quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

2014




E vamos ao último texto do ano..As últimas palavras que escrevo sem ser em redes sociais.

Já escrevi e publiquei a última coluna do ano do SRZD. No Ouro de Tolo até a primeira de 2015 já foi feita. Não tenho mais nenhuma peça ou livro pra escrever. Chegou a hora de olhar pra trás.

E ver que posso não ter feito tudo que eu quis, mas quem faz, não é verdade? Uma coisa pelo menos posso dizer. Fiz muito barulho.

É por nada não, mas eu causei em 2014 e não foi um ano qualquer. Se Deus permitir estar vivo daqui vinte anos farei a coluna “2014. O ano que não terminou”. Vocês têm noção da quantidade de coisas que ocorreram em 2014?

Copa do mundo no Brasil, humilhação diante da Alemanha, uma das maiores eleições de nossa história com morte de candidato e resultado apertado com o país tenso lhe esperando, mortes de pessoas queridas, corrupção, escândalos, Eua e Cuba virando amiguinhos, papa semeando a paz entre os povos e com outras religiões, aviões sumindo, terroristas matando via satélite, Pedro Migão reclamando no twitter, Luis Butti falando em Corinthians, ah não, essas coisas são normais..   

Mas enfim..Muita coisa ocorreu e eu não deixei barato.

Na verdade meu ano de 2014 começou em novembro de 2013 quando tive a ideia que revolucionaria a minha vida. Fazer caminhadas e mudar a alimentação. O resultado começou a aparecer logo em 2013 quando baixei de 110,5 kgs para 101,6 kgs no momento da virada de ano. Mas o “boom” foi em 2014.

Mexendo apenas um pouco na parte alimentar durante o ano e mantendo o foco nos exercícios cheguei a 74,9kgs no dia 19 de dezembro. Evidente que não pesarei em época de festas de fim de ano porque é sacanagem. Mas foram 35, 6 kgs que levantaram minha auto estima, fizeram com que me cuidasse mais, me vestisse e me produzisse melhor, batesse o recorde mundial de selfies e me fizesse bem como nunca me senti na vida.

Bem na parte estética e bem de saúde resolvendo probleminhas que eu tinha e poderiam virar maiores com o tempo. Me dando a chance de acompanhar com mais vitalidade o crescimento de meus filhos. Me senti saudável, bonito. Me senti feliz.

Filhos que passaram por um bom ano. A saúde parou de ser um problema para Gabriel como foi em 2013. O meninão chegou a um ano e quatro meses bonito, cabeludo, com sorriso de menino pidão, forte, grande e não dando mais sustos em hospitais.

Bia, a princesinha, chega perto dos seis anos esperta, amorosa, falante, cheia de carisma, de energia e de vida. Impossível não amar a Bia, se sensibilizar com as coisas que ela fala e o carinho que tem pelo irmão.

Tenho muita sorte com os filhos que tenho. Por terem saúde e pelo caráter que estão formando. A família vai aumentar. Michele está grávida novamente, mas dessa vez sou “só” padrinho. Que Maria Clara ou João Lucas venha com saúde.

Outra coisa que começou em 2013, mas se fortaleceu em 2014 foi minha relação com a Hellen. Começamos a namorar no fim do ano passado e hoje, mais de um ano depois, posso dizer que tenho uma vida sólida ao seu lado. Temos problemas como todos os casais tem, mas somos companheiros, cúmplices, amorosos um com o outro, cuidamos um do outro e passamos muitas barras juntos. Principalmente problemas de saúde dela e de sua família. Problemas que foram deixados pra trás.

Hellen foi uma grande companheira. Não foi apenas namorada, amante, mas amiga. A pessoa que sempre me jogou pro alto, melhorou minha estima, me fez amar seu jeito doido e me amar como citei em um texto em sua homenagem chamado “Um ano com ela”. Ela não me quer só pra ela, me quer bem pro mundo e faz questão disso me transformando em outra pessoa, uma pessoa melhor.

Me apresentou sua família linda de São Paulo, seus dois meninos maravilhosos, Miguel e Daniel, que viraram meus parceiros e esteve presente em todos os meus momentos de 2014.

Esteve presente como amigos também estiveram. Amigos de sempre como Cadinho, Bruno, Luis Fernando, Wagnão, Lobo Jr. Grandes amigos e parceiros que fiz no samba e amigos que se chegaram como Cesinha, João, Toninho, Felipinho, Marquinhos, Anderson  e Ronald. Gente da melhor qualidade. Vi meu irmão Roger Linhares ser campeão na União da Ilha e vi meu melhor rival, Gugu das Candongas brilhar. Esse escreve muito e merece. Gugu e Marquinhus são tão bons que consagram até quem nem sabe pegar numa caneta direito.

Ano que eu já desconfiava desde o ano passado, mas tive certeza que para ser grande amigo não precisa estar presente. Tenho vários amigos que só conheço na internet e entre eles destaco a Fernanda lá de Belém. Amiga sempre presente com quem converso, dou e recebo conselhos, mostro coisas que eu faço e olho projetos seus de faculdade e principalmente brinco com seu time de futebol. Tive a felicidade de conhecê-la em agosto e poder pessoalmente agradecer por essa amizade e camaradagem. Desejo tudo de bom pra você Fê. Uma das grandes amigas que já tive mesmo vendo tão pouco pessoalmente.

Amigos surgem, amores surgem, amigos se afastam, amores se afastam. Pessoas que eu achava primordiais em minha vida até 2013 viraram coadjuvantes em 2014. Não acho ruim, nem bom, faz parte da vida. Mas mesmo que haja afastamento e o contato diário não exista mais sempre serão importantes enquanto existir lembranças.

Assim como amizades e amores passam por ciclos prioridades de vida e projetos também. Durante 17 anos compor samba-enredo foi prioridade em minha vida. Em 2014 deixou de ser.

E olha que entrei bem no ano. Tinha acabado de vencer no Boi, no Dendê, ganhei os prêmios Ziriguidum e Elite do Samba com o samba do Dendê e me aproximava do centésimo samba composto. Talvez os fracassos das escolas que eu poderia vencer e a falta de política e condições financeiras para ir além em outras agremiações me desanimaram.

Acabei o carnaval com um projeto arrojado. Vendo o Boi da Ilha se afundando cada vez mais, chegando a ponto de dois dias antes do desfile seu presidente anunciar que não desfilaria e eu e Cadinho propormos desfilar apenas com um surdo marcando me veio uma ideia que pus em prática na hora que seu rebaixamento se confirmou.

O “Reage Boi” era um grande projeto. Criado primeiro no facebook o movimento contava com boiadeiros históricos e simpatizantes da agremiação que se uniram pra salvar a escola. A ideia de início era o afastamento do presidente. Mas ocorreu uma união com divisão do poder e da responsabilidade.

Ficamos apenas três meses na escola, mas foi o melhor momento do Boi nos últimos cinco anos. Fizemos uma feijoada que reuniu mais de 400 pessoas mesmo em dia nublado. A feijoada contou com muitas personalidades do samba como o presidente da Associação e o ex ministro Carlos Lupi. Criamos blog e twitter do Boi. Conseguimos parceria com a Portela e ganhamos muito material para desfile.

Fizemos reuniões on line, fizemos projeto de eleições on line onde sócio do Boi poderia votar pra presidente pela internet e o mais arrojado projeto de sócio torcedor de uma escola de samba que envolvia parceria com comércio e seria lançado em uma casa de festas luxuosa da Ilha do Governador.

Acertamos um enredo sobre os 50 anos do bloco Boi da Freguesia. Sinopse foi divulgada em primeira mão no blog da escola assim como prestação de contas. O Boi se modernizava, crescia e era favorito em seu grupo para subir. Mas o presidente se enciumou e com isso tudo ruiu.

Saímos da direção por quebra de acordo e fizemos oposição feroz por um tempo. Até que percebemos que o Boi seria prejudicado e nos afastamos de vez. Pelo menos até as eleições. O Boi agora agoniza sem quadra, com ensaios feitos em bar pra dez pessoas e tem futuro incerto.

O “Reage Boi” foi um dos fracassos mais bonitos que já tive e não trocaria por muitos de meus sucessos. Não trocaria pelo lado que “venceu”.

Voltei minha atenção pra composição de samba. Sem o mesmo ímpeto. Desde 1998 foi o ano que fiz menos sambas, dois, e devido a essa pouca quantidade não cheguei ao centésimo samba concorrente.

Também foi o primeiro ano desde o carnaval de 2000 que não ganhei nenhum concurso de samba. Fiz semifinal na União da Ilha, meu melhor resultado em três anos e final no Dendê. Só. Mesmo com todos os problemas no Boi tive proposta para vir na parceria a qual o samba da escola foi encomendado. Mas preferi acabar o ano sem vitória que me vender.

Até porque a maior vitória no samba veio em dezembro. O reconhecimento por minha história nele. Através do compositor, ex presidente do Boi da Ilha e grande amigo Cadu fui convidado a integrar a equipe de colunistas do portal SRZD. Um dos grandes portais de notícias do Brasil com mais de sete milhões de visitas por mês e o maior de carnaval.

Me juntei a alguns dos grandes nomes do carnaval como o próprio Cadu, Laíla, Leci Brandão, Noca da Portela, mestre Odilon, Cláudio Francioni e tantos outros pra falar de samba. Em dezembro comecei a fazer cobertura dos ensaios técnicos pro site sempre gravando no fim minhas opiniões sobre os sambas e é incrível a repercussão das coisas que digo ou escrevo. A ponto de gente importante marcar gente importante pra ver o que eu disse.

Curioso que justo no ano que não venci nenhum samba venha o maior reconhecimento.

Curioso que no ano que não venci sambas tive quatro peças encenadas. Tive meu nome como dramaturgo levado a Ribeirão Preto e Curitiba. Fui encenado em São Paulo e no Rio de Janeiro, os dois maiores centros culturais do país.

Vi gente que nunca tinha visto na vida pegar com carinho e dedicação textos como “Eu matei Nelson Rodrigues”, “Folhetim”, “Cerimônia de Casamento” e “O descobridor dos sete mares” e encenar. Essa é uma conquista que também vem de 2013 com as seis primeiras apresentações de “Eu matei..”. Em 2014 a peça foi apresentada mais quatro vezes. Uma no Rio de Janeiro em minha estreia como produtor junto com a Hellen e com grande ajuda do magnífico ator Evandro Rocha. Outra grande figura que se chegou em 2014.

A apresentação foi um sucesso com presença de figuras importantes da Ilha do Governador e arrecadação de alimentos pra entidades do bairro. 

Estudantes de teatro de outras cidades me encenaram e pediram autorização para encenar peças minhas o que muito me honrou já que se escolas de teatro me encenam, eu que nunca estudei teatro profissionalmente, é que alguma coisa eu sei fazer. Fui encenado oito vezes em 2014. Quatro cidades diferentes e duas regiões do Brasil.

Minhas postagens no Ouro de Tolo fizeram sucesso. Em 2015 completo quatro anos no blog ganhando mais uma coluna. Meu blog se consolidou também com um público fiel. Não deve ser o ano que mais escrevi, mas talvez seja o ano que escrevi com mais qualidade.
Algumas histórias como “Dona Carola”, “Confissões de uma velha senhora” e um stand up já nasceram com gente querendo encenar. Peças como “O povo contra Aloisio Villar”, Cabra cega”, “A justiça dos homens” e “A república” me fizeram sentir mais a vontade escrevendo e sobre coisas densas. Tudo isso ajudado pelo sucesso de “Eu matei Nelson Rodrigues”.

Fiz apenas dois livros. Um está quinzenalmente com seus capítulos sendo colocados aqui, se chama “Amor” e foi desenvolvimento de uma história que criei em 1991. Outro foi recente. Se chama “O reino encantado”. Minha primeira experiência infantil que dediquei a Bia e Gabriel.

Muitos projetos. Muitas ideias na mente querendo ganhar folhas em branco e outros prontos para ganharem palcos. O ano de 2014 me fez ter a certeza que isso que eu quero pra minha vida. Criar.

Não sei como será 2015. Não tenho dado muita sorte com anos que acabam em 5 e 2015 representa os 10 anos da morte de minha mãe. Mas eu sabia que essa data chegaria um dia e estar bem, crescendo é a melhor forma que tenho pra homenageá-la.

Não peço muita coisa pra 2015. Não peço nada mirabolante. Apenas que a curva ascendente continue. Que a boa fase que se iniciou em novembro de 2013 continue naturalmente trazendo tudo que tem que trazer.

Coisas boas e ruins ocorrerão em 2015. Que eu tenha maturidade para encarar as duas.

Essa é a última postagem de 2014 e o blog entra em recesso até meados de fevereiro. Até lá farei retrospectivas de 2014. Queria agradecer a todos que acompanharam o “Trocando em miúdos” ao longo do ano. Que curtiram os contos, livros, as sessões como “O clube dos 23”, “Sobe o som”, “Cineblog” e o mais recente “Trocando em versos”.

Agradecendo as pessoas dos cinco continentes que me visitaram. Chegamos em dezembro ao recorde do ano, sete mil visitações. Foram 216 textos de todos os tipos. Humor, drama, romance, música, poesia, literatura, teatro, crítica, cinema, futebol, carnaval. Um pequeno retrato da vida

Agradecer a quem também me acompanhou por outros blogs, sites, redes sociais ou pessoalmente. A quem torceu a favor e contra também porque se a pessoa se preocupou em canalizar energia negativa pra mim é que sou importante.

A vaia é o aplauso envergonhado.

Obrigado a todos que cruzaram minha vida esse ano e fizeram de meu ano tão especial. Um agradecimento especial a “gerente de lojinha” Hellen com todo meu amor, afeto e carinho.

Do mais agradecer a esse grande ano de 2014. Suas vitórias, fracassos e aprendizados. Viver é isso. É saber passar por um dia de cada vez e eu soube passar por 2014.

Pode vir 2015.

Gol da Alemanha.


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terça-feira, 30 de dezembro de 2014

A GAROTA DO PARÁ


*Conto publicado na coluna "Buraco da fechadura" do blog "Ouro de Tolo" em 30/11/2013


Não sei se vocês lembram da Bia, a menina que arrasou o coração do Jean em Curitiba. Enfim, ela voltou ao Rio de Janeiro, nunca mais teve contato com o pobre menino apaixonado e namorou só algumas semanas, com o Anderson desmanchando.

E a vida prosseguiu, como a vida de todo mundo. A menina foi crescendo, estudando, namorando, se divertindo, indo a Curitiba ver a avó, até que a senhora veio a falecer, e se formou na faculdade em Relações Públicas.

Naquele período, já namorava Heitor, que curtia mais a malandragem, largou faculdade, estudos e tocava cavaquinho na escola de samba União da Ilha, vivendo de shows e da renda da família.

Apesar de se darem muito bem, principalmente na cama, a “boa vida” do rapaz era motivo sempre de brigas. Bia ameaçou várias vezes largar o músico se ele não arrumasse emprego fixo, e o malandro tentava enrolar e desconversar.

Até que uma vez ela cumpriu a promessa e desmanchou o namoro. Heitor ficou louco, desesperado com a ameaça de perder a Bia pra sempre e fez de tudo para reconquistá-la. Fez música para a amada cantando para ela em serenata, contratou carros de mensagens para ela, comprou e deu de presente um perfume caro que ela tanto namorava e nada. Bia continuava impassível e determinada a não voltar.

Até que Heitor resolveu radicalizar e aceitou arrumar emprego.

Batalhou um pouco e chegou um dia todo feliz na porta de Bia. A moça abriu a porta de casa perguntando o que ele queria e Heitor contou alegre que tinha arrumado um emprego. Bia se surpreendeu e pediu que o músico entrasse e contasse direito aquela novidade e Heitor contou novamente que arrumara um emprego.

Bia, espantada, perguntava em que, e Heitor respondeu como “sushiman”. Ela riu e comentou que ele mal sabia passar uma manteiga no pão e o malandro indignado respondeu que ela não conhecia mesmo suas habilidades.

A moça se sentiu culpada e pediu desculpas ao amado pela desconfiança e fez um carinho em seu rosto. Heitor ainda resmungando perguntou se estava perdoado e eles podiam voltar.

Bia fez cara de “não sei” e Heitor com jeito de cachorro que caiu da mudança pediu uma segunda chance. 

Bia deu um sorriso, abraçou e beijou o novo “sushiman” reatando o namoro.

O rapaz parecia se esforçar mesmo continuando a tocar cavaco pela União da Ilha e Bia passou a confiar em um futuro conjunto. Noivaram e marcaram casamento.

No dia do casório, entrou emocionada na igreja e Heitor, com um sorriso nos lábios, esperou a amada no altar. Ele desceu, recebeu Bia de seu pai e se viraram para ouvir o padre.

O clima era de muito amor e emoção na igreja até a parte em que o padre perguntou se alguém era contra aquele casamento e uma voz feminina gritou “eu!!”.

Todos espantados olharam e uma mulher entrou com uma criança no colo e dois lhe puxando a saia dizendo que não podiam casar porque Heitor já era casado e era pai de seus filhos.

O coro de “oh!!” foi ouvido na igreja e Bia perguntou que história era aquela. Heitor sem graça contou que aquele era um pequeno detalhe de sua vida que nunca tinha contado e a mulher gritou que não era o único detalhe, o rapaz não era sushiman coisa nenhuma e trabalhava em um cassino clandestino.

Mais “oh!!” foi ouvido na igreja enquanto Bia furiosa olhava para Heitor, que deu um sorriso e disse “tudo isso é menor quando e existe amor e o que importa é que a gente se ama”. Bia pegou o buquê, enfiou na boca de Heitor e foi embora furibunda da vida da igreja.

A garota triste parecia se entregar a depressão e os pais pensavam em alguma maneira de animá-la, a mãe teve a ideia de irem a Belém participar do Círio de Nazaré e o pai gostou da solução.

Contaram a novidade a Bia, perguntando se ela queria ir junto. Perguntar a Bia se ela queria viajar era a mesma coisa que perguntar a uma criança se ela queria doce. Bia vibrou e convidou duas amigas, Day e Maju, para irem junto.

O Círio de Nazaré, em devoção a Nossa Senhora de Nazaré, é a maior manifestação religiosa Católica do Brasil e maior evento religioso do mundo, reunindo cerca de seis milhões de pessoas em todas os cultos e procissões e conseguindo congregar dois milhões de pessoas em uma só manhã.

E no segundo domingo de outubro estavam lá segurando a corda que protegia a santa e sua berlinda cantando em homenagem a Nossa Senhora de Nazaré. Depois os pais de Bia aproveitaram para participar da romaria fluvial enquanto Bia e as meninas foram conhecer a cidade.

As meninas aproveitaram para conhecer as comidas típicas da região. Experimentaram o pato no tucupi, a maniçoba e o tambaqui. Foram até o mercado “Ver-o-Peso” consumir doces e sorvetes como Bacuri e Taperebá. Bia louca para consumir Cupuaçu rodou Belém toda desesperada atrás da iguaria e estranhava que todos olhavam para ela enquanto passava.

Até que descobriu estar com a saia rasgada e com a bunda de fora. A moça de início ficou constrangida, mas depois caiu na gargalhada feliz como há muito não ficava. Bia começava a afastar o fantasma de Heitor.

Voltaram ao Rio de Janeiro, mas Bia tinha planos de voltar ao Pará para aproveitar mais aquela cidade hospitaleira que lhe fez tão bem. Retomou sua vida trabalhando bastante, tendo alguns namoricos e combinando com as meninas voltar no meio do ano seguinte à Região Norte.

O tempo foi passando. Veio o Natal, Ano Novo, Carnaval, Páscoa e finalmente a nova viagem ao Pará. Dessa vez estavam sem os pais da moça tendo mais liberdade para passearem. Foram a Belém conhecendo o lado cultural da cidade e depois emendaram ida até a Ilha de Marajó.

Bia sempre gostou de dançar e lá conheceu o Carimbó e o Lundu Marajoara. Aprendeu rapidamente as danças e as meninas também aproveitaram que era época de festa junina.

Saíram do hotel e logo notaram os foguetes explodindo no céu anunciando que era noite de Santo Antônio. Uma grande fogueira foi montada e quadrilhas dançavam ao som de alegres sanfonas.

Day bebia cachacinha da terra, Maju comemorava que sem os pais de Bia facilitava para que elas dessem uns beijos na viagem e a Bia só queria saber de dançar. Já aprendera o carimbó direitinho e não queria saber de outra vida.

Até que de repente apareceu um homem muito bonito e elegante com terno, chapéu e um sorriso de derrubar qualquer uma.

Sua pele era bronzeada, seu andar como de um dançarino e logo o homem chamou a atenção de todas as mulheres da festa. Day parou de beber na hora, cutucou Maju que perguntou “Meu Deus, que homem é esse??”.

A única pessoa que não percebeu foi Bia, que continuava dançando.

O homem passou andando por entre as pessoas que dançavam e não conseguiam deixar de notar sua presença. Alguns caras se irritaram e cutucaram suas acompanhantes que só faltavam babar em cima dele e ele continuou andando até chegar perto da Bia.

De um relance só pegou a moça para dançar. Ela, que estava de costas furiosa, se virou pronta pra dar um tapa na cara e reclamar do sujeito, mas quando viu aquele homem de terno e chapéu não conseguiu ter reação nenhuma. O cara era um “Deus” da dança e com um pequeno sorriso nos lábios rodopiava a carioca enquanto todos paravam pra olhar.

Bia não conseguia dizer nada, só dançava e olhava aquele homem lindo. Dançaram por alguns minutos que pareciam uma eternidade e no fim todos aplaudiram a performance. O homem beijou a mão da Bia e se virou indo embora.

Bia ficou ali no meio da pista em estado catatônico enquanto Day e Maju correram a seu encontro perguntando quem era aquele “Deus”. Bia finalmente conseguiu falar algo e olhando na direção que o homem percorreu disse que não sabia. Maju não acreditou muito e falou que certamente se conheciam, pois, dançaram com uma intimidade e um furor sexual que só a intimidade traz e Bia ainda em estado de choque jurava que não.

No dia seguinte Day e Maju arrumavam as malas para voltarem ao Rio quando Bia entrou no quarto e pediu para que ficassem mais um tempo por lá. Day argumentou que não dava, se programaram apenas pra ficar aqueles dias e Bia insistiu que ficassem até o São João.

Maju contou que não tinha como, elas não tinham dinheiro para tanto e Bia praticamente implorando respondeu que ajudava as meninas a pagar as hospedagens, mas ela tinha que ficar mais alguns dias ali. Day e Maju que estavam de férias no trabalho então não tinham esse problema se olharam e responderam que tudo bem com Bia lhes abraçando.

Day perguntou se aquilo tudo era por causa do homem misterioso que aparecera na noite seguinte e ela respondeu que sim, precisava saber quem era aquele cara e o que ele queria com ela.

As meninas contaram que apoiavam Bia nessa busca e assim as três amigas foram à caça.

Em todos os lugares que iam prestavam atenção para ver se o homem aparecia. O lugar nem era tão grande assim, mas a impressão que dava era que ele tinha sumido como fumaça. Não deixou vestígios, pistas nada.

Bia se lamentava e falava que nunca mais conseguiria encontrá-lo, pois, iriam embora logo após o São João e Day respondia para ela não desanimar porque já que conhecera em um festejo talvez lhe encontrasse em outro.

Os dias se passaram e nada realmente de encontrar até que chegou a festa de São João e assim a esperança renasceu.

Bia dançava com as amigas atenta a tudo que ocorria até que uma delas cutucou dizendo “olha”.

Era o homem. Elegante em terno e chapéu como da outra vez e parecia cada vez mais lindo. Novamente foi abrindo passagem e passou por Day e Maju pegando na mão de Bia para dançar.

Dançaram como da outra vez e Bia parecia se sentir nas nuvens. Estava completamente louca, apaixonada por aquele homem e não sabia nada sobre ele, queria ficar com ele pra sempre, necessitava ser sua.

A música acabou e novamente ele tentou se despedir. Bia segurou firme seu braço e disse “vem comigo”. 

Levou o homem até o bar pediu dois copos com cachaça e pediu que ele falasse um pouco sobre sua vida, quem ele era.

O homem bebeu a cachaça e viu um casal se aproximando com a esposa falando “para” e o marido gritando “hei, você”. Quando Bia olhou para o lado o homem havia desaparecido e ela não tinha a mínima ideia de pra onde foi.

O tal marido esbravejando perguntou a Bia se ela conhecia aquele safado e ela respondeu que não então ele disse que o tal homem elegante havia engravidado sua esposa e que aquilo não ficaria assim, lhe pegaria mais cedo ou mais tarde.

Saiu puxando a mulher enquanto Maju dizia que Bia escapara de boa porque aquele era tão safado quanto Heitor.

Bia virou para as amigas e pediu para ficarem mais alguns dias. Day perguntou se ela era louca e se não havia acabado de ouvir o que aquele homem falou e ela respondeu que não interessava implorando para que as amigas ficassem.

Maju respondeu que não dava, pois, voltariam ao trabalho na segunda e Bia resignada respondeu que tudo bem, elas voltariam para o Rio, mas ela ficaria até a festa de São Pedro.

As amigas falavam que ela estava maluca, iria perder o emprego, mas Bia enfeitiçada respondeu que não importava, queria saber quem era aquele homem.

Day e Maju foram embora e Bia ficou lá sozinha trancada no quarto do hotel olhando pela janela esperando o dia chegar e chegou. Ela sentada no bar esperava o homem aparecer até que ele surgiu.

Bia foi até a ele que fez sinal para que lhe acompanhasse. A moça perguntou se ele não lhe chamaria para dançar e o homem andou em direção a floresta se virando e chamando por ela com o dedo.

Bia sem medo acompanhou e eles foram até a beira do rio. Ele deu um sorriso para ela e pulou na água. Bia olhou por alguns segundos, fechou os olhos e pulou atrás.

Algum tempo depois um boto foi visto dando um salto na água. Bia nunca mais foi vista.

Achou seu amor no Pará, no fundo de um rio.


segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

2015 NA BOLA DE CRISTAL




Janeiro

Horas depois da virada ninguém lembrará quem venceu a São Silvestre

Vai sumir um avião em algum lugar

BBB vai começar com algumas gostosas, um gay, um cowboy e uma garota chamada Juliana

Depois da terceira derrota seguida no estadual Eurico dirá que o importante é vencer o Flamengo

Algum petista se meterá em corrupção

Vai fazer um calor do cacete

Pedro Migão reclamará de algo no twitter

E Luis Butti falará de Corinthians

Fevereiro

Vai fazer um calor do cacete

Grande Rio será apontada favorita do carnaval

Vão reclamar muito da transmissão da Globo

Beija-Flor será campeã
Beija-Flor não será campeã. Laíla reclamará do resultado e vão trocar todo o júri.

Vai sumir um avião em algum lugar

Algum petista se meterá em corrupção

Alguma dança esquisita com letra vaga e cheia de consoantes fará sucesso no carnaval de Salvador e ganhará o Brasil

Pedro Migão reclamará de algo no twitter

E Luis Butti falará de Corinthians

Março

Pela 25° vez na Libertadores o Atlético virará uma classificação no Independência e a torcida gritará “Eu acredito”

Depois do calor do cacete virá uma chuva do cacete

Vasco cai pra segunda divisão do carioca e Eurico dirá que o importante é vencer o Flamengo

Felipe Massa dá declaração otimista “Esse ano serei campeão”

Felipe Massa acabará em 12° na corrida de estreia, mas otimista diz “é só o começo”

ESPN perde a transmissão do torneio de porrinha pro canal do boi

Alguém que só fanático lembrará cinco minutos depois vencerá o BBB
Vai sumir um avião em algum lugar

Pedro Migão reclamará de algo no twitter

E Luis Butti falará de Corinthians

Abril

Reviravolta no BBB. Fluminense entra na justiça como terceiro interessado e mela o resultado.

Algum petista se meterá em corrupção

Botafogo fecha com Felipe, neto de 8 anos de Zico, para ser seu camisa 10.

Depois de três corridas e nenhum ponto Felipe Massa diz que temporada só ta no começo

Algum avião sumirá em algum lugar

Flamengo é campeão carioca com gol impedido e de mão aos 57 do segundo tempo e da cadeia goleiro Bruno diz “assassinado e esquartejado é mais gostoso”

Tvs mostrarão shoppings cheios de pessoas atrasadas comprando ovos de chocolate

Pedro Migão reclamará de algo no twitter

E Luis Butti falará de Corinthians

Maio

Gastarei uma grana violenta com aniversário da Bia

Um tetraplégico acaba na frente de Felipe Massa no grande prêmio de Uganda e ele dirá que temporada só está começando

Beija-Flor anunciará enredo exaltando a ditadura da Coréia do Norte

Portela falará sobre o Rio de janeiro

Vasco perde a oitava seguida no brasileiro, mas Eurico diz que o importante é vencer o Flamengo.

Um avião sumirá em algum lugar

Pedro Migão reclamará de algo no twitter

E Luis Butti falará de Corinthians

Junho

Vai ter copa América. Mas ninguém ta nem aí pra ela.

Algum petista se meterá em corrupção

Dólar chegará a 10 reais. Inflação a 300% ao dia e Dilma dirá que a economia está sobre controle.

Destroços de um avião serão achados dentro da Petrobras e Veja dirá que Dilma e Lula sabiam

Eu e Hellen entraremos no Guiness Book no dia dos namorados como recordistas mundiais de selfies em portas de cinema

Felipe Massa perde por pouco para um cágado na F1 e diz que as coisas estão melhorando

Alemanha faz mais um gol no Brasil

Pedro Migão reclamará de algo no twitter

E Luis Butti falará de Corinthians

Julho

Entre os 20 clubes da série A o Vasco alcança o 21° lugar, mas Eurico diz que o importante é vencer o Flamengo.

Neto de Zico entra na justiça pedindo rescisão com o Botafogo alegando três meses de atrasos na merenda.

Fluminense rescinde com Guaravitton e assina com Angu do Gomes.

Algum petista se meterá em corrupção.

Dólar chega a 1500 reais, inflação a 1510, 1512, 1515 inflação aumenta a cada segundo, mas Dilma diz que está sob controle.

Funk e axé serão os maiores sucessos das festas juninas cariocas

Um avião sumirá em algum lugar

Pedro Migão reclamará de algo no twitter

E Luis Butti falará de Corinthians

Agosto

Mesmo dizendo o ano todo que não faria samba eu faço

Polêmica na União da Ilha. Cachorro de um diretor coloca samba. Diretor diz que não se meteu na feitura e cachorro é talentoso.

Polêmica na União da Ilha (2). Franco através da psicografia coloca samba na escola.

Rafael Rafic e Pedro Migão elegem o samba concorrente de Luiz Carlos Máximo o melhor da história do carnaval.

Algum petista sumirá em algum lugar

Algum avião se meterá em corrupção

Flamengo perde reforço para o ASA de Arapiroca e presidente Bandeira de Mello diz que o clube não fará loucuras

Pedro Migão falará de Corinthians

E Luis Butti reclamará de alguma coisa

Setembro

Meu samba será cortado e eu direi que não quero mais saber de samba

Mãe Dinah irá ao programa de Gugu através de psicografia e dirá que previu a própria morte.
Fernanda Jardim, vulgo Capitu, baterá recorde mundial ao transar com 437 homens e um jumento ao mesmo tempo.

Vasco será rebaixado a segunda divisão do brasileiro com três meses de antecedência e Eurico dirá que o importante é vencer o Flamengo

Cachorro poodle é contratado pelo Botafogo para ser seu novo camisa 10

Algum avião sumirá em meio a obras super faturadas para as Olimpíadas

Algum petista se envolverá em corrupção com  as obras super faturadas das Olimpíadas

Pedro Migão reclamará de algo em relação as obras super faturadas da Olimpíadas

Luis Butti falará das obras super faturadas da Arena Corinthians

Outubro

União da Ilha junta samba de Franco com do cachorro e uma faixa é estendida em camarote da escola “Pra ser franco, mesmo depois de morto continuo não gostando”

Fluminense rompe com Angu do Gomes e assina com Borracharia Dois Irmãos

Cláudio Russo ganha 37 sambas, André Diniz 42, mas eles negam que sejam sambas de escritório alegando que apenas ajudam amigos.
Dilma acaba com o Real, lança o Ilusório e corta três zeros da moeda.

Petista é flagrado em aeroporto com ilusórios dentro da cueca.

Avião não desce nesse aeroporto e é dado como desaparecido

Pedro Migão reclamará de ilusórios no twitter

E caindo na real depois da quinta derrota seguida Luis Butti muda sua arroba para @desculpamano

Novembro

Depois de mais um fracasso no brasileiro e superávit financeiro Flamengo decide acabar com o futebol e virar um banco.

Baba ovos comandando pelo blogueiro oficial comemoram e conclamam os rubro-negros a abrirem contas no banco.

Começa o The Voice cheio de gente cantando em inglês, uma sapata com cara de Maria Gadu e um cantor mudo selecionado por Claudia Leitte.

Na última corrida do ano Felipe Massa marca seu primeiro ponto e diz que a temporada só está começ..ops..acabou

Cruzeiro é campeão brasileiro com monte de jogadores que ninguém conhece e nem quer conhecer no intervalo de seu último treino recreativo.

Adoradores do mata mata reclamam e pedem a volta dos pontos corridos.
Goleiro Bruno declara que é a favor do mata mata e do esquarteja esquarteja

ESPN perde torneio de sósias de José Trajano para a tv desligada.

Medina perde campeonato no WCT e é hostilizado por brasileiros que lhe chamam de acabado.

PSDB deixa de ser partido político e vira programa de humor.

Algum petista se envolverá no programa de humor do PSDB.

Algum avião sumirá no programa de humor do PSDB.

Pedro Migão reclamará do programa de humor do PSDB

E Luis Butti dirá que o Corinthians é mais engraçado

Dezembro

Fará um calor do cacete

Kid bengala lançará o “pau na selfie”

Mark Zuckerberg compra o XVídeos e vira oficialmente o dono do mundo

Vasco derrota Flamengo do Piauí em amistoso e Eurico vibrará “isso que é importante”

Cachorro poodle pedirá rescisão com o Botafogo por atraso na ração

Danilo Gentili falará a milésima merda do ano e dedicará as criancinhas

Tragédia no mundo sertanejo. Luan Santana é encontrado vivo em casa.

Cd da Simone tocará bastante

Vai passar Esqueceram de mim na tv

A Globo fará chamada de fim de ano com seus artistas fingindo alegria

O cantor mudo vencerá o The Voice

Algum petista sequestrará Papai Noel

Programa de humor do PSDB sairá do ar e Lobão reunirá 150 pessoas na Paulista para protestar

Veja dirá que manifestação foi um sucesso

Um avião cairá em um cemitério em Portugal. Acharão 1800 corpos.

Pedro Migão reclamará no twitter

Luis Butti falará de Corinthians

Se eu estiver inspirado vou escrever mais uma merda dessas para prever 2016

Mas vou prometer que não farei samba.


TROCANDO EM VERSOS: ORUN AYE


*Pra encerrar a "Trocando em versos" em 2014 nada melhor que a coisa mais importante que escrevi até hoje contando letras, peças, livros e crônicas.

Orun Aye. Samba do Boi da Ilha de 2001 escrito em parceria com Paulo Travassos, Clodoaldo Silva, Silvana da Ilha e Roger Linhares. Estandarte de Ouro em 2001 de melhor samba do grupo A. Considerado um dos melhores sambas de enredo do século XXI.



Vem do Orun
A ordem do divino criador
Para ser criada a Terra
E viver em paz sem guerra
Olorun abençoou
Oxalá, orixá de confiança
Cai na sede da vingança
Não cumpriu sua missão
Exu que é o bem e a maldade
Usa sua ambiguidade
Faz mudar a direção

Odudua vá falar com Orumilá
Consulte o oráculo de Ifá
Não se esqueça da oferenda
Não tenha vaidade
A nossa força vem da humildade

Vejo, os meus filhos em seu caminhar
Elementos irão se formar
Nasce a vida do ventre de Aye
É Nagô, essa beleza é você Nagô
Que mostra um mundo de esplendor
Em uma linda história de amor

Hoje peço paz, saúde,  felicidade
Brindaremos ao futuro nesse dia
Faça sua festa com o Boi da Ilha


ARQUIVO:

JESUS DE NAZARÉ

domingo, 28 de dezembro de 2014

AMOR: CAPÍTULO VII - O CASAMENTO




Passei horas ali naquelas pedras, enxuguei as lágrimas e decidi voltar para casa. Deixei um e-mail para minha mãe, peguei todas as economias que tinha e na manhã seguinte parti.

Sim. Parti. Abri mão da sociedade pedindo desculpas a Samuel. Fui até a via Dutra e comecei a pedir carona com uma mochila nas costas. Depois de um tempo pedindo um caminhoneiro parou e me ofereceu ajuda.

Entrei e ele perguntou para onde eu ia. Devolvi a pergunta e ele respondeu “Bahia”. Sem pensar duas vezes emendei “Eu também”.

Sim, era loucura. Sim, fiz sem pensar. Sim, eu precisava fazer alguma coisa com a minha vida. Podem imaginar que foi uma fuga e eu respondo, foi mesmo uma fuga. Mas eu precisava daquilo.

Precisava me livrar daquela loucura que a minha vida se transformava. Precisava me livrar daquela areia movediça que me tragava. Sim. Precisava me livrar de Camila.

É duro dizer isso de alguém que é tão importante para a gente, da mulher que amamos, mas era necessário. Camila gostava muito de mim, mas como amigo e não tinha a sensibilidade para perceber o quanto eu a amava e sofria ao seu lado com toda aquela situação. Ela amava a Guga. Não a mim.

Só esse fato era capaz de explicar que ela tivesse preferido um cara irresponsável, que deu a mínima para ela em um momento tão difícil do que a mim que esteve ao lado dela todo aquele tempo.

É. Talvez o problema fosse esse. Eu estava muito a mão. As pessoas precisavam sentir falta de mim.  

Camila precisava sentir falta de mim.

Parei na Bahia com aquele caminhoneiro sem nunca ter estado ali e ter a mínima ideia do que fazer. Como cheguei de madrugada dormi em um praça e no dia seguinte acordei com o Sol de Salvador sobre meu rosto me dando bom dia.

Peguei mais uma carona e parei no litoral. Batendo de porta em porta tentando arrumar um trabalho antes que minhas economias acabassem acabou que virei pescador.

É. Pescador. Eu, um garoto carioca, desajeitado que nem comer peixe comia estava no mar com outros jogando rede e tentando fisgar alimento que serviria aos locais e me daria dinheiro.

Não deu muito certo e mesmo com aquela Lua maravilhosa que eu via todas as vezes que ia dormir em uma rede na varanda de uma família que me abrigou eu sabia que tinha que partir.

A Lua..a Lua refletindo naquele mar lindo parecia descrever o rosto de Camila.

Saí da Bahia e fui subindo o Brasil chegando a Belém. Lá acabei arrumando trabalho no mercado Ver-o-Peso vendendo carne. Todas as manhãs ajudava a descarregar caminhão e levar até a banca. Pegava duro, ralava bastante, nem eu me reconhecia.

Apesar de não estar acostumado com tanto sacrifício, pegar no pesado, acordar cedo, estar longe das pessoas que eu amava sabia que era necessário. Eu me sentia ainda muito garoto, muito protegido. Precisava virar homem.   

Em Belém arrumei namorico com uma linda “nativa” e assim foi em cada cidade que passei. O rapaz tímido que sempre fui tentava aos poucos conhecer as mulheres e se conhecer melhor. Eu precisava entender quem eu era para assim poder entender melhor o mundo e a minha vida.

Não conseguia ficar muito tempo em nenhuma cidade e de tanto rodar, principalmente pela região Norte do Brasil acabei parando em uma aldeia indígena.

Sim. Aldeia indígena. Acabei passando três meses em uma reserva indígena andando quase pelado e convivendo com sua cultura e costumes. Sentia uma paz imensa, contato com a natureza que nunca tivera.

Mas ainda sentia saudades.

Saudades da minha família. Saudades de Camila. Pelo menos uma vez por semana ia até a cidade mais próxima da aldeia e entrava em uma lan house. Passava pelo menos uma hora lá falando por vídeo com minha mãe, Samuel e Bia.

Perguntava como eles estavam e contava as novidades sobre minha vida. Evidente que eles se assustavam e não acreditavam nas coisas que eu dizia. Contavam sobre suas vidas e parecia tudo na mesma a exceção de Samuel que começara a namorar e pelo jeito a coisa era séria.

Nunca perguntava por Camila e Guga apesar de ter uma vontade enorme de perguntar como ela estava. Uma tarde eu estava na lan conversando com Bia e pra minha surpresa ela disse “advinha quem está aqui hoje?”.

Era Camila.

Muitos meses que não via seu rosto, nem foto sua eu levara nessa minha aventura e assim que vi seu rosto no vídeo meu coração congelou, acelerou, eu nem sei direito o que ocorreu. Suando gelado desconectei o computador dando a impressão que a conexão caíra.

Ver Camila mexeu comigo, me incomodou demais. Eu achava que com aqueles meses fora teria controlado todos os meus sentimentos e me tornado dono da situação, mas ali vi que estava me enganando.

Naquela madrugada peguei minha trouxa  e decidi ir embora da aldeia. Cruzei a fronteira pela floresta Amazônica e comecei um pequeno tour pela América do Sul.

Um dia barbado, um pouco mais forte e encasacado me protegendo do frio em uma montanha de Cusco no Peru eu via monumentos perdidos da civilização Inca quando do nada decidi que era hora de voltar.

Estava um ano fora do Rio de Janeiro e só naquela montanha percebi que o Rio de Janeiro nunca saíra de dentro de mim.

Desci da montanha e fiz o caminho de volta pegando caronas até voltar pra casa.

Cheguei na casa de Dona Hellen e seu Pinheiro tarde da noite. Deixei a mochila no chão e bati palmas. Depois de um tempo minha mãe abriu a porta e abriu um largo sorriso ao perceber minha presença. Abriu o portão e antes que me abraçasse o cachorro da casa saiu em disparada pulando em cima de mim e me lambendo todo.

Era bom me sentir querido.

Entrei, tomei um belo banho como há muito tempo não tomava e botei uma roupa limpa, confortável e cheirosa como há muito também não vestia antes de comer o maravilhoso bolo de fubá da minha mãe com refrigerante.

Dona Hellen empolgada me fazia um monte de perguntas sobre como foi meu ano e eu sem sentir cansaço apesar da longa viagem contava. Pinheiro apenas me olhava sorrindo e em determinado momento minha mãe se despediu indo deitar.

Pinheiro continuou me olhando e eu desconcertado com o olhar perguntei se ele tinha alguma pergunta a fazer. Ainda sorrindo meu padrasto perguntou “Decidiu parar de fugir?”.

Respondi que não sabia do que ele falava. Pinheiro levantou e disse “Não adianta você fugir, ir até o outro lado do mundo se o problema está aqui” apontando para o meu coração.

Pinheiro se encaminhava para o quarto e antes de entrar virou e disse “ficar na asa da sua mãe também adianta nada, você tem que voltar para sua vida”.

Entendi o recado. No dia seguinte me despedi dos dois e voltei para o apê.

Fui recebido com uma grande festa por Samuel, Bia e toda a galera. Eu que não era de beber até que bebi um pouco e deitei feliz e exausto na minha velha cama. Botei meu velho som para tocar quando bateram na minha porta.

Abri e era ela. Camila.

Tomei um susto vendo a mulher que eu amava ali, depois de um ano e Camila indignada nem me deu bom dia perguntando “Como você some do nada, comigo internada em um hospital, fica um ano fora, volta e não fala comigo?”.

Respondi apenas “bom dia” e ela continuou exigindo satisfação minha. Respondi que ela não estava mais internada quando viajei, eu vira o momento em que ela saiu com a família e Guga. Camila tentou se explicar e respondi que ela não me devia satisfações assim como eu não devia a ela.

Camila se assustou com aquela minha reação. Disse que eu estava mudado e apenas respondi que um ano, um dia ou um ato eram tempo suficiente para mudar uma pessoa.

Ela olhou pra mim com lágrimas nos olhos, percebeu o som ligado e perguntou se poderíamos ouvir Raspberries. Respondi que não tinha mais a música, tinha deletado então a menina abaixou a cabeça dizendo que era melhor ir embora.

Camila foi embora e eu não disse uma palavra para evitar aquilo. Assim que me vi sozinho coloquei Raspberries, deitei e comecei a chorar.

Nada tinha mudado. Eu era o mesmo e meu amor também.

No começo Camila ainda tentava aproximação comigo, mas meu jeito frio acabou fazendo que ela se afastasse aos poucos. Eu via a mulher que eu amava e Guga cada vez mais próximos e nada podia fazer, não tinha forças para aquilo. Eu que achava que me tornara um cara super seguro e esperto com minhas andanças descobri ali que permanecia o mesmo cara bobo e tímido.

Pelo menos perto de Camila.

Então decidi me afastar de vez dela. Acabei que por tabela me afastei de meus amigos fiéis fazendo novas amizades. Decidi voltar a ser DJ, mas sem sócios e passei a varar as noites em farras e bebedeiras. Sim, começava a aprender a beber e meus antigos amigos não me reconheciam mais.

Um dia visitei minha mãe e fui com Pinheiro ao bar. Pela primeira vez bebi com meu padrasto que ironizou e brincou dizendo “finalmente está virando homem”.

Virei um copo de cerveja e perguntei a ele o que faltava para ser um de verdade. Pinheiro encheu um copo e antes de beber respondeu “agir como um”.

Pinheiro e minha mãe iram na gafieira naquela noite e o homem rapidamente se arrumou. Pinheiro sempre foi um cara elegante e naquela noite não foi diferente ficando bem bonito.

Minha mãe, como sempre, se atrasara botando a roupa e meu padrasto me desafiou para uma partidinha de botão.

Pela primeira vez fizemos um jogo disputado. Pela primeira vez ele metia um gol em mim e eu revidava. Foi assim o tempo todo em um embate dramático e violento que chegou a 5 x 5 e minha mãe ficou pronta.

Pinheiro colocou a bolinha no meio do campo e disse “quem fizer o gol vence”. Eu nunca vencera, aliás, eu nunca chegara nem perto de vencer Pinheiro na minha vida e aquilo me deixou muito tenso.

Pinheiro disse “prepara”, ajeitou o botão e chutou. A bola bateu no travessão e voltou em meu jogador. Eu com a palheta fui batendo devagar na bolinha com meu botão até passar o meio de campo e muito tenso disse “prepara”.

Pinheiro ajeitou o goleiro. Eu tremendo encostei a palheta no jogador e bati.

Fiz o gol.

A primeira vez. A primeira vez em minha vida que eu vencia Pinheiro no botão. Vocês não tinham ideia de como aquilo era importante para mim. Eu gritei, vibrei, comemorei, quase chorei emocionado com o feito enquanto o velho Pinheiro sorrindo me abraçava e dava parabéns.

Eu feliz agradeci enquanto minha mãe lhe puxava dizendo que estavam atrasados para a gafieira. Pinheiro pediu que eu jantasse, fechasse a porta direito e deixasse a chave debaixo do carpete para quando eles chegassem. Respondi que faria tudo direitinho e antes que partissem Pinheiro sorriu, me deu parabéns e um tapinha em meu rosto.

Os dois saíram cantarolando e dançando em direção ao ponto de ônibus já que o carro estava quebrado, como sempre, e eu esquentei no microondas a maravilhosa macarronada que minha mãe fizera.

Enquanto eu comia uma borboleta entrou pela janela quase pousando na travessa. Irritado, levantei e afastei o bicho dizendo “Ta maluco? Quer morrer? A comida é minha!!”. A borboleta se afastou e voltei a comer.

Me sentindo um campeão do mundo.

Pinheiro e minha mãe pegaram o ônibus. Sentaram na parte de trás e ficaram abraçadinhos. Minha mãe colocou a cabeça no ombro de meu padrasto e ficaram assim nesse clima de namoro na viagem no ônibus vazio.

Depois de um tempo dois garotos entraram no ônibus e antes mesmo de passarem pela roleta anunciaram assalto.

O primeiro pulou a roleta e começou a pegar o dinheiro dos passageiros enquanto o outro assaltava o cobrador. Pinheiro percebeu e disse “Hellen, calma, vamos ser assaltados”.

O ladrão que pulou, fez a limpa no ônibus todo e chegando no casal pediu a carteira a Pinheiro que com calma deu.

O homem abriu a carteira, pegou o dinheiro, mas um documento chamou a atenção do meliante. O ladrão olhou e perguntou “polícia?”. Pinheiro respondeu “não, militar”. Mas o bandido quis nem saber. Sacou a pistola e deu um tiro na cabeça de Pinheiro.

O que estava na frente perguntou o que ocorria enquanto o que atirou gritava para o motorista abrir a porta para que eles descessem logo. Desceram enquanto minha mãe desesperada gritava ao motorista para que fossem a um hospital, pois o marido dela estava morrendo.

Eu dormia no apartamento em que morava quando Samuel bateu na porta. Abri perguntando o que ocorria e ele disse para atender ao telefone que minha mãe estava desesperada.

Atendi e veio a notícia. Pinheiro estava morto.

Não era meu pai. A transa que minha mãe teve pra me gerar não foi com ele. Mas foder e fazer filho é mole, o difícil é criar, dar dinheiro, educação, amor..Pinheiro me deu tudo isso. Foi minha referência paterna, o cara que me deu broncas, conselhos e acima de tudo um dos grandes amigos que tive na vida. Meu companheiro de jogo de botão.

Um cara fantástico e que fez o que eu mais queria que alguém fizesse. Fez minha mãe feliz.

Perdeu a vida de uma maneira idiota, estúpida. Um assalto imbecil onde o ladrão, provavelmente drogado, confundiu uma carteira militar com policial. Mesmo que fosse policial, por isso deve morrer? Esse é o mundo em que vivemos, a cidade em que vivemos. Uma vida perdida, ceifada de seus entes queridos por um motivo babaca.

Ah..como esse cara me faz falta meu Deus!!

Fui ao hospital consolar minha mãe que já tomara calmante e não
conseguia melhorar. Fiquei ali sentado abraçado a dona Hellen enquanto amigos deles e meus amigos chegavam. Camila chegou com Guga e meu amigo, ou ex-amigo, cheio de dedos disse “meus pêsames” a mim e deu um abraço em minha mãe. Camila perguntou como eu estava e seco respondi “já estive melhor”. 

Fomos para o velório. Eu olhava o corpo de meu amado padrasto e lhe observava sereno, calmo, como alguém que cumprira sua missão na vida. Tão jovem ainda, não dava pra me conformar.

Antes do caixão fechar, logo após missa, cheguei baixinho em seu ouvido e disse “Não adianta querer tirar onda, a última quem venceu fui eu”. Coloquei em sua mão o botão com quem eu fizera o gol da vitória em nosso jogo e emendei “Um dia a gente joga de novo” lhe dando um beijo na testa.

O caixão fechou e longe percebi a presença de meu pai, o Turco. Ele olhava toda aquela movimentação e ao perceber que eu lhe vira se afastou. 

O caixão desceu e assim as pessoas foram embora. Embora continuar suas vidas porque assim é a vida. A dor só prossegue pra quem sente a perda. Eu caminhava com minha mãe saindo do cemitério quando meu pai arrumou coragem e se aproximou perguntando “posso acompanhar vocês?”.

Minha mãe fez sinal com a cabeça que sim e saímos os três juntos em silêncio.

Levei minha mãe para casa e ela se trancou no quarto. Colocou Michael Jackson para tocar e ao longe ouvi “one day in your life”, a música tema do amor deles.

Olhei a mesa de botão, o time dele guardado cuidadosamente na caixinha e de súbito me veio uma situação na cabeça. Lembrei que eu nunca chegara nem perto de vencê-lo e venci na última vez. Levantei a cabeça e fiz uma pergunta ao céu que nunca terei resposta.

“Você me deixou vencer seu safado?”.

Era um cara maravilhoso, generoso e acho que aquele foi o último presente que me deu em vida.

Depois de morto me presenteia todos os dias com tudo que me ensinou.

Achei melhor me mudar e voltar para casa. Minha mãe passaria por momentos difíceis e achei por bem estar ao seu lado naquele período. Isso me ajudou também porque ficaria mais distante de Camila. A relação dela com Guga estava cada vez mais forte até que ocorreu o inevitável.

Os dois ficaram noivos.

Apesar de convidado não fui a festa de noivado e praticamente sumi da vida dos dois. Tentava prosseguir minha vida afastado de Camila e tentando ajudar minha mãe a se levantar. Dona Hellen conseguiu um emprego como caixa de supermercado. Não dava muito dinheiro, mas pelo menos arejava sua cabeça.

Eu trabalhava como DJ pela Ilha do Governador e bairros próximos e defendia o meu assim. Tentava não pensar em Camila, mas era inevitável.

Um dia ela foi me visitar.

Fui pego de surpresa, com o coração acelerado, mas me mantive forte, firme e perguntei se algo ocorrera. Camila comentou que eu sumira e estava preocupada. Respondi que estava trabalhando muito e ajudando minha mãe.

Camila então foi direta ao assunto “Eu vou me casar com o Guga e queria te convidar pra ser meu padrinho”.

Aquilo foi uma punhalada em meu coração que já sofria muito, mas em vez de ficar triste fiquei irritado. Como podia a Camila ser tão  insensível? Como ela não podia perceber o tanto que eu gostava dela? Ainda me fazer um convite desse tipo?

Sem nem pensar respondi “não”.

Camila se assustou e perguntou porque. Friamente respondi “Não gosto de casamentos” e emendei dizendo que teria que trabalhar deixando a menina falando sozinha na porta da minha casa.

Estava difícil. Tantas perdas, tantas desilusões, eu estava tão por baixo que já queria mudar meu nome para Botafogo. Achei que aquele era o momento de esquecer Camila de vez. Ela iria casar com Guga, não tinha mais nada que eu pudesse fazer.

O dia do casamento foi se aproximando e eu não conseguia esquecê-la, muito pelo contrário, cada vez lhe amava mais.

Era uma merda.

No dia anterior ao casamento eu via televisão com minha mãe e
dona Hellen perguntou “É amanhã o casamento né?”. Perguntei que casamento e ela respondeu “Não se faça de desentendido Antonio. O casamento entre Guga e Camila”.

Respondi que era e minha mãe emendou “Não fará nada pra impedir?”.

Soltei uma gargalhada e comentei com ela “Fazer o que mãe? Tenho nada com isso”. Minha mãe se irritou. Levantou, olhou firme para mim e disse “Se você quer se fazer de idiota tudo bem, mas não tente me fazer. Todo mundo sabe que você ama essa menina e só ela não percebe”.

Eu fiquei sem reação e ela completou “Sinto muita falta do Pinheiro, muita. Meu coração, meu corpo. Mas tenho o alento de ter vivido com ele tudo que eu queria, que eu precisava. Tenha esse alento também”.

Minha mãe foi para cozinha e fiquei pensando no assunto. Eu perdera Camila e não fiz nada para impedir isso. Gritei que já voltava e fui para o bar beber.

Bebi. Bebi muito e quando começou a chover pensei em ir pra casa. Me levantei e vi todos correndo para fugir da chuva torrencial e entrar nas suas residências, mas fiz o caminho contrário. Peguei um ônibus.

Quando dei por mim estava na porta da casa de Camila.

Bêbado, encharcado de chuva socava a porta de Camila gritando seu nome. Depois de um tempo de escândalo consegui que abrissem a porta e para minha sorte foi ela.

Camila, assustada, perguntou o que ocorria e eu sem respirar respondi “eu te amo, não casa”. Ela nada entendeu e pediu que eu repetisse. Repeti.

“Te amo Camila desde a primeira vez que te vi, desde o primeiro atropelamento. Amo seu sorriso, seu cheiro, o jeito que gargalha, a manchinha que você tem perto do rosto, seu cabelo, sua voz, sua lágrima. Amo cada coisa em você e sou capaz de tudo por você, até mesmo te levar em clínica de aborto grávida de outro e ser seu amigo mesmo querendo seu amor”.

Camila nada respondia, seu olhar era assustado e implorei de joelhos “não casa, por favor, fica comigo”.

Uma voz de dentro da casa, acredito que tenha sido sua mãe, começou a lhe chamar. Pedi mais uma vez que ela não casasse e Camila pediu desculpas dizendo que tinha que entrar.

Daquela forma fechou a porta e eu fiquei ali, de joelhos do lado de fora.

Não deu. Tentei, fui atrás do meu alento, mas não deu certo. Voltei para casa encharcado, sozinho em um ônibus arrasado por ter dado errado, mas aliviado por finalmente ter contado o que sentia. Era como se um peso saísse de cima de mim. Acho que Pinheiro teria ficado orgulhoso de mim.

Mesmo tardio consegui falar. Contei que a amava.

No dia seguinte não consegui me concentrar em nada. Não consegui trabalhar imaginando que ela se arrumava para o casamento. De noite, na hora que imaginei que ela estava saindo para a igreja saí de casa.

Fui para o meu cantinho, Pro Arpoador.   

Nas pedras pensei em tudo que vivi, todas as perdas que tive. Pensei em Jessé, Pinheiro, minha mãe que perdera o amor de sua vida. Pensei em Camila, o meu amor.

O amor que nunca tive.

Passei alguns momentos com ela naquelas pedras. Momentos gostosos, de cumplicidade e que a partir daquele momento, daquele casamento ficariam para trás pra sempre. Eu tentava há tempos e não conseguia, mas aquela era a hora de esquecê-la de vez. Camila a partir daquele momento se transformava em uma mulher casada.

Estava tão concentrado em meus pensamentos, na minha tristeza que não ouvi gritarem meu nome. Só ouvi depois de um tempo. Os gritos chamando por meu nome me tiraram da concentração que estava. Comecei a procurar quem me chamava.

Quando vi.

Vi Camila vestida de noiva correndo pela praia e gritando meu nome.

Olhei e não acreditei dizendo baixinho “Camila?”. Ver minha amada correndo de noiva pela praia gritando “Antonio” parecia um sonho. Sorri, gritei “Camila” e desci correndo das pedras.

Ela gritava “Antonio”, eu “Camila” e dessa forma corremos na praia um em direção ao outro até que nos encontramos e nos abraçamos.

E nos beijamos.

Nosso primeiro beijo.

Um beijo apaixonado, um beijo que ansiei por anos. Um beijo que a saliva se misturava com minhas lágrimas. Eu finalmente beijava a mulher que eu amava. 

Depois que nos beijamos Camila com lágrimas nos olhos perguntou se eu lhe amava. Eu também chorando olhei pro céu, a rodopiei e gritei “pra sempre!!!”.

E voltamos a nos beijar.

Na boa. Eu merecia ser feliz.

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