domingo, 30 de novembro de 2014

AMOR: CAPÍTULO V - A NAMORADA DO MEU AMIGO




Devastado. Destruído. Foi assim que eu saí do salão naquela noite. Encontrei todos na porta e Samuel já veio pulando em cima de mim gritando o mesmo que Guga. “Você é foda moleque!!”.

Não. Não era. Eu era apenas um babaca apaixonado.

Eu não conseguia ter reação a não ser mostrar um sorriso sem graça. Camila, abraçada a Guga, se soltou dele e veio ao meu encontro. Fez carinho no meu rosto e disse “não é que você conseguiu? Virou dançarino?”. Sem graça respondi apenas “é” e ela me deu um beijo no rosto voltando aos braços de Guga.

Bia que sempre foi capaz de desnudar minha alma percebeu que eu não estava legal e perguntou se ocorria algum problema. Apenas respondi que não enquanto Guga virava o centro das atenções, mesmo eu sendo o campeão e tendo ralado tanto dizendo “Vamos a restaurante não, vamos a uma boate, vamos zoar!!”.

Paramos em uma boate na Barra com todos animados e dançando na pista. Menos eu que fui para o bar. O atendente perguntou o que eu queria e respondi “veneno de rato”.

Ele não entendeu e perguntou “como senhor?”. Respondi “Na  verdade queria uísque, mas como não bebo me dê um suco de laranja”. Eu estava decidido naquela noite a tomar um porre de suco de laranja. 

Observava do bar a alegria das pessoas. Que estavam lá por minha causa e esqueceram totalmente de minha existência. Não conseguia tirar os olhos de Camila e Guga numa mistura de tristeza e revolta.

Eu que estava com o troféu no bar, mas ele que estava com o prêmio, o prêmio que eu queria. Camila e Guga dançavam felizes, se beijando o tempo todo e nossos amigos aplaudiam e gritavam a cada beijo. Parecia que o Guga que dançara, ganhara o concurso. Ele era o centro das atenções.

Depois de um tempo não aguentei mais aquela situação e decidi ir embora. Me levantei e já estava quase na porta quando perceberam minha ausência. Chamaram meu nome e quando vi era Camila.

Ela perguntou se eu já ia embora e respondi que sim, estava com dor de cabeça. Camila riu e disse “dor de cabeça é desculpa de mulher”.

Sorri apenas e ela perguntou se eu estava legal. Respondi que sim, apenas estava mesmo com dor de cabeça quando ela se aproximou.

Eu sempre tremi quando Camila se aproximava, desde o primeiro atropelamento. Meu coração acelerou quando ela chegou perto de mim e disse “Melhor coisa que eu poderia ter feito na vida foi ter te atropelado”.

Eu não sabia o que responder e ela continuou “Você cuidou de mim, me pegou no colo, se tornou essencial na minha vida. Eu não consigo mais imaginar um dia sem te ver, sem falar contigo”. Eu continuava sem saber o que dizer quando ela me abraçou e completou “você é o melhor amigo que uma mulher pode ter”.

Pronto. Se você quer ferrar com um homem é só chamá-lo de amigo.

Eu pensei em chutar o balde e dizer “amigo de mulher é cabeleireiro”, mas me segurei e apenas respondi “obrigado”. Me desvencilhei dela e contei que precisava realmente ir. Camila concordou dizendo que precisava voltar a pista, pois Guga esperava por ela e ficamos um tempo em silêncio até que dei tchau e saí.

Até ali conseguira me segurar de boa, mas na rua sozinho não consegui me segurar. Abri o berreiro, chorei muito e acabei dando o troféu para um mendigo que não deve ter entendido nada. Andei pelas ruas do Rio de Janeiro a madrugada toda e acabei parando no Arpoador para ver o nascer do Sol.

Estava lá vendo o mar, as pessoas pescando e tentando entender o que eu fazia de errado. Porque eu era um cara tão bobo, tão sem graça e nada dava certo na minha vida enquanto para Guga tudo acontecia, tudo era mais fácil.

Guga já era um cara milionário, bonito, cercado de mulheres. Por quê ele precisava da minha também? Por quê a Camila?

Era uma dor que sufocava o peito e funcionava como ácido corroendo por dentro. Não existia injeção, analgésico ou morfina que fizesse amenizar.

Mas eu podia tentar fazer algo por mim. Podia tentar mudar.

Sempre fui um cara boa praça, amigo, de fácil acesso e que levava tudo na esportiva e com um sorriso no rosto. Talvez por isso passasse por dissabores. Decidi que estava na hora de mudar um pouco e me afastar de tudo que me fizesse mal.   

Começando por Camila.

Na manhã de segunda andava pela rua quando ouvi uma buzina. Olhei e era Camila no carro rindo e comentando “quase que te atropelo”. Apenas dei um sorriso discreto de volta e ela emendou “entra aí”.

Tive muita vontade de entrar, mas apenas respondi “vai dar não”. Camila estranhou o motivo e eu disse “quero ir andando, to me sentindo gordo”. 

Camila mandou que eu parasse de bobagem e entrasse logo que de gordo eu não tinha nada e agradeci dizendo que precisava, pois me sentia inchado. Camila insistiu, alegou que a faculdade era longe e contei que não adiantava insistir que eu não iria aceitar.

Ela entendeu que realmente eu não iria entrar e falou “vai ao salão hoje de noite. Acho que devemos continuar dançando, fazemos um bom par”. Respondi que iria, ela se despediu e partiu.

Depois que ela foi reclamei “que merda, a faculdade é muito longe mesmo”.

Andei por uma hora até chegar lá e saí mais cedo da aula para que ela não me encontrasse na saída para oferecer carona. De noite decidi não ir ao salão. Fiquei em casa lendo e ouvindo música quando provavelmente ela estava me esperando.

Na manhã seguinte ouvi a buzina e vi que ela se aproximava. Antes que chegasse entrei no primeiro ônibus que apareceu e parti. Por sorte era para minha faculdade.

Aquela na verdade foi a última vez que fui a faculdade. Decidi trancar a matrícula e me dedicar a música e ao ofício de DJ. Samuel, Bia, minha mãe e Pinheiro foram contra, mas estava decidido.

Um dia Camila perguntou por mim a Bia achando que eu estava sumido e ela respondeu que eu trancara a faculdade. Camila estarrecida comentou que eu estava muito estranho e minha amiga respondeu “ele sempre foi”.

Foi dessa forma que eu vendo tv na sala ouvi a campainha tocando insistentemente, levantei e me deparei com Camila.

Com cara séria Camila perguntou se podia entrar e eu respondi “claro” acenando para dentro. Ela entrou e antes que eu convidasse a se sentar me perguntou o que eu tinha.

Respondi que estava normal e ela revidou que não “Você está ainda mais recluso só saindo para tocar nas festas. Não vai a nenhum evento da galera, trancou a faculdade e dá a impressão que está me evitando”. Respondi que não evitava e ela disse “Nunca mais foi ao salão”.

Lembrei a ela, desviando de seu olhar, que eu nunca prometera que iria continuar dançando no salão e que tomara a noção que não nascera pra dança. Camila me interrompeu dizendo “Quero meu amigo de volta”.

Respondi que estava ali e ela completou “Não, não está”.

Nos olhamos por um tempo e ela disse que não iria me importunar e respeitar minha privacidade, mas quando resolvesse voltar a ser o que eu era bastava lhe procurar que ela me receberia de braços abertos.

Completou dizendo “Volta logo pra mim. Sinto sua falta” e foi embora.

Deus! Como é difícil!

Minha vontade era de puxá-la de volta e dizer que a amava loucamente e tudo que eu fazia me causava mais sofrimento do que ela sentia. Mas não podia. Além da minha timidez que evitara que eu falasse em vezes anteriores agora tinha o fator dela ter virado namorada de meu amigo.

E Guga continuava o mesmo “garganta” de sempre tirando onda e se fazendo de gostoso. Não era raro estar com ele e Samuel e Guga começar a contar detalhes sexuais de sua vida com Camila e dizer que era insaciável e a menina mal dava conta dele.

“Mas é uma putinha, faz tudo como eu gosto” costumava contar sorrindo.

Minha vontade era de socá-lo. Estava ganhando ódio de meu amigo.   

Achei melhor tentar me distrair e fui visitar minha mãe. Filei aquele almoço maravilhoso que só ela sabia fazer. Uma macarronada à bolonhesa de fazer italiano babar e depois fui jogar futebol de botão com Pinheiro enquanto ela cantarolava o cd de Roberto Carlos que tocava na sala.

Como eu já disse Pinheiro sempre me vencia, mas naquele dia eu estava pior que o normal. Ele me enchia de gols e eu não conseguia me concentrar só pensando em Camila e na situação em que eu vivia. Quando eu já estava perdendo de 12 x 0 e tomava gols de tudo quanto era jeito Pinheiro parou e perguntou se eu não iria me concentrar.

Respondi que estava concentrado. Ele disse “prepara”, ajeitou o botão para chutar e disse “Fica pensando na garota, dá nisso”. Enquanto eu assustado perguntei “como?” ele metia mais um gol.

Com 13 x 0 Pinheiro deu o jogo por encerrado e disse “vamos para o bar”. Eu fiquei desconcertado enquanto meu padrasto gritava para a minha mãe que iríamos comprar cervejas.

Chegando lá Pinheiro disse ao dono do boteco que iria levar duas cervejas, mas beberia uma ali. Perguntou se eu já tinha virado homem e eu respondi “fanta uva”. Pinheiro resmungou dizendo “não virou” e gritou “portuga, manda uma fanta uva pro mariquinha”.

Ele bebia a cerveja, eu minha fanta e Pinheiro perguntou “A menina que você gosta está com o Guga né?”. Eu tentei desconversar, dizer que era nada daquilo, mas Pinheiro era malandro, vivido “Qual é Toninho? Anos e anos de praia e você ta querendo me enganar? Vi o jeito que  olhava para ela enquanto dançavam”.

Eu nunca contara para ninguém que era apaixonado por Camila e achei que aquele podia ser o momento de desabafar. Olhei para ele e respondi “É, é verdade e eu não sei o que fazer”. Desabafei tudo. Como comecei a gostar dela, nosso reencontro e como perdi para o Guga.

Pinheiro deu um gole na cerveja e disse “Você não perdeu”. Perguntei como não e o homem emendou “a vida é cíclica. Nada é definitivo nela. Única coisa que você precisa é acreditar em você. Essa mulher é sua e só vocês dois ainda não sabem disso”.

Levantou, pagou as bebidas, pegou as sacolas com as cervejas e me puxou para irmos embora dizendo “o Guga tem mais dinheiro que você, mas você é mais rico que ele”.

Voltamos para casa e quando chegou a noite me preparei para ir embora. Antes que eu fosse Pinheiro pediu desculpas para minha mãe e disse que não poderia acompanhá-la para a excursão a Aparecida do Norte. Minha mãe lamentou, mas meu padrasto emendou dizendo “Mas o Antonio pode”.

Ele não me perguntou nada. Não perguntou se eu podia, se eu queria e antes que eu falasse algo o homem disse “Será bom pra você sair um pouco da cidade, espairecer e pensar”. Antes que eu pudesse responder algo minha mãe esperançosa perguntou se eu podia.

Olhei Pinheiro que me olhava firme e quando vi minha mãe ansiosa com a resposta eu disse “posso sim mãe”. Minha mãe me deu um abraço feliz enquanto Pinheiro acenava positivamente com a cabeça.

Pedi que Samuel segurasse a onda dos eventos no fim de semana para que eu pudesse viajar com minha mãe. Camila não me procurou naquela semana, estava muito ocupada namorando Guga e vi que realmente era a melhor decisão a tomar e lá fui eu para Aparecida.

Era um ônibus de excursão e eu era o mais novo do ônibus, minha mãe era a segunda mais nova e aí vocês veem o nível da situação. Só tinha terceira idade ali e eu já imaginava estar embarcando em um programa de índio.      

Chegando lá realmente tudo era muito bonito e a basílica uma das coisas mais lindas que já vi. Era bacana ver a fé daquelas pessoas. Gente indo pedir, outras agradecer. Cheguei a pensar em pedir por mim e Camila, mas depois pensei que Nossa Senhora tinha coisas  mais importantes para se preocupar.

Eu não conseguia parar de pensar em Camila e chegava a conclusão que não adiantava viajar se em pensamento eu continuava com ela. Tentava me distrair e pensava também no que Pinheiro disse, sobre ela ser minha e não saber ainda. Será?

Passeando pela cidade vi um grupo jovem, de minha idade. Era o primeiro grupo desses que encontrava ali e achei interessante decidindo me aproximar.

Cheguei perto e eles estavam em uma rodinha tocando violão e cantando músicas gospel. Achei legal e tímido perguntei se poderia me juntar a eles. Rapidamente recebi sorrisos e sim como resposta sentando.

Achei aquilo bem gostoso, clima tranquilo, de paz e me tirando da tormenta em que vivia. Notei uma moça loira linda que cantava divinamente e me olhava. Primeira vez desde que me aproximei de Camila que eu reparava em outra mulher.

Ela sentou perto de mim e continuou cantando. Ficamos ali por horas até que cansamos e cada um decidiu passear para um canto.

Fui passear com a moça.

O nome dela era Amanda e disse que era de Juiz de Fora, cidade que fica na divisa de Minas Gerais e Rio de Janeiro e a família estava ali para agradecer a recuperação de seu irmão que sofrera um acidente de moto e ficara quinze dias em coma.

Conversamos várias coisas e por algum tempo consegui não pensar em Camila. Amanda além de muito bonita era cativante e pensei “eu poderia me apaixonar por essa garota”.

Depois de passearmos por um tempo sentamos em um banquinho e continuamos conversando. Papo vai, papo vem, um clima surgiu e acabou que nos beijamos.

Um beijo gostoso em uma mulher bonita. Tudo que um homem quer.

Mas não foi um beijo de amor.

Depois do beijo nos olhamos e a única coisa que consegui dizer foi “desculpa”. Amanda entendeu a situação e perguntou “Tem outra né?”.

Sem jeito respondi “Meu coração sim, mas eu mesmo não”. Amanda fez carinho nos meus cabelos e disse “Você é especial Antonio. Moça de sorte”.

Passeamos mais um pouco e nos despedimos. Era hora dela voltar para Minas e eu ao Rio. Dentro do ônibus voltando pensei em Camila, mas pensei também em Amanda. Refleti “Uma moça linda como Amanda se interessou por mim, justo por mim. Não devo ser tão ruim assim”.

Continuei refletindo “Talvez Pinheiro esteja certo. Talvez só me falte confiança”. Decidi ali mudar o meu destino. Iria no dia seguinte me declarar a Camila, contar todo o meu amor não importando qual seria a sua resposta.

Como prometido no dia seguinte fui à faculdade procurar por Camila. Perguntei para várias pessoas até que a vi em um corredor.

Ela chorava e discutia com Guga.

Fui me aproximando aos poucos para tentar entender a situação e quando cheguei perto reparei que Camila chorava muito. Quando ia perguntar o que ocorria vi Camila dar um tapa no rosto de Guga e ir embora. Esbarrou em mim e prosseguiu sem nem me dar atenção.

Olhei para Guga que passava a mão no rosto e quando me viu apenas disse “não fala nada” indo embora.

Procurei Camila pela cidade toda preocupado e tentando entender o que ocorria sem obter sucesso. Desolado voltei para casa sem achá-la e entrei no quarto.

Dando de cara com Camila.

Ela estava sentada na minha cama e ao me ver me abraçou forte e chorando. Eu não conseguia dizer nada. Apenas abraçá-la e fazer carinho na sua cabeça.

E mesmo naquela situação me sentir feliz.

CAPÍTULO ANTERIOR:

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

E O BOTAFOGO?


*Coluna publicada no blog Ouro de Tolo em 23/11/2014

Começo essa coluna cometendo um erro. Dizem que nenhuma manchete ou título de uma crônica deve conter interrogação. Mas hoje não podia ser diferente, já que esse título virou até uma expressão popular.

“E o Botafogo?” é uma expressão carioca normal, principalmente para o momento em que falta assunto. Equivale ao “Vai chover”. Infelizmente, ou felizmente pra quem não curte muito o time da estrela solitária, o Botafogo passar problemas que validem essa expressão é uma coisa bem frequente.

Uma expressão usada para a falta de assunto ou então para iniciar um assunto sobre esportes entre dois amigos. Seja pra zoar um botafoguense ou mesmo entre torcedores de outros times que querem rir um pouco.

E o Botafogo? Hoje lhe pergunto caro leitor.

E o Botafogo salvou a coluna de hoje porque até a noite de quarta-feira (escrevo a mesma na madrugada de quarta para quinta) estava sem assunto para a coluna desse domingo. Mas o Botafogo “me salvou” perdendo em casa para o Figueirense por 1×0 e praticamente selando sua ida à série B.

Pensei que valia a coluna quando ouvia pela rádio Globo enquanto ia pra casa relatos já comuns em times que passam por essa situação, mas que mesmo assim, mesmo sendo com rivais, me comove e provoca nó no estômago. O capitão do time tentando erguer a cabeça do grupo chamando todos para saírem juntos dizendo que não acabou, jogadores chorando tentando esconder o rosto na camisa e não querendo falar com a imprensa. Torcida chorando, gritando impropérios contra o time ou cantando o hino do clube.

Já vi isso ocorrer muitas vezes e graças a Deus nunca vi com o meu, apesar dele se esforçar muito para que isso ocorra. Mas como eu disse, não sou hipócrita. Evidente que gosto quando um grande cai em virtude da rivalidade e porque se fosse o meu o Brasil estaria vibrando. Evidente que mais ainda quando é um rival do meu estado. Mas sou humano, tenho sentimentos e por mais que isso seja uma delícia esportiva não gosto de ver as pessoas chorando, sofrendo; ainda mais crianças.

Futebol é uma coisa engraçada mesmo, nos transforma. Em qualquer situação da vida se vemos alguém chorando ou sofrendo ficamos consternados, se é por um time de futebol que não é o nosso achamos engraçado. Diferenciamos o choro quando a dor que lhe causa sempre é a mesma.

Não sei realmente como é a dor de uma queda de um time de futebol, mas sei bem como é de uma escola de samba e dói muito. Por isso entendo o torcedor do time que desce.

Mas o Botafogo é um caso a parte.

E o Botafogo?

O Botafogo é um fenômeno que tem que ser estudado pela ciência. O torcedor de futebol tem outra coisa engraçada consigo. Para todos sua história é a mais heroica, suas vitórias são epopeias e suas lutas sofridas. Mas pensando friamente acho que a vida do botafoguense é a mais sofrida dos torcedores. A do atleticano poderia ser comparada, mas do ano passado pra cá o clube decidiu virar um rolo compressor.

O Botafogo ainda não.

Que o Botafogo é um clube glorioso, como seu hino diz, ninguém duvida. O Botafogo tem uma história linda, que dá orgulho não só aos seus torcedores como a todos os desportistas. É o clube de futebol que mais cedeu jogadores a seleções brasileiras em copas do mundo e só de sua terras terem saído Garrincha e Nilton Santos já faz de obrigação a todos nós lhe respeitar.

Mas assim como o Botafogo tem tudo isso de bom parece que é “zicado”. Assim como existe a expressão “E o Botafogo?” também existe uma muito mais famosa “Há coisas que só acontecem ao Botafogo”.

Expressão totalmente verdadeira. Eu nasci no meio de uma ditadura militar e de um jejum de títulos do Botafogo. A ditadura acabou muito antes. O Jejum se encerrou em 1989, mas o clube continuou tento dificuldades.

O Botafogo é o único dos 12 grandes a nunca fazer uma final de Libertadores, é o único carioca a não ganhar uma Copa do Brasil, aliás, apenas ele, o Atlético (que tem tudo pra ganhar agora) e o São Paulo (que na maior parte do tempo disputava Libertadores) dos doze não tem Copa do Brasil.

Os maiores esquadrões da história do Botafogo surgiram na mesma época do Santos de Pelé, que conquistou a maioria dos títulos que poderiam ser do Botafogo. Montou um bom time no fim da década passada e deixou de ganhar títulos porque foi “garfado” como na final do estadual de 2007 e da Taça Guanabara de 2008 pelo Flamengo. Reclamou, até com razão, e ganhou apelido de “chorão”.

Antes disso ainda, em 1992, tinha um time muito melhor que do Flamengo, perdeu o Brasileiro e ainda teve que aturar seu melhor jogador, Renato Gaúcho, ir a um churrasco de jogadores do Flamengo logo depois de tomar uma goleada no primeiro jogo das finais.

E o pior. Ganhou de presente da prefeitura um estádio lindo, moderno, olímpico que rapidamente se deteriorou e está há quase dois anos fechado lhe asfixiando financeiramente.

O Botafogo teve Garrincha, Nilton Santos e não soube aproveitar. Teve Túlio Maravilha, fez torcida jovem, mas não soube aproveitar. Teve Seedorf recentemente, a oportunidade de ganhar dinheiro, virar marca mundial e não soube aproveitar.

Agora segue religiosamente a cartilha de quem cai para a série B. Perde jogos bizarros, acontecem coisas incríveis em seus jogos, racha o elenco mandando os melhores embora, não paga salários e para piorar ao contrário dos outros que caíram a torcida não abraçou o clube com apenas sete mil dos seus acompanhando um dos últimos capítulos de sua agonia.

Os grandes não costumam ter dificuldades para subir. Mesmo o Vasco que vem fazendo alguns vexames irá subir com facilidade, mas não sei o Botafogo. O Botafogo sofre uma grave crise financeira devido a seus péssimos dirigentes e a fraca renovação de sua torcida. O marketing do clube é até bom, mas não adianta muito quando o plano de sócio torcedor dele fica atrás até do Grêmio Osasco. Não sei sinceramente se a torcida está diminuindo ou desanimada. Conheço muitos botafoguenses, apesar das brincadeiras que fazem.

A sorte do clube que agora tem eleição e quem sabe assim o mesmo volte a ter comando porque hoje o Botafogo é um trem desgovernado.

Vou ser sincero. Como rubro-negro claro que quero que o Botafogo desça. Mas não tenho ódio, nem raiva do clube. Sendo mais sincero ainda até me emociono vendo imagens de sua conquista de 89 em cima de meu clube!!

Se for para ver algum clube mal, decadente prefiro ver Fluminense e Vasco.

Então torço sinceramente por uma reação do clube. Já perdemos o América, que terá sua sede leiloada e isso é muito ruim pro Rio de Janeiro. Cheguei a ver o América glorioso, imponente. Eliminando o Corinthians em Maracanã lotado e saindo aplaudido do mesmo depois de um empate em semifinal do brasileiro com o São Paulo de Careca e Muller. Mesmo eliminado saiu gigante.

O futebol hoje é cruel. O futebol de leis com nomes de jogadores, de cotas diferentes de TV, de “espanholização” se arrisca a perder alguns de seus 12 grandes, entre eles o Botafogo, não quero perder o Botafogo. Que ele caia e reaja como clube grande que é.

Que o “E o Botafogo?” vire “É o Botafogo”.

E tua estrela solitária te conduza.

SOBE O SOM: O DONO DO MUNDO




Hoje a “Sobe o som” vem com mais uma novela que marcou época e reestreou no canal Viva. O dono do mundo.

O Dono do Mundo é uma telenovela brasileira, produzida e exibida pela Rede Globo, no seu horário das 20 horas, de 20 de maio de 1991 a 4 de janeiro de 1992, em 197 capítulos, substituindo Meu Bem, Meu Mal e sendo substituída por Pedra Sobre Pedra. 

Foi escrita por Gilberto Braga com co-autoria de Leonor Bassères, Ricardo Linhares, Sérgio Marques e Ângela Carneiro e dirigida por Dennis Carvalho, Ricardo Waddington, Mauro Mendonça Filho e Ivan Zettel. 

Apresentou Antônio Fagundes como protagonista título. Ainda contou com Fernanda Montenegro, Malu Mader, Nathália Timberg, Kadu Moliterno, Stênio Garcia, Ângelo Antônio, Letícia Sabatella e Glória Pires nos papéis principais.

Então vamos lá!!

Sobe o som “O dono do mundo!!”


Codinome beija-Flor – Luis Melodia


Unforgattable – Natalie Cole & Nat King Cole


Eu sei – Marisa Monte


Cry for help – Rick Astley


Super-herói – Roberto Carlos


I`ve been thinking about you – Londonbeat


Acontecimentos – Marina Lima


I love you – Vanilla Ice


Solidão – Gal Costa 


Sadeness – Enigma 


O dono do mundo – Nova Era


You are everything – Rod Stewart 


Rap da Rapa – Ademir Lemos 


Spring Love – The cover girls


Bem. Aí está um pouco das músicas dessa novela que vem sendo reprisada no canal Viva. Sobe o som volta daqui a duas semanas nitroglicerina pura. Volta com Nirvana e Guns n` roses. 


Enquanto isso vamos ver e ouvir a junção de dois gênios. 

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SOBE O SOM

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

TROCANDO EM VERSOS; NO ESPELHO


*Esses versos já foram publicados algumas vezes no blog, foram feitos no dia da missa de sétimo dia de minha mãe. Hoje ela faria 57 anos então lhe homenageio. A primeira letra de cada verso monta seu nome. Feliz aniversário mãe.

NO ESPELHO   

Como vou viver seu o seu amor
Como viver sem o ombro amigo
Naqueles momentos onde só existe dor
Como vai ser ficar sem você

Reluz uma lágrima em meus olhos
Eu sei, não vou ficar sozinho
Geralmente quando eu mais choro
Imagino seu afago, seu carinho
No espelho encontro teu olhar
A imagem que me fortalece

Vejo que estás a me acompanhar
Intensa, sua chama me aquece
Legado que sigo em meu caminho
Lembranças nunca irão se apagar
Amor é como passarinho
Radiante tendo o céu a desbravar


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quarta-feira, 26 de novembro de 2014

CINEBLOG: A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS





Excepcionalmente mudei a ordem dos filmes aqui para mostrar um filme bem novo, nem na TV aberta chegou ainda e que vi na segunda-feira e me impressionou. Impressionou tanto que parou aqui na mesma semana. Uma história que eu teria adorado escrever.

Cineblog orgulhosamente apresenta:


A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS  


The Book Thief (no Brasil, A Menina Que Roubava Livros; em Portugal, A Rapariga Que Roubava Livros) é um filme americano de drama baseado no livro do mesmo nome de Markus Zusak, dirigido por Brian Percival e com o roteiro escrito por Michael Petroni. O filme conta com Emily Watson, Geoffrey Rush, Sophie Nélisse, Ben Schnetzer, Nico Liersch, e Joachim Paul Assböck nos papéis principais.

Uma jovem garota consegue sobreviver em Munique, na Alemanha, através de livros que a mesma roubava. Com a ajuda de seu pai adotivo, ela consegue aprender a ler em plena Segunda Guerra Mundial. A garota, Liesel Meminger, também partilha de seu aprendizado com vizinhos e um judeu que consegue esconder sua origem para não ser morto pelo exército nazista.


Elenco


  • Sophie Nélisse como Liesel Meminger
  • Geoffrey Rush como Hans Hubermann
  • Emily Watson como Rosa Hubermann
  • Ben Schnetzer como Max Vandenburg
  • Nico Liersch como Rudy Steiner
  • Joachim Paul Assböck como Oficial Schutzstaffel
  • Sandra Nedeleff como Sarah
  • Hildegard Schroedter como Frau Becker
  • Rafael Gareisen como Walter Kugler
  • Gotthard Lange como Coveiro
  • Godehard Giese como polícia no comboio

Recepção da crítica

 


The Book Thief tem recepção mista por parte da crítica especializada. Com tomatometer de 46% em base de 33 críticas, o Rotten Tomatoes publicou um consenso: “Um pouco muito seguro no manuseio de sua configuração da Alemanha nazista, The Book Thief contraria suas restrições com um tom respeitoso e performances fortes”. Tem 75% de aprovação por parte da audiência, usada para calcular a recepção do público a partir de votos dos usuários do site. 

Lançamento 



O filme estava originalmente planejado para estrear dia 17 de janeiro de 2014, mas a data de lançamento foi antecipada para dia 8 de novembro de 2013. Esta mudança ocorreu para o filme ter a chance de concorrer à época das premiações do cinema 2013-14, como o Globo de Ouro, o BAFTA e o Oscar.



Semana que vem, finalmente, Cineblog vem com o vencedor do Oscar “A vida é bela”.


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OS SALTIMBANCOS TRAPALHÕES

terça-feira, 25 de novembro de 2014

NAS CINZAS PUDE PERCEBER


*Capítulo do livro "Enredo do meu samba" publicado no blog "Ouro de de Tolo" em 15/2/2014

Acabei de ler a história com lágrimas nos olhos. Tinha muito ali de minha história com meu pai. Nosso amor e entendi porque aquela era a última história do caderno. Era como se fosse a nossa.

Sim. Era a última história do caderno, mas não seria a última do livro. Queria mais um conto para fechar com chave de ouro. Faltava apenas um para finalizar a obra, dois dias para o casamento de Bia e três para o fechamento do bar. Não estava fácil.

De noite fui com Mariana até a casa da Bia. Julinha como sempre me recebeu com um abraço, mas cumprimentou secamente Mariana. Saiu de perto e minha acompanhante comentou que ela ficara com ciúmes; respondi “normal” e Bia também nos cumprimentou e mandou que entrássemos. Ao entrarmos Mariana disse “ela também ficou com ciúmes”, rindo comentei “ela puxou a filha”.

Zé já nos esperava com drinques, me deu um abraço forte dizendo que estava feliz com minha presença. Sentamos e o homem colocou um cd para deixar nossa noite musical. Colocou Abba com “Dancing queen” e estranhamos. Mariana me perguntou se ele era gay e respondi que não, apenas curtia um jeito alternativo de ser. Bia querendo mudar o foco da atenção perguntou como nos conhecemos e Mariana contou toda a história.

Bia e Zé ficaram pasmos com a história do tráfico. Não sabiam que era ela quem eu citava na reportagem. Conversaram por alguns minutos enquanto eu e Zé apenas observávamos quando Bia lhe chamou na cozinha para ajudar e continuarem o papo. Pronto: ficaram amigas, minha ex e a atual.

Julinha jogava videogame enquanto Zé ficou me encarando. Eu tentei olhar para outro canto, constrangido assoviava até que Zé disse “você gosta dela”. Não entendi aquela afirmação e respondi que não, ainda era muito cedo para gostar de Mariana e o homem respondeu “não, falo da Bia”.

Na hora me engasguei. Tossi por um tempo e falei que não, era minha ex, uma amiga muito querida, mas queria apenas que fosse feliz.  Ele continuou afirmando que eu gostava e eu que não. Ficamos nessa um tempo até que eu irritado gritei “já falei que não gosto cacete!!” e Zé afetado disse “ai, não precisa gritar”.

Por fim perguntou se eu gostava de alguém e respondi que não. Perguntou se eu tinha certeza, olhei sério pra ele e o atual de minha ex abaixou os olhos completando “não precisa ficar bravo, só queria ter certeza”.

As mulheres voltaram da cozinha e Bia perguntou se estava tudo bem. Zé respondeu que sim e apenas conversávamos. Minha ex beijou o namorado, Mariana me beijou e enquanto eu beijava olhava para eles e me perguntava como Bia podia gostar “daquilo”. Até que reparei que Bia também me olhava.

Tivemos uma noite agradável, apesar do ciúme tomar conta de mim. Depois Mariana e eu emendamos no “casa de bamba” e Mariana comentou que eu gostava da Bia. Na hora parei de beber e perguntei “Até você?”

Minha acompanhante ficou em silêncio. Almeidinha trazia as fritas quando Manolo se aproximou. Perguntei como o homem estava e ele respondeu que bem. Disse que tinha duas pessoas em uma mesa do lado de dentro que chamaram a mim e Mariana para nos juntarmos a eles. Fui com minha acompanhante e quando vi era Dodô com um homem.

Dodô me cumprimentou e lamentou pela morte de meu pai, completando “era um grande homem”. Apresentou seu acompanhante dizendo “Esse é Nezinho, presidente da Acadêmicos do Gato Molhado”.

Fiquei surpreso e falei “Nossa, ele existe mesmo!!” Dodô pegou uma de minhas fritas e disse que não só existia como podia comprovar a história que contou. Pediu e Nezinho rindo respondeu que era tudo verdade. Até aquele dia nunca vira uma vaia e reação tão grande em um desfile das campeãs, nem no ano em que a Princesa Isabelense ganhara o carnaval com 10 em tudo mesmo desfilando sem dois carros e com a bateria apenas de cuecas. Ou nem no ano seguinte ao acontecido, quando fizeram o enredo “Urina, a seiva da vida”.

Sentei estupefato com tantas revelações quando Dodô perguntou se eu já terminara o livro e respondi que não, precisava de mais uma história. O velho riu e respondeu que eu teria a minha última história. Perguntei quem era o personagem daquela última história e Nezinho rindo respondeu: “seu pai”.

Ouvi, mas não entendi. Pedi que repetisse e Dodô falou “Quer jeito melhor de terminar que uma história de seu pai?”.

Nezinho relatou então o último conto.

Meu pai era jovem ainda. Essa história se passou trinta anos atrás, quando eu era criança e meu pai ainda caminhava como um Harmonia. As coisas não estavam bem financeiramente e meu pai recebeu proposta de emprego em Sete Mares. Como o nome já diz, cidade litorânea de São Paulo.

Foi trabalhar como motorista de uma gente chique de lá de segunda a sexta e voltava nos fins de semana para cá ficar conosco. Mas minha mãe, dona Regina, já começava a reclamar da distância, além de que os gastos de meu pai não eram poucos em vir para o Rio todos os fins de semana. Meu pai ainda propôs vir só uma vez por mês, mas minha mãe não aceitou.

Botou meu pai na parede e disse “eu e Pedrinho vamos morar em Sete Mares com você”. Meu pai ainda tentou argumentar que morava em um quartinho na casa do patrão, mas não teve jeito. Minha mãe era tinhosa e conseguiu convencer meu pai.

Dessa forma fomos para São Paulo.

Não lembro muito dessa época, eu tinha apenas cinco anos. A única coisa que lembro realmente era que me apaixonara por Manuela, filha do casal para qual meu pai trabalhava. Por algum tempo eu dizia que ela era minha namorada sem ela saber. Depois “assumimos” nosso namoro que era brincar juntos e falar que namorávamos apenas.

Eu com cinco e ela com quatro anos.

Vivíamos eu, minha mãe e meu pai naquele quartinho. Meu pai como motorista da família e minha mãe como empregada da casa. A família comandada pelo seu Ivo Figueiredo, jovem ainda (uns quarenta anos), era bacana e nos tratava muito bem. A vida não era ruim.

Um dia minha mãe fazia a comida quando a mulher de Ivo perguntou do que ela sentia mais falta aqui no Rio. Dona Regina comentou que das escolas de samba. Ela saía em escolas, meu pai trabalhava com harmonia e sentia falta do ritmo da bateria e de sambar.

Ivo entrou na cozinha naquele instante e surpreso com o que minha mãe disse, falou “Ué? Jair nunca disse que trabalhava com samba, eu sou presidente de uma escola de samba daqui”. Foi a vez de minha mãe ficar surpresa. Ela não sabia que tinha escolas de samba em Sete Mares e as escolas, que evidente não tinham mesmo luxo e qualidade das do Rio, até que eram boas.

Com aquilo meu pai assumiu a direção de harmonia da União da Ilha dos Sete Mares. A escola tinha esse nome em homenagem à União da Ilha. Faltavam poucos meses para o carnaval, mas meu pai com toda malandragem e experiência de quem nasceu no samba sabia que poderia fazer um grande trabalho. E fez. A escola foi muito bem na avenida e fez um desfile de campeã.

No fim. Ivo agradeceu ao meu pai e todo otimista seu Jair disse que venceriam o carnaval. Ivo respondeu “isso vamos saber na terça a noite”. Meu pai estranho a declaração e perguntou “ué? A apuração não é quarta?”. Ivo respondeu que sim, mas na terça saberiam.

Mais tarde, em casa, meu pai perguntou porque na terça saberiam e Ivo contou a verdade. Antes da apuração para o público os presidentes e a liga das escolas de samba se reuniam e abriam as notas já sabendo ali quem venceu e quem caiu. O que ocorria na quarta era apenas algo protocolar. Todos já sabiam o que ocorreria.

Meu pai argumentou que aquilo era errado e Ivo, conformando, disse “o sistema é assim, infelizmente”.

Na terça Ivo convidou meu pai para irem juntos e foram até a casa do presidente da Liga em algo muito secreto. O presidente indagou a presença de seu Jair e Ivo respondeu que era uma pessoa de confiança dele, não tinha problema.

Tudo muito secreto, tudo muito escondido, parecendo uma máfia.

E era.

Os dois sentaram enquanto o secretário pegou uma daquelas sacolas de mercado. Dentro tinha um envelope pardo. O presidente o pegou e disse “aqui estão as notas”. Abriu o envelope, espalhou as notas sobre a mesa e leu uma por uma dos julgadores.

No fim meu pai e Ivo constataram que não seria daquela vez que a União da Ilha seria campeã. Ficou em quinto lugar. Os representantes da escola campeã comemoravam enquanto o secretário colocava os papéis de novo no envelope e dentro da sacola.

No dia seguinte, muito contrariado, meu pai foi até a apuração oficial com Ivo e o quinto lugar foi confirmado. Seu Jair saiu aborrecido da apuração e dizendo que aquilo não poderia ficar assim; algo devia ser feito.

O ano foi passando e meus pais trabalhando para o casal Figueiredo. De novo chegou a época do carnaval e apesar de insatisfeito com o que ocorrera no carnaval anterior, meu pai aceitou continuar na harmonia. Trabalhou com afinco para que tudo desse certo, mas o desfie não foi tão bom assim. A escola teve diversos problemas na avenida e no fim Ivo se preocupava com um possível rebaixamento.

Meu pai mandava seu patrão não se preocupar e esperar terça que tudo daria certo.

Os presidentes se reuniram na casa do presidente da liga para lerem as notas quando bateram na porta. Era meu pai pedindo desculpas pelo atraso, pois estava comprando meu material escolar. Sentou ao lado de Ivo e o envelope foi aberto.

O que Ivo temia começou a ocorrer no desenrolar das notas. A União da Ilha foi muito “canetada” perdendo pontos em todos os quesitos e acabou rebaixada. Enquanto isso David Vieira, presidente de outra agremiação, perguntava ao presidente da Liga quanto ele queria para mexer nas notas e trazer a escola de penúltima para o segundo lugar – dinheiro não era problema, nem glamour. Foi dissuadido ao ser lembrado que estava ‘de castigo’ por ter dois anos antes comprado jurados “por fora” para ser campeão – título perdido por ter esquecido de tirar os carros da dispersão.

Os campeões comemoravam, uísque era servido enquanto Ivo com lágrimas nos olhos falava a meu pai para irem embora quando faltou luz na casa. Foi coisa rápida, de um minuto e quando voltou brincaram com o presidente dizendo que ele tinha que pagar a conta de luz. David Vieira reiterou a oferta, em tom de brincadeira.

Ivo pediu mais uma vez para irem embora e meu pai aceitou.

No dia seguinte estavam lá para a apuração oficial. Ivo cabisbaixo se perguntando o que fazia ali e meu pai respondendo que tinham que encarar o resultado de frente. Ivo suspirou e disse “que assim seja”. O locutor pegou a sacola e abriu o envelope. Começou a dizer as notas e anunciou 10 para a União da Ilha de Sete Mares. Ivo estranhou e falou para meu pai que não se lembrava da escola ter tirado um dez.

As notas continuaram a ser divulgadas e a União tirava um 10 atrás do outro. Ivo não entendia nada, nem os outros presidentes e a direção da liga que começava a entrar em desespero – e não podia fazer nada. Todas as escolas perdiam pontos, menos a União da Ilha que com 10 em tudo acabou se consagrando campeã do carnaval.

Constrangido, o locutor anunciou o título da União da Ilha de Sete Mares e Ivo, incrédulo, perguntou “como?” Meu pai, com um sorriso no canto da boca, mandou que seu patrão fosse até o palanque receber seu troféu de campeão.

Ivo subiu ao palanque e recebeu o troféu de um assustado presidente da liga, que lhe deu parabéns. 

Baixinho o homem disse que depois queria explicações e Ivo, também com voz baixa, respondeu que estava tão surpreso quanto ele.

O sacana do meu pai não estava com uma sacola com material escolar, como ele dissera ao entrar na reunião. Tinha um envelope com notas adulteradas que ele aproveitou para trocar com as verdadeiras no momento que ocorreu sua sabotagem de falta de luz. Sabotagem feita por amigos seus.

E a Liga não podia fazer nada. Ia fazer o que? Ir à polícia dizer que fez algo errado e alguém lhe enganou?

Na hora que um alucinado Ivo estourava champanhe no palanque da liga comemorando o tão sonhado título meu pai se levantou, foi embora de fininho e pegou a mim e minha mãe na casa para voltar ao Rio de Janeiro.

Antes que a direção da liga descobrisse o que ele aprontou.

Antes que descobrissem que meu ídolo enganou o sistema.


ENREDO DO MEU SAMBA (CAPÍTULO ANTERIOR)

DESFILEI SOB APLAUSOS DA ILUSÃO

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

AMOR: CAPÍTULO 4 - CAMILA




A vida prosseguiu sem nosso querido e inesquecível Jessé. Nossa turma continuou, os quatro mosqueteiros agora eram três e Bia aos poucos deixava de ser a menininha que queria nos acompanhar e foi virando mulher.

Como eu disse em Búzios ela arrumou um namoradinho que acabou sendo seu primeiro namorado sério, o Fernando que a gente chamava de Nando. O namoro virou coisa séria e o que era amor de carnaval virou de uma semana, um mês,  um ano, anos..

Os anos iam passando e nada de encontrar novamente minha atropeladora. Eu continuava sendo um rapaz introvertido e tímido mesmo de vez em quando ficando com uma menina porque ninguém é de ferro, mas era raro. Geralmente as mais feias que nenhum dos meus amigos queria. Ainda tinha em Pinheiro mais  que um padrasto, mais até que um pai, um grande amigo, meu melhor amigo.

Com ele que abria meu coração, contava minhas dúvidas, planos e jogava futebol de botão todos os finais de semana. Ele sempre me vencia por mais que eu comprasse botões de galalite, madrepérola não adiantava nada. Ele colocava aqueles botões velhos com nomes de jogadores antigos e me enchia de gols. No fim saía assoviando e falava “Semana que vem tem mais patinho”.
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Patinho. Eu ficava fulo da vida com aquilo. Treinava a semana inteira, mesmo sozinho e apanhava dele no fim de semana. Mas tudo bem, o mais importante é que ele era um grande amigo e fazia minha mãe feliz.

Todos os fins de semana eles iam a uma gafieira e davam show. Dona Hellen era uma grande dançarina, dançava todos os ritmos possíveis com brilhantismo. Eu, evidente já que não tinha talento nenhum na vida, não tinha coordenação motora e era péssimo dançando. Parecia um menino com paralisia cerebral e desisti de tentar.

Como eu disse os anos se passaram, cinco anos na verdade. Com dezoito anos decidi sair de casa e aluguei um apartamento em Copacabana com Bia, Samuel, Nando e mais uns malucos que passavam o dia fumando maconha e tocando violão. Eu dividia o quarto com Samuel que passava o maior tempo na rua. Eu, ao contrário dele, passava o maior tempo no quarto lendo e exercitando uma de minhas grandes paixões. Ouvir música.

Gostava tanto de música que decidi investir nisso. Comprei um som em sociedade com Samuel e virei DJ. De vez em quando conseguíamos umas festas para tocar e assim eu pagava meu aluguel e minhas contas. Não tinha luxo, nem dava pra ter com dinheiro de DJ, mas dava pra me virar e quando as coisas apertavam recorria a minha mãe, quer dizer, a Pinheiro já que minha mãe não trabalhava.

Quem não morava com a gente era Guga, não precisava. A sua família também saiu da Ilha do Governador, foi pro Leblon morar em um condomínio luxuosíssimo. Seu pai ganhou muito dinheiro no mercado financeiro e a família enriqueceu.

Mas Guga continuou o mesmo cara gente boa, amigo dos amigos. Estávamos sempre juntos falando de nossas vidas, das faculdades que estávamos começando e relembrando nossas histórias matando saudades de Jessé.

Guga sempre fazia questão de lembrar a promessa que fizemos em Búzios quando fizemos aquela deliciosa loucura. Prometemos que quando fizessem dez anos da viagem voltaríamos à cidade para curtir o fim de semana e relembrar Jessé.

Tudo caminhava bem em minha vida, as coisas mudavam aos poucos, afinal, eu crescia. Só não mudava a saudade de meu amigo e a vontade de rever minha atropeladora.

Não tive mais notícia nenhuma dela, nem sinal de fumaça, nada. Às vezes via alguma menina na rua e sonhava que podia ser ela, mas nada, tudo acabava em frustração.

Eu não sabia explicar o que me ligava àquela doida que me atropelou. Eu só passara alguns segundos com ela, o tempo de tomar a pancada, cair e ver seu rosto, mas não esquecia. Aquela menina era especial, eu sabia que era e isso me bastava.

Mas não sabia como encontrá-la e já perdia as esperanças.

Até que um dia..

..Um dia falava no celular com Samuel combinando uma festa que tocaríamos final de semana. Eu andava apressado pela rua por estar atrasado para a faculdade, reclamava com ele puto porque uma caixa de som queimara quando fui atravessar a rua.

Atravessei distraído, assumo, não vi que um carro se aproximava e acabei atropelado de novo.

É amigos, não dou sorte com carros.

Caído no chão zonzo tentava me tocar para ver se estava vivo ou em “Nosso Lar” quando ouvi a voz de uma mulher nervosa “Ai meu Deus do céu, eu não tive culpa, esse doido atravessou do nada”.   

Olhei para a mulher e não acreditei no que vi. Eu conhecia aquele rosto, aquela voz. Abri um sorriso e disse “atropeladora” antes de desmaiar.

Sim, era ela, a atropeladora de Búzios.

Acordei no hospital como da outra vez quando ouvi uma mulher conversando com outra que pelo papo era a enfermeira. Achei que fosse a Bia e abri os olhos lentamente pra me acostumar com a claridade quando percebi que era a atropeladora.

Ela me olhou deitado e se despediu da enfermeira. Antes que cruzasse a porta do quarto arrumei forças não sei aonde e gritei “espera”.

A menina olhou pra mim e levantei a mão fazendo sinal com o dedo para que ela se aproximasse.

A atropeladora se aproximou e quando estava próxima eu sorri e disse “você me atropelou em Búzios cinco anos atrás”. A menina colocou as mãos no rosto e respondeu “ai que vergonha, eu sabia que conhecia você de algum lugar, mas não lembrava de onde”. Rindo pedi que ela relaxasse e falei que talvez fosse destino que ela sempre me atropelasse.

Ela riu e mostrou o sorriso mais bonito que já vi na vida e tenho certeza que nunca verei um igual. Nos olhamos um tempo e ela me disse para ficar tranquilo que eu não quebrara nada. Respondi que estava no lucro já que na vez anterior quebrara o braço e rindo ela disse que assumia a culpa do primeiro acidente, mas naquele a culpa foi toda minha.

Não resisti e comentei “você tem o sorriso mais bonito que já vi”. Ela ficou corada de vergonha e percebi a audácia que cometera, pelo menos para um cara tímido como eu. Pedi desculpas e coloquei culpa na morfina que tomara e me deixara aéreo. Ela riu e respondeu “Você não tomou morfina”.

Nos olhamos mais algum tempo naquele silêncio típico de quem não tem intimidade e fica nervoso tentando achar alguma coisa para quebrar o gelo até que ela olhou o relógio e disse que tinha que ir embora.

Despediu-se de mim dizendo “até o próximo atropelamento” e caminhou para sair do quarto. Quando estava na porta gritei “Espera atropeladora!!”.

Ela se virou rindo e perguntando “Você não tinha um apelido melhor para me colocar?”. Respondi que era para aquilo mesmo que chamara, para saber seu nome e ela respondeu.

Camila.

Nunca mais o nome Camila foi um nome normal pra mim.

Ela perguntou qual era o meu e respondi. Camila sorriu, deu tchauzinho com a mão, disse “tchau atropelado” e saiu.

Saiu e me deixou com um sorriso bobo nos lábios. Sorriso de apaixonado que reencontrara seu amor. Fiquei tão bobo, tão idiota
com aquele reencontro que só depois de um tempo me toquei que só pegara o nome. Não pegara endereço, telefone, mais nada.

Me toquei do quanto fui burro e levantei com aquela roupa de interno de hospital praticamente com a bunda de fora e andei até o corredor carregando bolsa de soro que estava no meu braço.

Andei por tudo procurando e chamando por Camila até que uma enfermeira apareceu pedindo que eu voltasse ao quarto. Descrevi Camila perguntando se ela vira e a mulher respondeu que sim, mas já tinha ido embora.

Voltei para o quarto e deitei desolado pensando que demoraria mais cinco anos para rever minha atropeladora.

Comecei até a torcer para ser atropelado.

Alguns dias depois saí do prédio e caminhava em direção ao ponto de ônibus quando atravessei a rua e um carro freou bruscamente em cima de mim. Uma mulher irritada colocou a cabeça pra fora da janela e gritou “Olha por onde anda!!”.

Olhei a mulher e sorri respondendo “Não pode ser! Atropeladora!”.

Sim. Era Camila.

Caminhei até sua janela e ela rindo disse “Não é possível que eu já ia te atropelar pela terceira vez, é karma isso e pare de me chamar de atropeladora”. Pedi desculpas e agradeci por daquela vez não ter me atropelado.

Fizemos aquelas perguntas de praxe do tipo “Como você está?” fingindo uma intimidade que não tínhamos quando ela perguntou “Está indo pra onde?”.

Respondi que estava indo para a faculdade dando o nome da instituição e Camila completou “Estou indo pra lá, quer carona?”. Respondi “Claro. Melhor dentro do seu carro que embaixo dele”.

Dessa forma fomos juntos para a faculdade.

Conversamos um pouco no carro contando de nossas vidas um para o outro e entrei em sala de aula andando nas nuvens. Bia, que estudava na mesma sala, perguntou o que eu tinha e respondi “Fui atropelado pelo amor”.

Que brega.

Naquele dia nem prestei atenção nas aulas e quando saía da faculdade ouvi barulho de buzina. Quando olhei percebi que era Camila. Da janela ela disse “Entre antes que eu te atropele”.

Camila me deixou em casa e quando me despedi e virei para entrar ela gritou “espera”.

Virei e voltei ao carro. Camila sacou uma caneta, pegou minha mão e escreveu nela. No fim disse “É meu telefone, me liga pra irmos juntos para a faculdade”.

Respondi que sim, mas com uma condição. Ela teria que me deixar rachar a gasolina. Ela topou e nos despedimos. Eu entrei, deitei na minha cama e não consegui dormir naquela noite.

Ficamos amigos. Camila era de Búzios e estava há pouco tempo no Rio de Janeiro não tendo conhecidos ainda, acabou que virei amigo dela. A cada ida e volta de carro abríamos mais de nossas vidas um para o outro, criávamos mais intimidade, mas eu não conseguia dizer que a amava.

Era tímido, travava. Como dizer para Camila que era apaixonado por ela há cinco anos? Desde que me atropelou quando nós devemos ter nos visto ali por uns dez segundos? No mínimo ela acharia que eu era tarado.

Um dia estava no quarto deitado, ouvindo música e pensando nela quando bateram na porta. A princípio não ouvi de tão concentrado que estava nas músicas. Mas com a batida mais forte percebi e gritei “Já vai Samuel, parece que vai tirar o pai da forca”. 

Imaginei que fosse Samuel querendo entrar já que a porta estava trancada. Levantei, abri a porta e tomei um susto dizendo.

- Camila!!   

Ela ficou sem jeito, pediu desculpas e perguntou se fazia mal estar ali, que encontrou a porta aberta e decidiu entrar. Respondi que não e convidei a entrar em meu quarto.

Meu quarto estava uma bagunça. Tirei quinquilharias que guardava em cima de uma cadeira jogando no chão e lhe convidei para sentar. Camila sentou e perguntou “Vamos sair?”. Perguntei para onde e a menina respondeu “ver a vida”.

Achei bonitinho que ela dissesse aquilo, mas argumentei “ver a vida é muito vago, fazer o que especificamente?”. Eu tinha deixado o som ligado e naquele momento começou a tocar a balada “Don't Want To Say Goodbye” dos Raspberries.

É difícil alguém de nossa geração conhecer Raspberries. Ela parou para ouvir e depois de alguns segundos disse “é linda”. Respondi se tratar de “Don`t Want To Say Goodbye” e Camila contou que conhecia. Seus pais ouviam muito em sua infância.

Do nada Camila estendeu sua mão para mim e pediu “Dança comigo?”.

E ali ficamos os dois dançando. Eu que era um péssimo dançarino apesar de ter uma mãe expert. Juntei meu corpo ao dela e dançamos aquela balada de amor antiga.

Sabe aqueles momentos que queremos que se eternizem? Que nunca mais acabem? Pois é. Aquele foi um desses em minha vida. Nossos corpos colados, a cabeça de Camila encostada em meu peito e eu conseguia sentir sua respiração enquanto meu coração batia acelerado colado em sua cabeça. Eu não dançava, flutuava e me sentia como dentro de um sonho.

Ficamos minutos ali sendo duas pessoas, mas na verdade sendo uma só. Camila me olhou no momento que olhei para ela e ficamos  os dois ali nos olhando, bocas próximas. Eu tremia, boca seca, respiração ofegante. Sabia que era a chance de beijá-la. Me aproximei mais um pouco e...  

..pisei em seu pé.

Camila se desvencilhou rindo e disse que tentei arrancar seu dedo mindinho. Eu não sabia onde enfiar a cara implorando perdão e ela rindo respondeu “fica pelos atropelamentos”.

Aquilo me desconcertou e também ri. A música acabou, Camila sorriu pra mim aquele sorriso que nunca esquecerei pro resto de minha vida e repetiu o convite “Vem, vamos viver”.

Saímos. Passeamos pela orla, Copacabana, Ipanema, tomamos água de coco, jogamos água um no outro e no fim do dia paramos nas pedras do Arpoador.

Olhando pro horizonte comecei a cantarolar a música do Raspberries e Camila perguntou o que a letra queria dizer. Respondi que a tradução do título era “Não quero dizer adeus” e contava de um casal que se amava e estava separado.

Camila sem olhar pra mim e ainda olhando o horizonte me perguntou “O que é o amor pra você?”.  Pensei em responder “Amor é dançar com uma pessoa e querer que a música nunca acabe”.

Mas me intimidei. Pensei um pouco e acabei respondendo “Não sei, acho que ainda não conheci o amor”.

Camila levantou, se espreguiçou olhando o por do Sol e me deu a mão para que levantasse dizendo “às vezes a gente encontra o amor e nem percebe de cara”.

É..às vezes encontra e não tem coragem de confessar.

Ela me deixou em casa e antes que eu descesse do carro me fez um convite “Eu faço dança no salão que tem na esquina da minha rua. Se quiser posso te ensinar a dançar”. Respondi que era besteira, eu era de uma família de dançarinos e ela completou sorrindo “o convite está feito”.  

Como eu disse, realmente eu era de uma família de dançarinos e feria mortalmente meu ego receber convite da mulher que eu amava para aprender a dançar. Por outro lado era uma chance a mais de estar com ela, passarmos alguns momentos juntos.

Na semana seguinte fui ao salão de dança e da porta fiquei vendo Camila com roupa de bailarina se exercitando sozinha em barra e ouvindo música clássica. Impossível não se apaixonar cada vez mais por essa mulher e eu a cada olhar para ela me sentia menor, mais diminuído de tanta veneração que sentia.  

Camila percebeu minha presença e se virou para mim sorrindo e dizendo “você veio”. Eu da porta perguntei se o convite estava de pé e ela me pediu apenas que esperasse trocar de roupa que ela já voltava.

Voltou cinco minutos depois e perguntou que tipo de música eu dançava. Presunçoso respondi “de tudo um pouco” e ela falou “vamos começar por bolero então”.

As aulas foram um desastre. Eu realmente era péssimo e não consegui acertar em nenhum ritmo. Camila com extrema paciência ia me orientando, mudando o ritmo e eu não acertava. No fim da aula me disse “vamos ter trabalho”.

Pronto. Fiquei com orgulho ferido e respondi “vou dançar igual o John Travolta”. Ela riu como não acreditando e vi um cartaz ao lado da sala anunciando um concurso de música. Perguntei para ela onde era a inscrição e Camila respondeu “Numa sala do segundo andar, por quê?”.

Peguei sua mão e subi correndo com ela até o segundo andar. Chegando lá perguntei e descobri o local exato de inscrição enquanto ela me perguntava o que eu ia fazer. Encontrei uma pessoa no local e disse “queremos nos inscrever”.

Camila perguntou se eu ficara maluco enquanto a pessoa me deu uma ficha de inscrição. Eu não dei ouvidos a Camila e apenas perguntei seu nome todo. Ela me respondeu e entreguei a ficha preenchida pra pessoa que me disse “Faltou dizer o ritmo que vão dançar”.

Olhei fixamente Camila e respondi “bolero”.

Do lado de fora do salão Camila e eu entrávamos em seu carro para irmos embora e ela me perguntou “você ficou maluco?”. Respondi “você não disse que às vezes o amor chega e nem percebemos? Percebi o meu pela dança”.

Mentira. Meu amor por ela era tão grande que me permitia correr riscos.

Mas não era bobo. Sabia que era péssimo dançarino e no dia seguinte estava na Ilha do Governador pedindo ajuda pra dona Hellen. Minha mãe perguntou o que ocorria e respondi “tenho um mês para aprender a dançar”.

Entreguei a ela um cd do Luis Miguel e ela colocou pra tocar. Mesmo cd que no dia seguinte entreguei na mão de Camila no salão e disse “vamos ganhar esse concurso”.

Eu treinava todos os dias. Um dia com minha mãe, outro com Camila. Mal descansava, mas era questão de honra dançar bem e vencer aquele concurso. Tinha um mês para virar um dançarino.

Treinava, errava e voltava a treinar. Treinava com afinco, com dedicação que poucas vezes me dediquei a algo na vida. Tudo por Camila. Tudo para vê-la feliz e orgulhosa de mim.

Até que o dia chegou.

Cheguei bem vestido, com gel no cabelo e Camila linda,com um vestido vermelho e flor no cabelo me esperava com um sorriso no rosto. Ela estava linda demais e me hipnotizava, a vontade era de declarar ali mesmo meu amor.

Ela perguntou se eu estava nervoso e respondi que não. Mentira. Tremia mais que vara verde, ainda mais que sabia que todos meus amigos e familiares estavam ali para assistir.

Os concorrentes foram se apresentando e nós da coxia esperávamos. Camila pegou minha mão e sentiu que estava gelada. Pediu que eu relaxasse me dando um beijo no rosto.

Chegou nosso momento e com carinho ela disse “vem”. Entramos e o dj começou a tocar nossa música “el dia que me quieras” na voz de Luis Miguel. Peguei em sua cintura e nos olhamos fixamente. Começamos a dançar.

Por mais que eu não fosse um grande dançarino até então era assim que nos entendíamos melhor, dançando. Eu melhorara muito e consegui fazer tudo direitinho como ensaiamos. Camila, apesar de ser a dama, me conduzia para que eu não fizesse nada errado. Fui relaxando durante a apresentação e demos um show. Eu estava cada vez mais apaixonado e o grito de “eu te amo” sufocava meu peito querendo sair. 

No fim colamos nossos rostos e lágrimas saíram de meus olhos. Eu estava emocionado. Balbuciei obrigado enquanto ela respondeu “você foi maravilhoso” e ouvíamos os aplausos do público.

Nos viramos para agradecer e foi bacana ver tanta gente que eu gostava ali aplaudindo. Tive a impressão até de ver o Jessé.

Ficamos na expectativa do resultado que começou do terceiro lugar em diante. Faltava o primeiro lugar. Camila segurou a minha mão e apertou com força até que foi anunciado.

- Camila e Antonio!!

Camila me abraçou com força, muito feliz e me deu um beijo no rosto. Ela me puxou para o centro do palco para recebermos o troféu e um cheque enquanto todos nossos amigos invadiram o local para nos cumprimentar. Eu com o troféu na mão abraçava um a um e perguntava por Camila.

Aquele era o momento. Não tinha melhor. Estávamos felizes, unidos e ali era o momento certo de lhe dizer que amava.

Consegui me desvencilhar das pessoas e saí perguntando por ela até que encontrei.

A cena que vi também nunca mais saiu da minha mente. Mas ao contrário das citadas anteriormente aquela deixou meu corpo gelado. Foi como se o chão sumisse debaixo de mim.

Encontrei Camila beijando Guga. Sim, meu amigo Guga.

Eu não tinha reação. Me senti destroçado, destruído. Guga me viu e foi me abraçar dizendo “você é foda moleque!!”. Agradeci com sorriso amarelo e pegando na mão da mulher que eu amava ele disse “vamos para um restaurante, hoje é tudo por minha conta!!”.

O pessoal comemorou e foi saindo atrás de Guga. Um a um até que fiquei sozinho no palco. Bia voltou e perguntou se eu ia e respondi “já estou indo”. Ela sorriu e saiu.

E eu fiquei ali. Sozinho olhando em volta aquele lugar vazio. O meu coração igual. Vazio, mas ao mesmo tempo recheado de amor e tristeza.

A luz do palco parecia toda sobre mim e naquele instante uma lágrima rolou sobre minha face. Limpei o choro e caminhei até a saída.

Deixando ali toda minha esperança de ser feliz no amor.

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