a tv para ver VT do jogo do Botafogo. Na quitinete mal cuidada tinha pôster do Botafogo campeão brasileiro de 1985 e de seus ídolos. Al Pacino e Robert de Niro.

Seu telefone tocou e atendeu. Era Galalite. O bandido perguntou ao taxista se algum dos bandidos tocara em seu nome.

Scarface respondeu “Não, deu tudo certo. Os caras estavam tão desesperados que lembravam de porra nenhuma”. Continuaram Conversando mais um tempo e o taxista desligou o telefone.

Levantou, preparou um miojo, sentou na frente do tv, pegou a arma e fingiu atirar na tv dizendo “Diga olá para o meu amiguinho”.

Frase clássica de Scarface.

Scarface se sentia o Tony Montava, mas não passava de um psicopata.

No dia seguinte passou na casa de Galalite que entrou no carro e perguntou qual era a missão. O taxista respondeu “Vamos pegar um cara que ta devendo uma grana na praça e talvez o Sem Alma, depende do chefe”.

Scarface deu a saída e Galalite comentou “E o Gagau hein?”. Furioso Scarface retrucou “Nem me fale desse filho da puta”. Enquanto Galalite ria e dizia que nunca viu um crente falar tantos palavrões o taxista finalizou “Jesus perdoa, eu não”.

E assim partiram para o “trabalho”.

E eu não preguei o olho a noite toda cara!! Foi foda! Não sei o que acontece, mas a porra da violência me persegue. Depois de tudo que vivi com Pardal, Lucinho, Major Freitas, senador Getúlio Peçanha, Pittinha, as prisões, o tráfico, achei que estivesse livre, mas nada.

Levantei para beber água e Lucinho apareceu comentando “Faz parte de você”.  Parei e perguntei o que fazia parte de mim e o fantasma respondeu “A violência, a morte”.

Falei que aquilo era besteira. Nunca fui bandido, tive alguns desvios, mas paguei por eles e Lucinho retrucou “Você faz parte desse mundo. Não adianta tentar fugir, dizer que pagou se você gosta, isso te da adrenalina”.

Respondi que ele tava falando merda e perguntei porque sumiram, Lucinho contou que em “Nosso lar” não liberam saídas quando acontece algo ruim na Terra e eu gargalhei perguntando “Vocês estão no céu? Não estão no inferno? Ta de sacanagem!!”.

Lucinho sério respondeu que eu entendia nada de vida e morte. Caminhei para o quarto e Lucinho gritou “Não adianta que você não vai conseguir dormir hoje e não é porque está abalado com a noite que teve, mas porque está excitado com ela!!”.

Deitei na cama pensando no que Lucinho disse e me perguntei “Será?”.

Voltando ao dia seguinte Scarface e Galalite dentro do táxi esperavam a “vítima” da vez. Galalite falava com a esposa no telefone, Scarface comia biscoito globo enquanto esperavam. Um homem saiu de dentro de uma casa com uma mulher e uma criança.

Era o homem torturado do começo da história.

Scarface cutucou Galalite mostrando o homem e o bandido falou para a esposa “Amor, tenho que ir, pintou um serviço. Ta, eu vou ao mercado e faço compras, te amo”. Desligou e disse a Scarface “Vumbora maluco”.

Desceram, abordaram os três e pegaram o homem levando ao táxi.

Galalite entrou do branco de trás com o sequestrado e Scarface apontou o dedo dizendo a mulher “Vocês não viram nada. Fiquem quietos ou mato vocês em nome de Jesus”.

É..Assim eram Scarface e Galalite.

Eles faziam uma dupla tipo Batman e Robin, Chitãozinho e Xororó, Pelé e Coutinho. Pareciam não ter nada a ver um com o outro, mas se completavam.

Galalite. Cria do morro do alemão, gostava de jogar bola quando criança. Tinha habilidade e diziam que seria o novo Zico. O menino ficava puto, botafoguense fanático respondia que era o “Mané Garrincha”.

Foi aprovado para treinar em seu clube do coração e logo se destacou sendo visto com interesses até por clubes do exterior. Conheceu a Espanha com sua família, fez testes no Barcelona, foi aprovado, mas não quis ficar no clube catalão por amar o Botafogo.

Voltou ao Brasil e a treinar no Botafogo. Fez contrato com um cara conhecido como Miguel Xoxó, empresário de futebol e parecia que teria um belo destino pela frente.

Parecia.

Galalite além de jogar bola andava em más companhias. Na folga bebia, fazia arruaças e cometia pequenos furtos. Em uma dessas foi pego pela polícia.

Por ser menor de idade seria levado a um centro de reabilitação e
assim acabar sua carreira, mas por sorte um dos policiais era
botafoguense fanático e conhecia Galalite das preliminares do Maracanã. 

Foi liberado, mas as coisas que fazia de errado já começavam a repercutir no clube. Um preocupado Miguel Xoxó foi procurar Galalite em casa.

O garoto estava sozinho no barraco. O empresário entrou e reclamou do comportamento do rapaz. Disse que a direção do clube estava de olho e poderia dispensá-lo. Galalite, assustado respondeu “Não, isso não pode acontecer! O Botafogo é a minha vida!”.

Miguel Xoxó se aproximou de Galalite e acariciou o rosto do menino dizendo “Fique tranquilo, vou cuidar de você”. Galalite se afastou falando “Qual é seu Miguel? Curto viado não, sai pra lá”.

O homem se aproximou de novo e disse “Deixa de ser bobo. Eu posso fazer de você um astro! O melhor do mundo!” Partiu pra cima de Galalite tentando agarrá-lo e gritando “Se comporta senão acabo com sua carreira!”.

Galalite tentava se desvencilhar do ataque do homem mais velho, maior, quando viu uma faca de cozinha. Não titubeou em pegar a faca e acertar Miguel.

Miguel caiu ferido no chão. Galalite partiu pra cima furando várias vezes o empresário dizendo “Filho da puta!! Viado nenhum toca em mim!”.

Miguel Xoxó estava certo. Poderia acabar com a carreira de Galalite. O empresário morreu e o garoto foi pro reformatório.

Ficou três anos no local e saiu encontrando uma vida bem diferente da que deixara. Não tinha mais as portas abertas não só no Botafogo como em nenhum grande clube. Parou no Campo Grande.

Não tinha mais a habilidade de antes depois de tanto tempo preso, as farras e noitadas acabaram com o pouco que restava. Foi dispensado do clube e desistiu do futebol indo trabalhar pro jogo do bicho.

Virou um dos homens de Pittinha.

Uma tarde estava no escritório de Pittinha ouvindo o que o bicheiro tinha a dizer. “Quero a cabeça desse filho da puta! Quero embrulhada para presente como se fosse Natal. Abrir o lacinho, tirar o embrulho e encontrar a cabeça desse merda dentro da caixa. Entenderam ou preciso ser mais claro?” Perguntou Pittinha.

Galalite acenou com a cabeça afirmando que sim. Pittinha então perguntou “Entendeu Scarface?”.

Scarface, que estava sentado ao lado de Galalite, respondeu “Vai ser o meu presente de Natal pro senhor”. Pittinha respondeu “Ótimo”. Samantha, lembram dela, a amante de Pittinha? Entrou na sala fazendo carinho no bicheiro que deu a ordem “Vocês dois podem ir, só voltem com a cabeça daquele viado!!”.  

Galalite e Scarface se conheceram naquela reunião. Galalite perguntou ao novo companheiro “Já matou alguém?”. Scarface pegando a arma na cintura respondeu “Essa semana não”.

Assim surgiu uma linda amizade.

Galalite era mais centrado, mais inteligente. Scarface maluco, psicótico, amante da violência. Enquanto a criançada jogava bola no lado de fora ele ficava em casa vendo televisão. Desde moleque fã de Al Pacino Scarface ficava na poltrona com olhos fixos na tv como se estivesse em transe e na parte final do filme falava “Diga olá para o meu amiguinho”.

Scarface, ou melhor, Genival, esse era seu nome, era o mais novo de cinco irmãos de uma família que migrara de Pernambuco para São Paulo. Desde pequeno maluco, inconsequente, se meteu em  briga em um bar ainda adolescente e rasgou o rosto de um bandido da área com pedaço de uma garrafa.

Foi jurado de morte e por isso deixou a família para trás indo para o Rio de Janeiro.

Sozinho na cidade se virou como pôde. Sobreviveu no começo fazendo pequenos bicos e quando não tinha roubava para não passar fome.

Na verdade não passar fome era apenas uma desculpa. Ele gostava de roubar, gostava da criminalidade.

Foi detido algumas vezes, mas sempre ganhava a liberdade até que descobriu que podia ganhar dinheiro de outra forma. Um travesti da Lapa se apaixonou por ele e Scarface deu trela. Começaram um caso e explorava o traveco.

Pegava todo o dinheiro do travesti e ainda lhe batia quando não tinha o suficiente. O travesti morreu de AIDS, por sorte ele não foi contaminado e com o tempo o rapaz mesmo começou a vender o corpo.

Circulava pela Lapa atrás de clientes e não tinha preconceitos. Homem, mulher, saía com todos. Começou caso com um deputado federal que se apaixonou por ele.

O deputado dava tudo para ele, do bom e do melhor. Alugou um flat para Scarface na Lagoa e podíamos dizer que a vida melhorou para o bandido. Mas mesmo assim aquilo era pouco para Scarface que queria um táxi do amante para assim juntar dinheiro e ir morar nos Estados Unidos.

Esse era o grande sonho de Scarface. Morar na América. O deputado nem queria ouvir sobre, não conseguia se imaginar vivendo longe do amado.  

Mas um dia o deputado disse que toparia viver nos Estados Unidos com Scarface. Os olhos do rapaz brilharam, mas aí ele completou “Você tem que matar minha esposa. Aí largo tudo e nós vamos”.

Scarface não pensou duas vezes e preparou a emboscada. Uma tarde a mulher estacionou o carro no shopping e quando saiu do veículo o bandido surgiu e deu três tiros nela saindo correndo.

Mas para seu azar a mulher sobreviveu. Depois de uma semana em coma abriu os olhos e lembrava de tudo denunciando Scarface. As câmeras de vigilância também flagraram o ato e o bandido foi preso por tentativa de assassinato.

O deputado lhe abandonou. Largado, Scarface ainda tentou arrolar o ex amante ao caso, mas poderoso, o homem negou tudo e se livrou do processo. Scarface pagou sozinho pelo crime.  

Quando saiu foi trabalhar com Pittinha e conheceu Galalite.

Não conviveram muito como subordinados a Pittinha. Cometeram alguns assassinatos, mas logo a casa de ambos caiu. O primeiro a ser preso foi Galalite, logo depois Scarface.

A amizade deles aumentou de verdade na cadeia.  Galalite falava do sonho de arrumar uma mulher decente, se casar e ter filhos. Scarface ria e respondia que o amigo pensava pequeno. Galalite perguntava “O que é pensar grande? Ir pros Estados Unidos lavar pratos?”.

Scarface respondia que ia se dar bem lá. Teria um táxi e rodaria por Nova York de noite “Igual o cara de táxi driver”.  Um pouco mais velho, Galalite aconselhava o amigo “A vida não é um filme Scarface, você pode se dar mal”.

Os anos passaram e um era o melhor amigo do outro. Scarface se converteu e virou evangélico, ao contrário de mim se converteu de verdade, mas assim como Pardal era um evangélico de araque que continuava com a violência em seu corpo. Ao contrário de Galalite que era um homem tranquilo e passava a maior parte do tempo lendo Scarface era arredio, irritadiço e adorava uma confusão.

Entrou em várias dessas na cadeia e era suspeito de alguns assassinatos.

Um dia Galalite chegou com uma novidade “To indo embora”. Scarface se assustou e perguntou “Como assim?”. Feliz Galalite comentou que o pedido que seu advogado fizera na justiça deu certo e ele estava livre.

Em vez de ficar feliz pelo amigo Scarface ficou triste e perguntou “E eu?”. Galalite fez carinho no rosto do amigo e disse “Você vai ver, vou me dar bem lá fora e quando você sair vou te botar numa boa”.

Galalite saiu da prisão e no dia seguinte eu entrei.

Scarface saiu da cadeia um pouco depois de mim. Sem contato comigo, Galalite, com ninguém tentou se virar como podia. Voltou aos pequenos furtos e a vender seu corpo.

Alugou um quarto numa “cabeça de porco” no centro da cidade e tentava a sorte nas ruas atrás de clientes. Também colocou anúncio em classificados dos jornais e assim descolava um troco. Pequeno, muito longe de ser o suficiente para se mandar pros Estados Unidos, mas era o que dava pra arrumar.

Uma noite perambulava pelo Centro atrás de clientes quando um carro parou e um homem buzinou. Scarface olhou para traz e reconheceu aquele homem. Era Galalite.

Galalite saiu do carro com os abraços abertos e disse “Porra!! Deu um trabalhão pra te achar!!”.

Os amigos se abraçaram e Scarface falou “Cara, que bom te rever! Mas não sabia que você curtia essas coisas”. Galalite demorou, mas entendeu o que o amigo disse e respondeu “Ta maluco? Sou facão porra!! To com mulher e filha. Tava te caçando pra te levar para uma parada boa, não te prometi?”.

Scarface entrou no carro e Galalite o levou até Rui de Santo Cristo.

Galalite chegou ao policial e disse “Esse é o cara que eu tinha prometido trazer. Ele é maluco e não tem vergonha de atirar quando preciso”

Rui sorriu e estendeu a mão a Scarface dizendo “Ótimo. Caras assim que queremos no nosso grupo. Seja bem vindo”.

Eles apertaram as mãos. Scarface estava no grupo.

Que grupo? No próximo capítulo vocês saberão.



ERA DA VIOLÊNCIA 2 (CAPÍTULO ANTERIOR)




LINK RELACIONADO (LIVRO ANTERIOR)

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

PRESOS POLÍTICOS PRESOS


*Coluna publicada no blog "Ouro de Tolo" em 24/11/2013


E prenderam os mensaleiros (apesar da galera da esquerda não gostar dessa expressão).

Depois de oito anos do escândalo do mensalão, de trocas de acusações, julgamentos, recursos e embargos infringentes debaixo de muita polêmica o ministro do STF Joaquim Barbosa mandou que as sentenças fossem cumpridas e políticos e empresários foram presos em regime fechado e semi-aberto.

Pra quem não se lembra (Impossível não lembrar) em 2005 o deputado do PTB do Rio de Janeiro Roberto Jefferson acusou alguns integrantes da base governista de pegar propinas mensais a deputados para que projetos do governo passassem no congresso. Por isso, por essa propina ser mensal que foi dado o nome de mensalão.

Um grande escândalo que abalou as estruturas da República e respingou fortemente no presidente Lula. Lula disse que não sabia de nada, acusadores e acusados corroboraram a informação do presidente, mas mesmo assim respingou nele.

Era difícil acreditar que um presidente não soubesse do que se passava ao lado de seu gabinete. Quase ninguém acreditou. Com isso o presidente que era extremamente popular viu sua popularidade indo embora. A oposição tentava atrelar Lula ao mensalão, dia a dia caía um homem de sua confiança e o presidente começava a agonizar em praça pública.

Alguns esperaram por sua renúncia, o que não ocorreu.

A oposição calculou mal. Não partiu com agressividade para cima de Lula, não buscou o impeachment. PSDB e cia foram o boxeador que tem a chance de nocautear, mas não parte para o fim da luta. Coisa que o PT faria. 

Em vez de tirarem o Lula preferiram deixá-lo fraco, agonizando na expectativa de humilhá-lo nas eleições de 2006. Mas mesmo com todos em sua volta caindo Lula é raposa velha e conseguiu se reerguer principalmente nos projetos sociais do partido e contando com o tão costumeiro esquecimento brasileiro. A tática oposicionista deu errada, Lula foi reeleito e o restante da história todos sabemos.  
 
Dois nomes que caíram nesse escândalo são emblemáticos. Os Josés. Dirceu e Genoíno.

Dois outrora lutadores, guerreiros, que combateram a ditadura militar, pegaram em armas e sacrificaram parte de suas vidas buscando a volta da democracia. Considerados heróis nacionais até 2005 e caíram na vala comum da vaidade e da sede de poder.

Genoíno era considerado o boa praça, o político humilde, sem riqueza e honesto acima de qualquer suspeita, Zé Dirceu o grande líder, estrategista, uma espécie de primeiro ministro do Brasil e que se não fosse o escândalo fatalmente hoje seria nosso presidente, não a Dilma.   

Por motivos diferentes foram denunciados. Pairam dúvidas para muitos sobre a atuação do Genoíno no caso, alegam que é a primeira vez que surge um corruptor pobre. Sobre José Dirceu cai a pecha de “chefe da quadrilha”. O homem que tudo organizou, o inimigo número um do país.

Para alguns Zé Dirceu é o demônio, o maior corrupto de nossa história que comandou o maior esquema de corrupção dessa terra desde a chegada de Cabral. Festejam sua prisão dando a impressão que o Brasil agora é um novo país, sem corrupção e banditismo. 

Para outros Zé Dirceu é um mártir. No twitter chegaram a igualá-lo a Nelson Mandela, o político preso porque queria uma condição melhor ao seu povo. Para a direita são monstros, para a esquerda guerreiros.

Para uns presos políticos em tempos de democracia, para outros políticos presos em tempos de mudanças.

O que são pra mim?

Presos políticos presos.

Evidente que nesse puteiro não têm virgens. Evidente que se em todos os atos de nossas vidas tem política no meio o STF também tem e nota-se claramente que além de tudo que essas pessoas são acusadas aí também tem o peso da política.

Os corruptos do PT são tratados de maneira diferente dos corruptos do PSDB que quase não se ouve falar de seus crimes e o mensalão mineiro, que é o mensalão do PSDB, está próximo de ficar impune.

O escândalo da compra de votos para aprovação da reeleição na época de FHC ninguém fala.

E me parece sim que o Joaquim Barbosa é uma pessoa vaidosa, autoritária e que quer para si o título de guardião da justiça e assim exercer sua vaidade exacerbada.

Mas isso faz deles mártires? Pobres coitados? Não.

Assim como a política tem peso nesse caso não dá pra negar que crimes foram cometidos, é cegueira ou interesse próprio pensar dessa forma. Eles foram julgados, condenados, tiveram recursos, essa história se arrastou oito anos e só agora foram presos. Que pessoa comum teria essa facilidade? 
 
Criminoso tem que pagar por seu ato, não importa de qual bandeira esteja abaixo.

Aliás, me importa sim. Se eu já acho nojento alguém com poder na mão se aproveitar desse poder para benefício próprio acho pior ainda quando é de partido que eu voto e acredito.

Sim, porque eu votava, voto e continuarei votando no PT porque apesar de tudo acho a melhor opção, a vida do brasileiro melhorou com sua chegada ao poder, principalmente do mais pobre.

Mas não compactuo com sacanagem, com safadeza, ainda mais de quem depositei minha esperança, minha expectativa. Acho errado querer proteger alguém só porque faz parte de seu partido, esses são os primeiros que quero punidos porque me traíram.

Sou petista e José Dirceu não me representa.

Vejo diariamente a briga entre petistas e anti-petistas nas redes sociais por causa dessas prisões, opiniões das mais diversas  e eu não consigo concordar com ninguém. Vejo os dois lados defendendo apenas seus interesses e não pensando no país. O que importa é o projeto político.

A dívida do mensalão nunca será paga e nenhum lado quer que seja.



quinta-feira, 28 de novembro de 2013

SOBE O SOM: MAMONAS ASSASSINAS




Prosseguindo a série “Sobe o som” chego àqueles que estão entre os grandes ídolos da minha vida, Mamonas Assassinas.

Os Mamonas foram tema do blog na data do aniversário de sua morte (Link no fim da coluna) e podemos dizer que foi um grande cometa. Um cometa de alegria que passou entre o meio de 1995 e o começo de 1996 batendo recorde de vendas de cds, aparições na televisão, shows e conquistando para sempre uma geração de crianças que hoje são adultos saudosos dos garotos de Guarulhos. Então vamos lá.

Sobe o som ao top de quatro já vai Mamonas Assassinas!! 


Vira-vira


1406


Uma Arlinda mulher


Robocop gay


Sábado de Sol


Mundo animal


Lá vem o alemão


Chopis Centis




Jumento Celestino


Débil mental


Sabão crá crá 


Bois dont`cry




Bem. Aí estão os grandes sucessos do maior fenômeno musical dos anos 90, os Mamonas Assassinas. Semana que vem vamos de Guarulhos para Liverpool. Vamos falar dos “caras”. De Beatles. 



Enquanto isso vamos matas as saudades um pouco mais com aqueles que devem estar divertindo os anjos. Mas espero que vestidos porque pelados basta em Santos.




LINK RELACIONADO:

MAMONAS ETERNAS



ARQUIVO:

SOBE O SOM


quarta-feira, 27 de novembro de 2013

27 DE NOVEMBRO: O REENCONTRO




Fim de setembro. A situação não está nada boa. Entre os muitos problemas que minha vida tem e se acentuaram de 2005 para cá surgiu um novo, um que nunca me preparei para encontrar. Filho doente.

Gabriel, tadinho, tem nem cinquenta dias ainda e está internado em um hospital aqui na Ilha do Governador. Não sabemos ainda o que ele tem e essa situação aflige demais. Nesses últimos dias apareceram suspeitas de meningite e leucemia. Corri para o google para saber mais sobre as doenças e amigos, não é fácil.

O mundo todo caindo sobre a cabeça, um peso enorme nas costas que não se tem com quem dividir. Tenho que ser forte perante as meninas que fraquejam, paciente com a Bia que não sabendo o que ocorre está especialmente bagunceira, poupando minha avó que já tem oitenta anos e infelizmente não pode fazer nada. Apesar das dezenas de amigos e pessoas na internet que mal conheço e rezam por ele me sinto sozinho. Sinto falta de uma pessoa e dá vontade de gritar por ela.

Mããããeee!!

Sim, minha mãe. Muitas vezes de 2005 para cá, quando morreu, ela fez muita falta, em alguns momentos mais ainda e nunca tanto quanto agora. Fui filho por vinte e oito anos, protegido por todo esse tempo e virei pai sem querer. Queria alguém para dividir esse drama, poder chorar em seu colo em vez de sozinho no quarto como venho fazendo.

Ou me acalmar como no momento que estou agora, exatamente nesse momento que fui render a Michele e estou com ele no hospital.

Cheguei quase meia noite, os seguranças me deixaram entrar e Michele foi descansar. Estou no quarto com ele, quarto escuro, silencioso. Não tem ninguém nos corredores. Estou praticamente sozinho com mais três mães que dormem com seus filhos. Uma delas, novinha, dorme num sofá e o seio está aparecendo. Não vou olhar, não é momento para isso, é, até que é bonitinho..

Deito no sofá ao lado de Gabriel e ele começa a chorar. Pego no colo, as mães acordam, para não atrapalhar o sono de ninguém saio do quarto e falo baixinho para que ele pare de chorar porque “papai está ali”. Ele para, retorno ao quarto e o coloco no berço. Deito e ele volta a chorar.

Assim vai a noite quase toda. Já estou bem cansado. Cansado com o drama do pequeno Gabriel, menos de dois meses de idade e todo furado, revirado, machucado por agulhas. Cansado pela noite que passo. Penso “Ai mãe, bem que precisava de você agora” e novamente ele para de chorar.

Coloco no berço, ele se mexe um pouco, mas dorme. Nem acredito, vou poder descansar. Deito, olho mais um pouquinho a menina com a blusa aberta e ouço uma voz “Pare de olhar o seio da menina, que coisa feia”. Me assusto pensando que alguém percebeu, olho para os lados, mas vejo ninguém.

Penso “Devo estar com sono mesmo”. Fecho os olhos e antes de dormir me vem à mente “Conheço essa voz”.

Durmo e acordo sobressaltado, como se tivessem falado comigo. Olho em volta e nada. Levanto, olho o Gabriel e ele dorme. Aproveito e vou ao corredor beber água. Encho o copo, coloco na boca e quando estou bebendo ouço uma voz que diz “Você não está sozinho”.

Olho e vejo ninguém, falo baixinho “Isso ta ficando estranho”, ouço novamente a voz que pergunta “Não reconhece mais minha voz?”. Olho e vejo minha mãe.

Claro que saio correndo, paro no meio do caminho e penso “Por quê to correndo? Isso foi só impressão minha, não devia ter visto o sexto sentido ontem”. Volto a andar no corredor e a vejo de novo dizendo “Você já foi mais corajoso”.

Pergunto se é ela que responde “Não Pedro Bó, sou sua avó”. Só ela me chamava de Pedro Bó, personagem do humorístico do Chico Anysio que era burro e ela citava quando eu fazia alguma burrice.

Pergunto o que ela faz ali e ela devolve perguntando “Você não me chamou?”. Respondo que sim, mas tinha chamado muitas outras vezes e nunca aparecera. Ela sorri e responde “Você que pensa”.

Não entendo e ela continua “Estive ao seu lado esse tempo todo. Lembra no dia do meu enterro quando você sonhou comigo e eu disse que estava bem e não se preocupasse?”. Respondo que sim e minha mãe completa “Era só um sonho mesmo, não fui eu, mas nunca te deixei”.

Caminhamos um pouco por aquele corredor vazio e comento que não estava sendo fácil, ela responde “Nunca foi fácil, a diferença é que antes tinha alguém pra resolver por você”.

Eu digo que preferia assim, não queria ter que resolver tudo e ela retruca “Você precisa passar por isso, passar por todos esses problemas, essas aflições”. Pergunto porque e ela responde “Foi assim que você cresceu”.

Continuo olhando para ela. Minha mãe passa a mão em meu rosto e diz “Eu tinha uma missão nesse mundo, ter você. Eu sempre disse que meu maior sonho era ser mãe e você realizou esse meu sonho”. Respondo que era verdade e ela emenda “Minha missão foi cumprida, tive você e você cresceu. Mas faltava a última coisa”.

Pergunto o que era e dona Regina responde “Eu precisava partir pra você nascer de verdade. Você precisava sair de sua redoma de vidro. Ter só a si pra resolver tudo”. Comento que cometi muitas burradas e ela me conta “Eu sei, eu estava lá limpando suas lágrimas todas as vezes que você se conscientizava da besteira que cometeu”.

Minha mãe olha para meu rosto por um tempo e eu digo”Não deve estar reconhecendo né? Eu envelheci. Esse ano então tenho a impressão que envelheci uns vinte anos. Os sorrisos diminuíram. Fiquei mais sério, mais triste”.

Minha mãe me dá um beijo na testa e fala “Você não envelheceu, virou homem e os sorrisos vão voltar. Eles sempre voltam”.

Pede para ver Gabriel e eu levo até o quarto. Ficamos os dois olhando meu menino dormir no leito e ela comenta “Eu que te assoprei no ouvido para que você registrasse a Bia, naquela tarde no ônibus quando você teve a ideia”. Lamento que nunca veria as duas juntas e minha mãe responde “Não vê porque não quer. Eu estou sempre ao lado dela. Preste atenção que me verá”. Olhe nos olhos dela na hora que a Bia der uma gargalhada e me verá em seus olhos”.

Minha mãe pega Gabriel no colo, dá um beijo em sua testa e diz “Está curado”. Olho para ela que completa “Deite, você tem que estar bem para criar meus netos”.

Deito e ela se aproxima da porta. Antes que ela saísse chamo. Ela me olha e eu digo que queria fazer uma pergunta desde o dia que ela morreu. Minha mãe responde “Sim, tenho orgulho de você, muito orgulho”.

Agradeço e antes que ela saísse chamo novamente dizendo que tinha outra pergunta. Ela pergunta qual e eu faço “No céu tem pão?”.

Minha mãe ri, me chama de palhaço e manda que eu feche os olhos. Fecho e ela diz “te amo”. Respondo “Pra sempre” e adormeço.

Acordo com a médica examinando Gabriel. Pergunto como ele está e ela responde que muito bem. Dois dias depois ele está em casa. Tiro foto com ele e Bia para mostrar a sua vitória e a minha família.

Não estamos só os três. Minha mãe também está. Se forçar os olhos você pode ver. 

Hoje é dia 27 de novembro. Ela faria 56 anos e resolvi contar essa história. Os sorrisos realmente voltaram pelos mais diversos motivos. Talvez seja meu melhor momento nos últimos dois ou três anos e sei que tem muito dela nisso.

Feliz aniversário mãe. Sim, eu digo que não há mérito em fazer aniversário morto, mas quem disse que você morreu?

Acho que o título dessa história está errado. Não é um recomeço. Porque nunca acabou.

Ah, evidente que essa é uma história de ficção.

Ou não.



O ESPELHO E A ESTRADA


O espelho que reflete minha vida
Que um dia já mostrou um choro meu
A face do adeus na despedida
Lamento que o poeta escreveu

Agora só reflete esperança
Amor que o destino escolheu
Na forma de um sorriso de criança
Olhar que vê no espelho um filho teu

A vida, que é bonita, também causa dissabor
A tristeza desceu meus olhos, a saudade em mim morou
Perdi quem mais amava, pra sempre hei de amar
Me senti sozinho tendo estrada pra andar

Mas a vida se fez poesia
E alguém lá em cima de mim cuidaria
Mandou duas estrelas brilharem e descerem do céu
Filhos de seu filho, continuam seu papel

Mas a vida se fez poesia
E alguém lá em cima de mim cuidaria
Nessa estrada eu vou, com a luz que apaga jamais
O espelho refletiu a minha paz


      

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terça-feira, 26 de novembro de 2013

OLHOS DE TIGRE


*Conto publicado na coluna "O buraco da fechadura" do blog "Ouro de Tolo" em 23/03/2013

Olhos de tigre para quem não lembra é o nome em português da música “eyes of the tiger” música tema de Rocky Balboa.
Diria que um dos heróis desse conto não tinha olhos de tigre e sim olhos de jumento. Barbosinha nasceu no interior da Bahia. Comeu o pão que o diabo amassou no sertão e seu pai não aguentando mais a miséria mudou com a família de mala e cuia para o Rio de Janeiro.
Trabalhou como pedreiro ajudando seu pai e com o trabalho braçal ganhou músculos. Brigão, exalando fúria uma vez meteu-se numa confusão em um baile funk e na saída do local seis homens esperavam por ele prontos para baterem até dizer chega.
Barbosinha não se fez de rogado e caminhou em direção ao ponto de ônibus ignorando os valentões. Os homens andavam atrás e xingavam de todas as formas e ele quieto prosseguia a caminhada até que gritaram “comedor de calango”.
Eles não deviam ter feito isso..
Se tinha algo que ele odiava era ser chamado assim. Barbosinha virou o bicho da coleira preta. Quis nem saber que eram seis do outro lado e avançou em cima dos caras sem dó nem piedade. Parecia aqueles filmes do Bruce Lee, Chuck Norris ou Renato Aragão que eles sozinhos derrubavam um a um dos inimigos.  
No fim os seis foram nocauteados e Barbosinha limpou a roupa suja de sangue dos adversários voltando a andar para o ponto de ônibus quando um homem lhe parou.
O homem entusiasmado contou que poucas vezes na vida tinha visto um exemplo tão forte de força, brutalidade e macheza. Barbosinha mandou que o homem parasse, pois, gostava de mulher e o homem riu entregando um cartão ao rapaz.
No cartão estava seu nome Dick Volatto, era treinador de boxe. Barbosinha perguntou se aquilo era alguma brincadeira e Dick mandou que ele comparecesse ao local no dia seguinte para ter certeza.
Barbosinha apareceu e comprovou que era mesmo um centro de treinamento de boxe. Dick apareceu e perguntou se o rapaz queria aprender e ser um boxeador. Barbosinha respondeu que sim e assim começou sua história na nobre arte com Dick lhe dando o nome de “Sugar Ray Barbosinha”.
Na mesma academia treinava o Robertinho. O rapaz foi criado em uma favela perto da academia e muito cedo se meteu em coisas erradas. Cometia pequenos furtos aqui e ali até que foi expulso de casa.
Foi morar com um tio e lá começou a se envolver com torcidas organizadas de futebol. No começo era tudo festa e diversão. Ajudava a fazer as bandeiras, chegava cedo aos estádios para preparar toda a festa e puxava os cânticos na hora do jogo.
Só que com o tempo começou a se envolver com o lado errado. Juntou-se a um pessoal barra pesada e se envolver em brigas. Essas brigas muitas vezes eram marcadas pela internet e nem precisavam ser em dia de jogos, só precisava a vontade de brigar.
E Robertinho brigava bem. Voltava machucado a sua casa para desespero do tio, mas os inimigos voltavam muito mais. O tio aconselhava que aquilo não era vida e que ele largasse porque um dia poderia se dar mal, mas o rapaz não dava ouvidos, queria botar pra fora a fúria que sentia.   
E um dia se deu mal mesmo. Saindo de um estádio sozinho foi cercado por mais de quinze homens e espancado.                                                                         
Foi para o hospital e ficou entre a vida e a morte, mas acabou escapando sem sequelas.
O susto valeu a pena e Robertinho não quis mais saber de torcidas organizadas. O tio, amigo de Dick, teve a idéia então de levar Robertinho até a academia para assim jogar sua fúria em um esporte.
Dick fez um teste com Robertinho e viu que seu soco era mesmo potente, deu nome a ele de “Robertinho Tyson”. Dessa forma Dick virou treinador de Robertinho Tyson e Sugar Ray Barbosinha e eles viraram amigos.
Não só amigos, mas os melhores amigos. Robertinho deu as boas vindas a Barbosinha e foi o primeiro a simular uma luta com ele. Foram ao ringue e Barbosinha mostrou ao adversário o poder do seu soco. No fim Robertinho elogiou o oponente, disse que ele tinha futuro e lhe convidou para jantar em sua casa.
Robertinho apresentou Barbosinha ao tio e o papo no jantar foi apenas sobre boxe, depois se sentaram na sala para assistir vídeos de lutas antigas de Mike Tyson, Joe Frazier, George Foreman e Muhamad Ali.
Um ajudava o outro nos treinamentos, jantavam um na casa do outro. Barbosinha morava sozinho e relevou-se ótimo cozinheiro e quando as lutas começaram sempre era um no ringue e outro na plateia torcendo.
Os dois mostraram talento e ganharam suas lutas iniciais mostrando que Dick Volatto tinha olho clínico. Mas os meninos estavam na flor da idade, com hormônios em ebulição e queriam conhecer garotas. Robertinho conheceu uma, Barbosinha outra e os dois amigos resolveram marcar uma saída em quatro para assim um conhecer a namorada do outro.    
Marcaram em um restaurante e qual não foi a surpresa quando Barbosinha chegou com Cleide, a irmã de Robertinho e Robertinho com Janice, a irmã de Barbosinha. Os amigos boxeadores riram da situação e perceberam que mais que amigos eles agora fariam parte da mesma família. 
Os namoros eram sérios tanto que acabaram em casamento e pra mostrar a amizade forte entre eles os amigos boxeadores decidiram casar na mesma igreja no mesmo dia. Igreja entupida, uma grande festa e os dois unidos para sempre.
E unidos nas vitórias também. Seguiam invictos com vitórias convincentes e cada vez mais próximos do cinturão de campeão brasileiro. O problema surgia do fato dos dois serem da mesma categoria e se quisessem o título uma hora teriam que se enfrentar.
O título ficou vago porque o detentor do cinturão mudou de categoria no momento que Barbosinha era número um e Robertinho número dois do ranking, não tinha jeito chegara a hora do enfrentamento.
Não podiam treinar mais juntos e Dick dividiu sua comissão técnica para que treinassem os dois para o confronto. O cinturão era o sonho dos dois lutadores e mesmo assim a amizade deles não foi abalada. As pessoas tinham dúvidas se seria uma luta de qualidade e curiosas esperavam o combate.
Normalmente um confronto por cinturão brasileiro não tinha tanta repercussão, mas esperava-se que ali saísse um campeão mundial.
No dia da luta o ginásio estava cheio. Os dois lutadores se concentravam nos vestiários enquanto os torcedores enlouquecidos urravam nas arquibancadas. As bolsas recebiam apostas de forma frenética com dinheiro muito forte para quem acertasse o vencedor. O embate era tão equilibrado que mesmo nas bolsas não tinha preferência por um deles.
Chegou a hora do confronto. Os dois lutadores surgiram no ginásio sob gritos da plateia. Foram apresentados seus cartéis e o árbitro passou as regras aos oponentes. No fim eles se abraçaram e disseram um ao outro que a amizade era mais importante que tudo.
A luta começou e de forma profissional os dois foram ao embate. O começo foi estudado até que Robertinho deu um soco que atingiu em cheio Barbosinha levando a lona. O lutador levantou percebendo que a luta era séria e partiu pra cima do amigo.
E o que seria uma luta entre dois profissionais que levavam a amizade acima de tudo virou uma batalha sangrenta com quedas para todos os lados, plateia assistindo de pé gritando e recorde de audiência na tv. A amizade há muito deixada de lado, os lutadores enfurecidos um com o outro se provocavam e continuavam lutando mesmo depois do gongo tocado.
Foram até o último round exautos, se socando até que o último gongo tocou e os dois lutadores foram aplaudidos pelo país.
Robertinho e Barbosinha arrebentados se olhavam com cara de pouquíssimos amigos, ninguém podia prever quem vencera o combate até que o juiz deu o resultado. Empate.
Ouviu-se uma vaia na plateia e sorrisos felizes dos investidores, teríamos uma revanche pelo título vago.
Os dois pararam em hospital e tentaram brigar ali mesmo com médicos e enfermeiras tendo que intervir, a amizade estava devidamente abalada.
Barbosinha deixou a academia e foi treinar em uma rival, os dois pararam de se falar e o clima era bem tenso todas as vezes que se encontravam. Era tudo que os investidores queriam, transformar a revanche em guerra.
Mas não contavam com um fator novo.
Um dia Barbosinha treinava e um homem chegou na academia e convidou para uma conversa, marcaram em um bar a noite.
O boxeador apareceu e tinha uns homens mau encarados querendo conversar com ele. Um deles, o chefe, foi direto ao assunto e disse que queria que Barbosinha perdesse.
O boxeador riu e falou que o assunto tinha começado muito mal e tentou levantar quando o homem ofereceu um milhão de reais para que ele perdesse, dava quinhentos mil antes da luta e mais quinhentos depois da derrota sacramentada.
Barbosinha assustou-se com a quantia e perguntou o porque do interesse em sua derrota, o homem respondeu “apostas”. Tinha apostado pesado na vitória de Robertinho e ganharia muito dinheiro, milhões se Barbosinha fosse nocauteado no terceiro assalto.
Barbosinha ficou pensativo e homem tentou convencê-lo que era um ótimo negócio para um rapaz que nasceu na pobreza, um milhão no bolso para garantir sua independência financeira, de sua família e nada impedia que ele fosse campeão mais pra frente.
O boxeador pediu vinte e quatro horas pra pensar e foi embora.
Barbosinha mal conseguiu treinar direito no dia seguinte e decidiu ir embora mais cedo da academia. Era vizinho de Robertinho e quando chegou na frente de sua casa para entrar viu o rival fazendo o mesmo. Decidiu cumprimentar o ex amigo que devolveu o cumprimento. Robertinho entrou e Barbosinha pensou, ganharia um milhão e ainda veria seu amigo campeão, valia a pena.
Encontrou os homens e topou a proposta. Recebeu um cheque de quinhentos mil reais com a promessa que receberia mais quinhentos no vestiário logo após a luta.
O boxeador estava concentrado em seu vestiário pensando em tudo que teria que fazer quando Robertinho lhe fez uma visita. Barbosinha se surpreendeu com sua entrada e Robertinho lhe deu um abraço pedindo desculpas por tudo. Barbosinha retribuiu o abraço dizendo que gostava muito dele e se o amigo fosse campeão seria como se ele também fosse. Robertinho disse o mesmo.
A luta parou o Brasil sendo primeiro lugar de audiência no país e o ginásio inteiro berrava querendo sangue quando os lutadores foram ao ringue. O árbitro fez as recomendações de praxe e a luta começou.
Diferente da batalha sangrenta da luta anterior eles não acertaram um soco um no outro tomando vaias da plateia. Chegaram assim ao terceiro round sem uma troca de golpes, como se um fugisse do outro.
No terceiro round Barbosinha sabia que tinha que cair e se preocupava por Robertinho não lhe socar, não entendia o respeito exagerado do amigo. Em determinado momento Robertinho falou “me bate”, Barbosinha não entendeu e perguntou o que o amigo dissera e ele falou novamente “me bate”.
Sob imensas vaias os dois decidiram ao mesmo tempo dar pelo menos um soco pra aplacar a fúria do público e quando encostaram de leve um no rosto do outro os dois desabaram.
Ninguém entendeu nada, o ginásio e o país ficaram em silêncio com os dois caídos no ringue como desmaiados. O árbitro olhava o chão sem saber o que fazer até que declarou empate sob vaias ensurdecedoras e gritos de armação.
Bandidos armados até os dentes entraram nos vestiários dos dois boxeadores dispostos a fazer deles carne moída, mas em vão, os vestiários estavam vazios. O homem que deu quinhentos mil a Barbosinha apontou um fuzil pro teto e gritou que caçaria os safados até sua morte.
Em um resort na Polinésia Francesa Cleide e Janice se esbaldavam na piscina com os filhos dos casais enquanto Robertinho e Barbosinha se bronzeavam nas areias perto do mar transparente. Barbosinha ria da situação, principalmente do fato de outro grupo de bandidos ter subornado Robertinho para que perdesse também no terceiro round.
O único fator que irritava Barbosinha era que foi prometido dois milhões a Robertinho, ele recebeu um milhão antes e receberia um milhão depois. Perguntou o porque da diferença e Robertinho respondeu que era evidente, ele tinha vencido o primeiro combate.
Barbosinha riu e falou que tinha feito da cara de Robertinho purê de batatas naquela luta e nunca que ele teria vencido. Robertinho insistiu que era mais lutador e Barbosinha propôs uma aposta.
Uma luta ali na areia só os dois e quem vencesse ficaria com todo o dinheiro dos subornos. Robertinho concordou e os dois ficaram de pé.
Olharam-se por um tempo e começaram a se socar como numa luta de boxe tendo como testemunhas apenas o Sol, a areia branquinha e o mar.  
Quem venceu? Isso é o que menos importa.


O que importa é lutar.