segunda-feira, 31 de março de 2014

50 ANOS




Ano passado escrevi uma coluna para o blog “Ouro de  Tolo” falando do aniversário do golpe militar no Brasil (que durante anos foi chamado de forma errada aqui de revolução).

Hoje a famigerada data faz 50 anos e temos que lembrar, lembrar muito para que nunca mais ocorra. O problema do tempo passar é que ele atenua horrores como o Holocausto e As ditaduras, sejam de esquerda ou direita.

Minha homenagem a todos que lutaram e tombaram lutando pela liberdade do Brasil.

“Há soldados armados, amados ou não”


“ANOS DE CHUMBO”  


No final do ano a ESPN Brasil através do jornalista Lúcio de Castro fez uma série chamada “Anos de chumbo” mostrando os bastidores das ditaduras militares de Brasil, Argentina, Chile e Uruguai. Vi e revi os documentários e fiquei muito impressionado.

Na hora pensei que valia uma postagem pra cá. O problema é que o ano começou e muitos assuntos foram surgindo, o carnaval a pleno vapor e fui adiando. Quis o destino que o dia 31 de março esse ano caísse em um domingo. A data perfeita.

Hoje é um dia pra lembrarmos. É domingo de Páscoa, o da ressurreição de Cristo onde com a família celebramos o amor dele por nós, o sacrifício que fez pela humanidade e dia de estarmos em comunhão com a família.
Mas também é dia de lembrar outra data. Os quarenta e nove anos do golpe militar que pôs o Brasil na escuridão por vinte e um anos.

Uma grande vantagem dos tempos de democracia estável em que vivemos. Podemos falar a palavra “golpe”. Quando eu era criança os livros falavam em “revolução”.

E aí vai o primeiro erro que este aqui que é especialista em nada e dá pitaco em tudo acha que existe. Na minha humilde opinião uma revolução é feita quando querem mudar o sistema, o status quo, a realidade em que vivemos e essa de 1964 foi justamente para manter tudo como estava.

Inventaram um inimigo, o presidente João Goulart, inventaram um motivo, o risco do país virar comunista. Um parêntese, dizem que esse golpe teve apoio e patrocínio dos Estados Unidos, mestres em inventar motivos e vilões como no ataque ao Iraque onde falavam em armas químicas e não acharam nem um trinta e oito, mas esse assunto de repente vem em outro texto.

Golpe feito pelas classes dominantes do país. Apoiado pela classe média, pela TFP, pela imprensa e por muitos políticos que se amedrontavam com a “ameaça comunista”. Golpe dado com a promessa que duraria pouco e durou muito. Golpe que aos poucos fez boa parte desses que apoiaram ver que foram traídos e se tornarem alvos daqueles que apoiavam.

Golpe dos ais, do AI 5 e do ai de dor que provocou em quem lhe opunha e em suas famílias.

As ditaduras sul americanas calaram vozes. Seja com a censura, seja com os desaparecidos políticos como Rubens Paiva cuja família não conseguiu dar um enterro. Sejam os argentinos que eram torturados enquanto os compatriotas vibravam com os gols na copa, aquelas pobres mães em vigília na Plaza de Mayo por seus filhos que nunca retornaram pra casa. Os chilenos assassinados no estádio nacional.

A ditadura provoca feridas nunca cicatrizadas. Provocam sentimentos contraditórios como ver o governo admitir que Wladimir Herzog foi assassinado em suas dependências e ao mesmo tempo o alívio da admissão de culpa e o fim dessa via crucis traz o sentimento ruim de saber que passamos por tudo isso e pessoas que deviam nos proteger foram capazes de tais atrocidades.

Provocou arte de grande valor, o biscoito fino de nossa história nas vozes e nos talentos que poucas vezes esse país viu. Provocou exílio dessas mesmas cabeças pensantes. Não era proibido proibir, era proibido pensar. Gente foi presa, torturada e obrigada a sair do país apenas porque pensava diferente. Apenas porque queria liberdade. Liberdade de pensar, de agir, de ir e vir, coisas tão comuns em qualquer ambiente democrático. Mas não éramos uma democracia.

Alguns morreram nos porões do DOPS, alguns na guerrilha do Araguaia, outros nunca saberemos como. Enquanto o Brasil estava em guerra a imagem passada para o país era diferente. Do Brasil que crescia.

“Ninguém segura esse país”, “eu te amo meu Brasil, eu te amo”, “Brasil ame-o ou deixe-o”. O Brasil dos noventa milhões em ação que vibrava com os gols de Pelé em cia e crescia com o progresso atravessando a transamazônica.

Reclamamos muito do Brasil de hoje, com razão já que existem muitos motivos de reclamação. Mas nós que não vivemos a ditadura militar em sua plenitude temos noção do que é viver sob um regime de exceção?

A noção de ter sua casa invadida a qualquer hora e levarem uma pessoa da família? O desespero de não saber como ela está? Saber que pode não voltar? Não saber em quem pode confiar?

Não ter direito a pensar, a falar, a votar. Hoje reclamamos quando temos que assistir horário político ou temos que votar. Temos noção de quantos sofreram afogamento em um barril, foram colocados em um pau de arara, tomaram eletrochoques, foram seviciados, tiveram as bocas colocadas em canos de descarga de carro, jogados de helicópteros, humilhados, assassinados apenas para que perdêssemos alguns minutos de um domingo qualquer pra ir votar?

Quantas petições on line valem o gesto de enfrentar uma ditadura? Sejam os cem mil da passeata pela morte do estudante Edson Luis ou um simples gesto como parar um tanque na praça da Paz Celestial que não foi uma ditadura sul americana, mas é uma ditadura que existe até hoje.

Aliás, não vejo diferença entre ditaduras. Seja militar, civil, de direita, esquerda, no Brasil ou em Cuba a melhor das ditaduras nunca será superior a pior das democracias. Ditaduras são como estupro, não há atenuante no estupro porque a mulher era prostituta ou trajava vestido curto, não há atenuante em ditadura se ela investe em educação, cultura, esportes ou obras.

Porque tudo isso tem seu preço. Educação de verdade ensina o certo não apenas o seu lado, o mesmo pode se dizer de cultura, esporte que o esportista tem que fugir do país não pode ser considerado. Obras faraônicas como grandes estradas que ligam o nada a lugar nenhum ou usinas nucleares que expõem a população a riscos e geram dívidas serão pagas nas gerações futuras.

Calar uma oposição, filtrar informações, ensinar apenas o que quer cria gerações de acéfalos e demora em passar esse problema. Vinte e nove anos em que vivemos numa democracia e o brasileiro ainda não aprendeu a pensar, ainda não aprendeu a ser cidadão com seus direitos e deveres. O brasileiro é o japonês que não sofre as consequências de uma bomba atômica, mas de uma bomba moral que ainda deixa vestígios. Ainda deixa radioatividade.

Deixa penumbra, deixa mistérios. Uma caixa preta que ninguém tem coragem de abrir, uma lei de anistia em que muitos comemoram, mas que serviu principalmente pra encobrir crimes, ao contrário da Argentina que pune os assassinos de seu regime totalitário. O Brasil mesmo sendo uma democracia estabilizada é uma democracia com medo. Medo dos fantasmas que lhe percorrem a alma arrastando as correntes.

A impressão que dá enquanto não é aberto tudo o que ocorreu no regime militar é que o Brasil ainda vive dentro do DOPS.

Mas taí a comissão da verdade, estão aí os fatos que pipocam no dia a dia como do presidente da CBF José Maria Marin então deputado estadual pedindo a prisão do Herzog.

Os criminosos do regime estão envelhecendo, morrendo, não podemos deixar tudo nas mãos divinas para resolução, temos que nós punir os culpados que ainda não perecem no inferno para nunca mais nós voltarmos ao inferno.

Hoje é 31 de março de 2013. Dia de lembrar, lembrar muito. Lembrar o quanto a liberdade é importante, o quanto a discordância é válida. Lembrar aqueles que lutaram, aqueles que perderam a vida, os torturados, os exilados, os brasileiros que queriam um país melhor e pagaram por isso de alguma forma. 

E também aqueles que tanto combateram o governo e quando viraram um se venderam. Viraram corruptos, condenados da justiça e hoje mancham todo um passado.

Temos datas pra tantas coisas nesse país, 31 de março devia ser o dia da liberdade. Devia ser um feriado tão importante quanto 7 de setembro e ensinado em sala de aula como o dia que nos tiraram algo tão importante, mas o pessoal que partiu num rabo de foguete trouxe de volta.

Que os anos de chumbo sejam apenas um capítulo triste de nossa história e essa atrocidade toda apenas faça parte de um documentário.


Apesar de você. Hoje já é novo dia.


sábado, 29 de março de 2014

ERA DA VIOLÊNCIA 2: CAPÍTULO XVII - A MÃE DO MILICIANO




Peguei o carro e rapidamente cheguei na delegacia. Cheguei ao mesmo tempo de Juliana que me abraçou perguntando o que ocorria. Respondi que não sabia. Rubinho desceu do carro e o cumprimentei educadamente.

Entramos na delegacia e lá fomos informados que Guilherme foi preso com uma quantidade razoável de drogas, o que poderia ser configurado tráfico. Rubinho comentou “Filho de quem é” e ouvi avançando em cima do empresário.

A polícia nos separou e Juliana mandou que eu me acalmasse, pois eu podia voltar para a cadeia. É eu apenas cumpria pena em liberdade, ainda tinha dívida com a justiça.

Depois de ânimos acalmados a polícia surgiu com Guilherme que abraçou a mãe dizendo que não estava traficando. Juliana pagou fiança e o menino foi solto para responder processo em liberdade.

Saímos os quatro da delegacia e pedi a Juliana que eu levasse Guilherme de carro, a sós. Minha ex perguntou o motivo e respondi “Confie em mim”. Juliana agradeceu, deu um beijo em Guilherme e foi embora com Rubinho.

Ficamos a sós e mandei Guilherme entrar no carro. Entramos e ele perguntou se iria lhe dar esporro. Nada respondi, aproveitei que estávamos sozinhos no carro e comecei a cobri-lo de porrada. Ali mesmo, sentados dentro do veículo.     

Guilherme tentava se proteger dos meus socos perguntando se eu estava maluco. Respondi “To,to muito doido” e perguntava quem vendera a droga pra ele.

Guilherme se recusava a contar e eu continuava batendo e gritando “Conta! Conta quem vendeu!”. Ele respondia “Pode me bater que eu não vou contar” até que peguei a arma na minha cintura e apontei pra cara dele “Conta filho da puta, quem vendeu?”.

Eu era um pai muito habilidoso.

Guilherme me olhou, com medo e respondeu “Sou seu filho, você não vai atirar em mim”. Engatilhei a arma e encostei em sua testa dizendo “Já perdi uma filha, tanto faz perder outro, conta”. Ele resolveu contar, comprou no morro da Rabiola. Facção rival.

Liguei o carro e segui em disparada para o morro da Rabiola. Parei o carro embaixo do morro, peguei Guilherme pelo colarinho e subi. Parei na frente da boca e disse que queria falar com quem mandava.

Normalmente com essa marra teriam me enchido de tiros. Mas os traficantes devem ter se assustado com tamanha marra e foram chamar o chefe.

Um gordo saiu de dentro da boca e perguntou qual era o problema. Perguntei se ele era o dono e o cara respondeu que sim perguntando quem eu era, respondi “Gilberto Martins, fui dono do Trololó”. O gordo gritou “Facção rival” e todos apontaram fuzis para gente. Desesperado, Guilherme gritou “Você quer matar a gente porra?”.

Apontei Guilherme e disse ao traficante “Tá vendo esse moleque aqui? Você não vai vender mais drogas pra ele”. O gordo riu, apontou seu fuzil na minha cara e perguntou “O que te garante que você vai sair vivo daqui?”.   

Olhei para ele e falei “Cachorros velozes”. O homem se assustou e mandou que os outros traficantes abaixassem as armas. Cheguei perto de seu rosto e comentei “Pelo jeito você conhece”. O gordo perguntou qual era minha ligação com os cachorros e respondi “Maior do que você pode imaginar”.

O gordo deu a ordem “Ninguém mais vende drogas pro moleque, se eu descobrir mato”. Agradeci e desci com Guilherme do morro. O moleque perguntou “O que é cachorros velozes”. Respondi “Não se mete, negócio meu”.

Os “cachorros velozes” tinham muita moral mesmo e ganhavam até simpatia da sociedade por fazerem o “trabalho sujo”, a lei do “olho por olho, dente por dente”. A polícia investigava, mas não conseguia chegar a nada. Trabalhos se acumulavam, matança correndo solta e o bolso de todos enchendo.

Os sustos valeram para Guilherme que por conta própria pediu para ser internado. Juliana e eu levamos nosso filho até a clínica. Juliana deu um abraço no moleque, pediu para que se cuidasse e evidente chorou. Depois foi minha vez.

Ficamos frente a frente. Guilherme olhou pra mim e disse “Sem essa de abraços ta? Ainda to me acostumando em ter um pai presente e que põe arma na minha cara”. Respondi “sem problemas” e ficamos mais um tempo parados na frente um do outro.

Guilherme levantou o rosto, me olhou e disse “obrigado” estendendo a mão pra mim. Apertei sua mão e ficamos ali um tempo. Um laço entre pai e filho começava a se estabelecer.   

Guilherme na clínica de reabilitação e eu trabalhando com Juliana. Poderia ser perfeito se não fosse o fato de Rodrigo Saldanha, que perdeu a eleição, se juntar a nós como chefe de segurança de Juliana. Não era uma situação confortável, eu tinha a impressão que Rodrigo era uma cobra pronta pra me dar o bote a qualquer momento.

Uma tarde encontrei Bianca conversando com Rodrigo nos corredores do congresso. Estranhei a situação e me aproximei. Senti que os dois disfarçaram e Bianca me abraçou dizendo que “meu amigo era muito simpático”.

Ri e comentei “Sim, amigo”. Rodrigo pediu licença e saiu. Perguntei o que eles conversavam e Bianca comentou “Vem comigo”. Pegou minha mão e levou até o gabinete.

Gabinete estava vazio. Bianca trancou a porta, me jogou na cadeira e sentou em cima me beijando. Fodemos ali mesmo. Impressionante como aquela mulher me tinha nas mãos.

Todo mundo parou pra foder naquele dia.   

Donato foi foder com Scarface então Rubinho aproveitou para foder com a mulher do irmão. Na cama Rubinho lamentava com a amante por um juiz que atravessou seu caminho.

Flávia perguntou qual era o problema e Rubinho respondeu “Um filho da puta, juiz Salomão Silveira. Ta de sacanagem comigo, embargando umas obras importantes”.

Flávia se encostou ao peito do amado e comentou “Você sempre soube dar jeito nessas situações”. Rubinho pegou uma taça de champanhe que se encontrava sobre a mesinha de cabeceira, bebeu um gole e respondeu “Sim e eu já sei o que fazer”.

Outro casal se encontrava na cama naquele instante. Yolanda e Rui. A prostituta cheia de carinho com o policial comentava “Sabe, acho que to apaixonada por você. Não quero mais saber dessa vida, quero ser sua, apenas sua”.

Rui parece que ouviu nada o que a mulher disse. Ignorou completamente o que ela falou e emendou “Preciso que você faça um serviço para mim”.

Ela estranhou e soltou um “Oi?”. Ele repetiu “Tenho um serviço importante para você”. Puta, Yolanda levantou e reclamou “Você não prestou atenção em nada do que eu disse”. Rui percebera a cagada que fez e levantou, foi ao encontro da mulher que olhava a janela, pegou em sua cintura beijando seu pescoço e disse “Tudo que você fala é importante para mim, mas preciso de você em uma missão muito séria, só posso confiar em você”.

Pronto, aquilo ganhou a prostituta. Yolanda se virou e comentou “Deve ser sério, pra você falar assim”. Rui respondeu que era e pediu que a mulher se sentasse.

Ela sentou e pediu “Me conte, que missão é essa?”. Rui respondeu “Eu quero que você seduza um homem”.

Yolanda pediu que o amado repetisse e Rui o fez “Um cara, eu quero que você conquiste um cara”. Yolanda levantou novamente e falou “Tudo bem, eu sou especialista nisso, já seduzi muitos. Mas logo você pedindo isso?”.

Rui pegou a mulher pela mão e disse “É por uma boa causa, sei que não devia te pedir isso, que estamos nos dando bem”. Nesse momento Yolanda abaixou a cabeça e deu um sorrisinho. Rui continuou “Você mexe comigo gata, demais, vou morrer de ciúmes, mas preciso que você faça esse serviço”.

Yolanda perguntou quem era o cara e Rui pegou uma foto na carteira lhe entregando e dizendo “O sujeito é esse aí da foto, ele tem três farmácias na Tijuca. Se chama João Arcanjo”.

É. Rui estava armando para João.

Yolanda olhou a foto e comentou “Bonito”. Rui olhou sério para a mulher que deu um sorriso e lhe abraçou beijando. Depois ela completou “Menos que você”.

Rui continuou contando seu plano “Você é bonita, tenho certeza que vai enlouquecer esse mané. Preciso que ele caia em tentação, mostre sua verdadeira cara”.

Yolanda perguntou porque aquilo tudo. Rui deu um beijo na testa da prostituta e respondeu “Um dia te conto toda a verdade, te juro”.

Depois do diálogo o telefone de Rui tocou e ele atendeu “Fala! O que? Você ta de sacanagem? Ta, vou convocar a rapaziada”. Rui desligou e Yolanda perguntou o que ocorrera. O policial respondeu “Pintou um trabalho e inusitado”.

Perto dali um casal discutia. João Arcanjo e Fernanda. Sim, eles que viveram meses em mar de rosas, a história do grande amor inabalável enfrentavam a primeira crise. Fernanda reclamava do marido que quase não parava mais em casa.

“Preciso de você mais comigo João, você quase não para mais aqui, qual é o problema?” Reclamava Fernanda, enquanto de saco cheio João respondia “São três farmácias, reuniões com clientes, você pensa que é fácil manter o padrão de vida que temos hoje?”.

Fernanda injuriada respondeu “Não me interessa padrão de vida, sim, é ótimo, mas não me interessa se não tem meu marido por perto, ainda mais em um momento como esse”. João não entendeu e perguntou “Que momento? Do que você ta falando?”.

Fernanda pôs a mão na barriga e contou “To grávida”. João irradiou felicidade, começou a fazer perguntas de como e quando a mulher desconfiou, descobriu e ela sorrindo respondeu “Algumas semanas que a menstruação não vem, me senti enjoada, fiz exames e comprovou”. Feliz João deu um beijo na mulher e se agachou para fazer carinho em sua barriga.

Ficaram algum tempo abraçados no sofá quando o celular de João Arcanjo tocou. Era Rui de Santo Cristo. Fernanda apelou para que ele não atendesse, mas o farmacêutico comentou que podia ser importante e atendeu.

Ouviu a tudo atentamente e terminou dizendo “Estou indo praí” desligando. Fernanda furiosa disse “Não acredito que depois de tudo que reclamei, do que contei agora você vai sair”.

João levantou do sofá deu um beijo na testa da mulher pedindo desculpas, mas que não iria demorar. Fernanda gritou “Senta aqui que eu ainda não terminei”, mas João não lhe deu ouvidos saindo.

João, Rui, Scarface e Galalite se encontraram no galpão. Eu estava em Brasília. João Arcanjo logo contou a novidade que seria pai e os homens comemoraram lhe abraçando e dando parabéns. Rui comentou que era mais um motivo para continuarem livrando a sociedade da escória e para ganhar um bom dinheiro como aquele caso daria.

João perguntou qual caso era o da vez e Rui respondeu que era uma situação inusitada. Ele foi procurado por um miliciano, o tenente Rodrigues.

Sua mulher em uma tarde da semana anterior buscava as crianças na escola quando dois homens lhe renderam com armas na cabeça e levaram seu carro. Os homens ouviram atentamente e Galalite perguntou “Bateram nela? Abusaram? Sequestraram as crianças?”. Rui respondeu “Nada disso, só o roubo”.

Scarface, que não queria saber onde era a festa só de comer o salgadinho, pegou a arma e disse “Vamos matar esses filhos da puta”. João mandou que o homem parasse de empolgação e perguntou a Rui “Mas foi só isso? Vamos matar por causa de um roubo?”.

Rui comentou “Não é apenas isso”. Ficou um tempo em silêncio e contou o motivo “As cinzas da mãe do tenente estavam no carro. A mulher faleceu há pouco tempo e seria transportada pra sua terra natal. Suas cinzas seriam jogadas num riacho da cidade, coisa linda”.

Os três continuaram ouvindo e Rui completou “Os caras roubaram o carro com as cinzas da senhora dentro. Acharam, pensaram que era cocaína e cheiraram. Largaram o carro depois de fazer uns assaltos e quando a polícia achou a urna com as cinzas ela estava vazia e com um canudinho”.

Scarface soltou um “Puta que pariu! Cheiraram a velha!” e os três caíram na gargalhada. Rui, puto, disse que aquilo não tinha graça, mas vendo os homens rindo ele mesmo riu e disse “É, tem graça sim”.

Rui passou todo o mapeamento. Quem eram os bandidos e como achar combinando o ataque para o dia seguinte. João voltou para casa e encontrou Fernanda dormindo. Deitou-se ao seu lado, beijou seu ombro e fazendo carinho na esposa disse “Amo vocês”.

No dia seguinte voltei de Brasília e fui colocado a par da situação. À noite fui para o galpão encontrar os “Cachorros velozes” e o tenente Rodrigues estava junto.

O homem entregou um pacote farto de dinheiro na mão de Rui de Santo Cristo e na frente de todos comentou que confirmando a morte dos bandidos teria outro mais farto ainda. Scarface, com diarréia verbal soltou “Pode deixar que vamos pegar os caras que cheiraram sua mãe”.

Saímos do galpão e fomos ao local que estariam os bandidos, um casebre afastado numa cidade do interior do Rio. Os homens comiam quentinha em silêncio quando o primeiro soltou “Ta achando estranho não Zé Morcego?”. O tal Zé Morcego não entendeu e perguntou “O que Zé Gambá?”.

O primeiro respondeu “Esse cheiro, cheiro de morte”.

Os homens continuaram comendo quando bateram na porta. Um dos bandidos atendeu e éramos nós. Zé Gambá perguntou “Qual foi?” e Rui sorriu perguntando “Por obséquio, aqui é da casa de Zé Gambá e Zé Morcego?”.

O homem respondeu “Somos nós” e Rui comentou “Vocês mesmo que procurávamos”. O bando entrou na casa, tirou as armas da cintura e antes mesmo que eles pudessem reagir deram mais de uma dezena de tiros fuzilando os dois.

Com os corpos no chão, ensanguentados. Rui olhou o trabalho feito e comentou “Missão cumprida senhores, muito bom trabalhar com gente eficiente como os senhores. Vamos embora pegar o resto de nosso dinheiro”. Todos saíram menos Scarface. Rui voltou para buscar o taxista que comia a quentinha de um dos mortos e respondeu “Peraí, ta gostosa”.

Caminhávamos de volta a nossos carros quando ouvi “pai”. Olhei e era Guilherme, com olhar assustado.

Fiquei mais assustado ainda e perguntei “O que você ta fazendo aqui?”. Guilherme respondeu “Saí da clínica hoje. Fui atrás de você e te vi com esses caras, achei estranho e segui. Pai, o que vocês fizeram?”.

Aí que me apavorei de vez e falei “É nada disso que você ta pensando Guilherme, eu só acompanhei, eu relato as histórias no blog”. Guilherme assustado, com olhar decepcionado apenas respondeu “Não me fala nada, eu precisava falar com você, mas é melhor não”.

Saiu andando para ir embora, ainda tentei ir atrás, mas João me segurou dizendo “Deixa pra depois, agora não adianta nada”.

Todos entraram em seus carros. Arrasado entrei no meu e fui embora. Não fui para o galpão, não tinha o que receber. Decidi ir pra casa.

Chegando próximo a ela vi uma blitz. Os policiais me pararam, pediram documentos e mostrei. Logo após pediram que eu descesse para revistar o carro.

Revistaram enquanto eu puto pedia que se apressassem, pois eu estava cansado e queria ir pra casa.

Depois de um tempo um policial apareceu com alguns papelotes de cocaína e perguntou “Isso é seu?”. Não era. Espantado respondi que não e que não sabia de onde surgira.
 
O policial me olhou e me deu voz de prisão.

Aquela definitivamente não era minha noite.


ERA DA VIOLÊNCIA 2 (CAPÍTULO ANTERIOR)




LINK RELACIONADO (LIVRO ANTERIOR)


sexta-feira, 28 de março de 2014

SOBE O SOM: BLACK MUSIC




Hoje a “Sobe o som” vai falar de black music.

Vozes poderosas americanas, muitas vindas das igrejas protestantes, encantaram e encantam o mundo há décadas. Homens, mulheres cheios de swing, graves, agudos, energia e musicalidade que criaram um gênero musical.

Essa homenagem é para eles. Impossível ficar parado. Impossível não se emocionar. Venha, curta porque “Black is beautiful”.

Então vamos lá!!


“Sobe o som” Black music!!


Lets get it on – Marvin Gaye 


Just the way you are – Barry White


Shaft – Isaac Hayes 


Lets say together – Al Green


Cruisin – Smokey Robinson


Easy – Lionel Richie 


Never can say goodbye – Jackson 5


Baby love – Supremes 


I say a litlle prayer – Aretha Franklin 


Superstition – Stevie Wonder


I can`t stop loving you – Ray Charles


You make me feel brand new – The Stylistics


I`ll never love this way again – Dione Warwick


Me and Mrs Jones – Billy Paul 


I feel good – James Brown 


Bem. Aí está um pouco da black music americana. Semana que vem continuaremos na black music, mas brasileira.


Enquanto isso um tema de amor.


ARQUIVO:


quinta-feira, 27 de março de 2014

A IDENTIDADE BARROS



*Coluna publicada no blog Ouro de Tolo em 23/3/2014



E o Paulo Barros foi pra Mocidade. Já era uma notícia que circulava pelo mundo do samba e mais ou menos esperada, mas mesmo assim causa impacto. Afinal, o carnavalesco mais aclamado da folia carioca nesse século trocava uma agremiação na qual tinha um casamento perfeito e sequência de grandes resultados por uma que  há alguns anos enfrenta crise e briga contra rebaixamento.

Mesmo essa sendo a gigantesca Mocidade Independente de Padre Miguel.

Algumas perguntas ficam no ar: Qual será o futuro da Unidos da Tijuca? Como ficará o arranjo de forças do carnaval carioca?

Qual será a identidade de Paulo Barros na Mocidade? Justo na escola que mostrando sua identidade mostrou a verdade a essa gente. Escola grande que tem sua identidade própria independente de carnavalesco. 

Não sou adepto da catástrofe como muitos que apregoam o fim da Tijuca. Incrível como muitos falam isso até felizes, vibrando. É aquilo, uma escola de samba só é querida, amada, enquanto não ameaça. Quando ela começa a vencer logo ganha antipatia e certa inveja.

A Unidos da Tijuca, como disse numa coluna recente, é a grande força hoje do carnaval, detém o poder e mesmo que se enfraqueça sem o Paulo não pode ser descartada de cara. Me parece hoje uma escola profissional, bem administrada e organizada.

Muito desse crescimento, claro, se deve ao período Paulo Barros, mas acho que a Tijuca soube se organizar pra crescer junto com  explosão de seu carnavalesco. Tanto que vejo mais o dedo dele no boom da parceria em 2004, 2005, até mesmo o título de 2010 que em 2012 e 2014 que mesmo com o enorme mérito de Paulo Barros me pareceram títulos da escola como um todo.

Ao contrário da Vila, campeã incontestável de 2013, não ocorreu debandada na Tijuca. Saiu sim seu grande craque, mas por enquanto só ele. Os coreógrafos da comissão de frente sempre tão elogiadas, por exemplo, continuam (NE. Saíram após a publicação da coluna no OT) .

A Tijuca pode em vez de seguir o exemplo da Vila seguir o da Beija-Flor que era nada até a chegada de Joãosinho Trinta e seguiu poderosa com sua saída. Soube crescer junto com seu carnavalesco.

Dizem que a Tijuca foi bem avaliada esse ano em alguns quesitos que poderia perder pontos devido o nome Paulo Barros. Não sei. Quem realmente tem moral na Liesa? Paulo Barros ou Fernando Horta? Ninguém sabe ao certo os meandros da Liesa, mas uma coisa é certa. O português tem moral.

Se não tivesse e o queridinho fosse apenas Paulo Barros teriam dado um jeito antes de colocar o carnavalesco em outra escola. Aliás, nunca é demais lembrar que ele já saiu da Tijuca antes. Foi para a Viradouro que na época tinha dinheiro, força política, era uma das escolas de ponta no carnaval e fracassou de forma retumbante a ponto de “lhe enfiarem” na Vila para não ficar sem emprego e no  ano seguinte ter que voltar pra Tijuca.

Vai fracassar de novo?

Não sei. Ele amadureceu e a Mocidade não é a Viradouro. Cada uma tem sua característica. Só posso dizer que pra Mocidade foi bom demais.

A escola vinha se apequenando nas mãos de Paulo Vianna, a cada ano menos cogitada entre as favoritas, mais próxima do acesso e parecia inerte, sem forças. Mudaram o presidente, entrou o controvertido contraventor Rogério Andrade cercado de polêmicas e com situações em relação a ele e principalmente a quem exalta a ele, mas que não cabe discutir aqui.   

Só dizer que parece que carnaval é salvo conduto. Parece que nele é permitido exaltar aquilo que nos indigna no restante do ano.

Mas enfim. Ele é o presidente e parece querer tirar a Mocidade dessa inércia. Sacudiu o mundo do samba como faziam seu tio Castor e primo Paulinho, mostrou que  Mocidade está viva e já fez da agremiação a mais esperada de 2015.

Movimentação brilhante.

Mas o que esperar de Paulo Barros?

Que ele seja Paulo Barros. Mantenha sua identidade. A Mocidade lhe contratou para ser esse carnavalesco atrevido e genial que foi na Tijuca. Com todos seus fatores hollywoodianos e “MichaelJackização” dos desfiles. Que ele não tente imitar Fernando Pinto, Arlindo Rodrigues e Renato Lage.

A Mocidade tem sua identidade que é ser atrevida, inovadora, mesma identidade do Paulo Barros. Que conciliem suas identidades e levem a Mocidade de volta a briga pelo topo.

Torço principalmente que sua ala de compositores, muito boa, seja preservada. As escolas que passaram pelas mãos de super carnavalescos como Joãosinho Trinta e Paulo Barros costumam apresentar sambas sofríveis. Talvez pela vaidade exacerbada desses gênios.

Começou o carnaval 2015.

 

quarta-feira, 26 de março de 2014

FINAL DE CAMPEONATO


*Conto publicado na coluna "O buraco da fechadura" do blog Ouro de Tolo em 4/5/2013


Brasileiro apaixonado por futebol coloca o velho esporte bretão entre as coisas mais importantes de sua existência. Uma vez disseram que o futebol era a coisa mais importante entre as coisas menos importantes e é verdade.
A pessoa troca de cidade, de mulher, de profissão, de casa, até de sexo, mas não troca de clube. O cidadão que troca de time é chamado de “vira casaca” e é considerado um paria, um pulha e caindo para a pior escala da sociedade junto a estupradores, assassinos e políticos.   
Filomeno não tinha risco nenhum de cair para essa classe. Torcedor fanático do Flamengo ele sabia de cor e salteado até a escalação do time que venceu em 1912 o Mangueira na primeira partida oficial do clube.
Tinha mais de trezentas camisas do clube, canecas, chaveiros, cobertas, travesseiros, era tudo do Flamengo. Chorava nas vitórias, nas derrotas, até nos empates. Filomeno era aquilo que chamamos de fanático.
Freqüentador de escolas de samba Filomeno conheceu a negra deliciosa Jussara em um ensaio da Portela. Na mesma noite se atracavam na cama do motel “Babalu” e em alguns meses subiram ao altar.
Para azar de Filomeno o casamento foi marcado para o dia de um jogo decisivo entre Flamengo e Vasco e o homem desesperado não sabia o que fazer. Tentou adiar, a mulher não deixou e não se fez de rogado. Pegou seu radinho de pilha, colocou por dentro de terno e pôs fones no ouvido.
Subiu ao altar e ficou lá esperando Jussara ouvindo o jogo. A mulher foi conduzida ao altar e Filomeno a seu lado ouvia o que o padre dizia tenso porque o jogo estava difícil.
A hora que o padre perguntou se Filomeno aceitava Jussara foi justamente o momento em que saiu um gol do Vasco. Filomeno não se conteve e soltou um “merda” bem alto que todos os convidados ouviram. 
Todo mundo parou para olhar Filomeno que se tocou do que fizera. Jussara assustada tirou os fones de ouvido de Filomeno, jogou o buquê em cima dele e saiu correndo da igreja. Filomeno desesperado foi atrás e conseguiu com muito custo convencer a mulher a voltar para a igreja.
Jussara voltou e Filomeno com o rádio desligado se desesperava tentando imaginar como estava a partida enquanto a cerimônia de casamento era concluída.
Na festa o pobre homem descobriu que o Flamengo perdera e enquanto todos festejavam e se fartavam no casório Filomeno era só tristeza.
Apesar desses tropeços de início de casamento e do fanatismo de Filomeno a vida do casal no início até que foi boa. Eram noites de muito chamego, iam juntos aos ensaios da Portela, desfilavam na Marquês de Sapucaí e Filomeno até conseguiu arrastar a mulher a jogos no Maracanã. Tiveram filhos, conseguiram comprar uma casa e dentro do possível eram um casal normal.
Mas o fanatismo de Filomeno era demais. Não foram poucas as vezes que se atrasou em buscar os filhos na escola porque ficou na frente de alguma tv, deixou de comparecer a um aniversário do filho mais velho porque foi a um estádio ver o time jogar contra o Bonsucesso e o pior, começava a deixar a mulher de lado por causa de futebol.
E Jussara como eu disse antes era linda. A mulher estava na flor da idade e sentia falta do comparecimento do marido. Ela estava com os hormônios a flor da pele, subindo pelas paredes.
É amigo, tem aquelas máximas “água morro abaixo, fogo morro acima, mulher quando quer dar ninguém segura “ e “mulher quando quer trair você tranca dentro do armário e ela lhe trai com o cabide” e foi assim que ocorreu com o Filomeno. De tanto cometer negligência apareceram outros que deram assistência.
Primeiro foi um vizinho, depois o dono da mercearia, o rapaz da quitanda, o vendedor de gás e o cobrador do Gatonet. Formou-se uma fila na porta da dadivosa mulher e o pobre otário corno só queria saber de Flamengo. Enquanto ele vibrava com os gols do mengão sua defesa era vazada.
A fama de corno de Filomeno se espalhou como mosquito da dengue no verão, mas o homem era tão obcecado com futebol que nem percebia as piadinhas em sua volta.
E cada vez mais tinha homens de olho em sua mulher. Ribamar não era diferente. Companheiro de Maracanã de Filomeno, mas não tão fanático, fez boa amizade com o homem a ponto de ser convidado para almoçar em sua casa.   
O almoço foi uma suculenta rabada, mas Ribamar ficou de olho na verdade em outra rabada. Enquanto Filomeno só falava em Flamengo o amigo enfeitiçado por Jussara só pensava que queria a mulher de sobremesa. O homem ficou tão obcecado que chamou o casal para almoçar em sua casa no dia seguinte.
Foi a vez de Ribamar preparar macarronada e no fim mostrou uma preciosidade ao amigo. Dvd com o VT da final do campeonato brasileiro de 1980 quando o Flamengo foi campeão em cima do Atlético Mineiro.
Filomeno se emocionou e chegou a deixar cair lágrimas de seu rosto e Ribamar colocou o jogo para o amigo assistir. Enquanto o pobre corno via e vibrava como se fosse ao vivo Ribamar e Jussara foram lavar louças.
Foi tudo de propósito. Ribamar queria afastar Filomeno para ficar sozinho com sua mulher.
Jussara lavava, Ribamar enxugava e o homem comentava como Filomeno podia ser tão fanático e deixar de lado uma mulher tão maravilhosa quanto ela. Jussara agradeceu, disse que ele era muito gentil e quem dera se seu marido pensasse como ele.
Papo vai, papo vem e Ribamar foi direto a ponto dizendo que queria a mulher. Jussara que controlava a tabela do campeonato para “pular a cerca” contou ao homem que domingo o Flamengo decidiria o campeonato carioca com o Fluminense. Ribamar comentou com a mulher que era verdade e tinha combinado ir ao estádio com Filomeno.
Jussara falou que bem que ele podia ficar doente e não ir ao jogo. Ribamar entendeu o recado e começou a tossir indo à sala e dizendo a Filomeno que não estava bem.
No dia da grande final Ribamar contou a Filomeno que comera algo que não fez bem. O amigo ficou triste, mas entendeu a situação. Desejou melhoras a Ribamar e partiu feliz da vida ao Maracanã.
Enquanto Ribamar corria para a casa de Filomeno o homem pegou o trem com destino ao maior do mundo. Calor dos infernos, pegou um trem lotado, mas mesmo assim batucava feliz com outros torcedores dizendo que era Flamengo e tinha uma negra chamada Teresa. Até que o trem parou.
Ninguém entendeu o que ocorrera, descobriram depois que o trem enguiçara. Filomeno e os demais desceram da composição furiosos da vida e começaram a andar sob o Sol escaldante nos trilhos em direção a estação seguinte.
Chegando lá perceberam uma grande confusão devido a outro trem quebrado. Filomeno desistiu e achou melhor pegar um ônibus. Encaminhou-se até um ponto e ficou esperando.
E nada do ônibus aparecer. Grande demora e ainda teve que aturara passageiro de um ônibus jogando um líquido estranho e mal cheiroso nele. Mais algum tempo depois e apareceu uma condução.
Super lotada e Filomeno teve que viajar agarrado na porta pra não cair. Naquele espreme espreme, pessoas se acotovelando o ônibus também não agüentou e quebrou.
Filomeno furibundo da vida decidiu não pegar mais condução nenhuma e foi andando até o estádio. No meio do caminho uma chuva torrencial caiu no Rio de Janeiro e enquanto todos tentavam se proteger das águas ele continuava andando com cara de pouquíssimos amigos tentando chegar ao jogo.
Enquanto Filomeno passava por esse drama Ribamar chegou na casa de Jussara com um buquê de rosas e uma garrafa de vinho. Jussara perguntou para que tudo aquilo se o que importava era o sexo.
Jogou as flores longe e puxou o homem pra dentro de casa empurrando até a cama. Jogou Ribamar na cama e subiu em cima com o homem gritando socorro.
E a via crucis de Filomeno continuava. O homem já com água nas canelas finalmente conseguiu vislumbrar o estádio a sua frente e saiu correndo para o local. Na entrada uma grande confusão, empurra empurra e a polícia descendo o sarrafo.  O jogo estava prestes a começar e Filomeno se desesperava.
Finalmente chegou a sua vez e Filomeno mexeu no bolso para pegar o ingresso. Mas não achou a carteira. Desesperou-se procurando por ela e nada, lembrou-se da confusão no ônibus e soltou um “filhos da p......”
Foi retirado da fila de forma “carinhosa” pela polícia e procurava por todos os bolsos a carteira enquanto se enervava ouvindo os gritos da torcida do lado de dentro. Assumiu que não tinha mais jeito e sentou-se para tirar o tênis. Lá dentro da meia guardava uma reserva de dinheiro e pegou as notas encharcadas correndo atrás de cambistas.
Conseguiu achar um que pediu os olhos da cara por um ingresso. Filomeno tentou negociar, mas não conseguiu, ainda mais com o dinheiro molhado. Gastou quase tudo que tinha e pegou o ingresso.
Voltou para a confusão da porta e mostrou o ingresso pra entrar. Olharam bem e notaram que era falso, inclusive com data errada e a polícia tentou prender Filomeno que fugiu.
Já a alguns quarteirões do Maracanã encontrou um grupo com a camisa do Fluminense. Ele sozinho, com a camisa do Flamengo se viu em situação difícil e teve que correr mais com os tricolores atrás.
Enquanto isso Jussara, um vulcão sexual, abusava de Ribamar de todas as formas e o homem quase pedia arrego. Ele tentava fugir da cama e a mulher lhe puxava de volta dizendo “não era isso que você queria?”. Ele respondeu que sim, mas queria beber água pelo menos.
Filomeno conseguiu fugir dos tricolores e achou um bar cheio de gente vendo o jogo. Sem ter alternativa parou pra ver a partida no local.
Parou a tempo de ver o Fluminense marcar um gol e a luz acabar.
Só restou a Filomeno sentar na calçada e chorar.
Ribamar e Jussara continuavam em seu jogo particular e nem perceberam quando Filomeno todo molhado, sujo, derrotado abriu a porra de casa. O homem caminhou de cabeça baixa, devagar até o quarto e abriu a porta pegando Jussara e Ribamar em flagrante nus na cama.
Os dois se desesperaram e tentaram argumentar que não era nada daquilo que ele pensava quando o homem se encaminhou para abrir a gaveta que guardava a arma.
Jussara implorou que ele não abrisse, mas Filomeno não lhe deu ouvidos e abriu. Só que em vez dele pegar a arma pegou um controle remoto e ligou a televisão. Mandou que os dois ficassem quietos porque queria ver o fim do jogo.
Chegou a tempo de ver a cobrança de pênaltis, o último pênalti do Flamengo. O jogador do clube converteu e o Flamengo foi campeão.
Filomeno começou a pular, gritar, esquecendo-se de tudo que passou para ir ao jogo e abraçou com entusiasmo Ribamar e Jussara, depois cantou o hino do clube e sentou-se a cama chorando sob olhares atônitos dos amantes.
Uma vez Flamengo, Flamengo até morrer...