quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

2015



Mais um ano acabou...

O terceiro desse blog. Ano mais complicado esse. Com menos publicações devido a falta de celular e computador em alguns momentos, mas que se tornou algo de mim por retratar de forma tão viva meus últimos dois anos e dez meses.

E amigos. Eu vivi nesse período. Vivi muito. Foram dois anos e dez meses que valeram por dez anos. Esse ano de 2015 não foi diferente. Até achava de forma errada que não tinha feito muito no ano, mas fiz sim. Fiz muito barulho

Quatro nomes já mostram de cara a importância de 2015. Reage Boi, Dona Carola, Nação Insulana e Bar Apoteose. Só nessas quatro citações já existiria um ano intenso, mas não foi só isso.

Começou com uma sigla. Srzd. Entrei para o site no fim de 2014 e já iniciei 2015 vivendo momentos incríveis nele. Ensaios técnicos, vídeos, blog no site bombando, carnaval...

Carnaval vivido com intensidade nunca parecida. De um dos principais camarotes da Sapucai até a pista vendo todas as escolas desfilando. Carnaval que trouxe mais um fracasso do Boi da Ilha.

Desse novo fracasso ressurgiu o Reage Boi com uma força maior ainda. O Reage se tornou o maior movimento já feito em uma escola de samba da Ilha do Governador. Uma grande uniao de sambistas em torno do ressurgimento de uma agremiação tradicional. Infelizmente podres poderes e um sistema ditatorial não permitiram a retomada da escola. Mas fizeram surgir algo maior.

No meio disso tudo fiz dez anos sem minha mãe. Completei essa data com muita saudade e todas as homenagens possíveis. Prossegui minha vida, minhas caminhadas de uma forma mais Light que se não permitiram mais perda de peso mantiveram minha vida saudável e elevada auto estima.

Bia fez seis anos e entrou pra escola se formando em dezembro. Gabriel pronunciou suas primeiras palavras. Os dois crescendo lindos e com saúde. Minha avó veio algumas vezes ao Rio e pude matar as saudades. Me reaproximei de meus tios. Pessoas importantes em minha vida.

Continuei minha vida no teatro. Tive Coração Despedaçado com três apresentações na Bahia, Comédia em seis atos (escrita esse ano) em Belford Roxo. Uma viagem inesquecível a Ribeirão Preto para assistir Cerimônia de casamento. Poucas vezes fui tão bem tratado, com tanto respeito.

Mas o auge teatral veio de uma velha mãe louca. Dona Carola. Peça escrita por mim ano passado e de maior sucesso no Recanto das Letras ganhou vida através do grande Evandro Rocha e uma trupe de velhos e novos amigos. Os Carolas. Muitos ensaios, risadas, entrada e saída de atores e uma leitura muito engraçada feita na Faculdade Estacio e a estreia garantida em 2016.

Não fiz sambas, pela primeira vez desde 1997, mas fiz muita coisa. Além de escrever pro Ouro de Tolo e Srzd ganhei uma coluna sobre o Flamengo no mesmo Srzd, coluna no tradicional Obatuque.com e comentarista da Rádio Sambista.com. Mas não foi só isso.

O Reage Boi não morreu, se transformou e da reação surgiu uma grande nação. A Nação Insulana surgiu com ideias arrojadas. Unir tradição a modernidade. Um novo conceito de fazer carnaval. Surgiu impactante unindo os sambistas do bairro, intelectuais, imprensa, autoridades e a promessa de o início de uma grande história. Renascendo das cinzas.

Ao mesmo tempo um bar foi aberto.

Despretensioso, um bar apenas para bate papo entre amigos, o Bar Apoteose tornou-se a grande novidade do carnaval 2016. Primeiro programa por vídeo ao vivo e semanal o Bar atraiu a nata da mídia de carnaval em seus programas e um público fiel e cada vez maior. Apostando na agilidade da informação, interatividade, descontração e profundidade nos assuntos atraiu parceiros importantes como o Srzd, batendo mais de mil visualizações por semana e a promessa de voos mais altos em 2016.

É. Muitas coisas ocorreram em 2015 e a impressão que me dá é que o ano não acaba hoje fazendo de 2016 sua continuação. Muitos projetos foram feitos esse ano para explodirem no próximo e a esperança vive. Afinal, o que seria de nós sem a esperança?

Hoje o blog entra de férias agradecendo aos leitores. Agradeço a todos que participaram de minha vida em 2015 fazendo o convite para continuarem em 2016. Venham que eu prometo fazer valer a pena.

Agradecimento especial a Hellen Manhães, presente em todos os momentos. Parceira, companheira, conselheira, amor infinito. Nossa sintonia sempre virá do olhar.

Obrigado a todos. Até a volta das férias. Até 2016...2016!! Ano dos meus quarenta anos. Assusta por chegar a essa idade. Assusta pensar em tudo que pode vir pela frente nesses doze meses. Quanto iremos nos entristecer? Sofrer? Sentir medo? Chorar? Quantos de nós chegarão vivos a 2017?

Mas quanto vamos nos alegrar, festejar, vencer, amar? Gargalhar até a barriga doer? Não sei e quer saber? Não saber é muito legal. Vamos viver o presente.


E o meu destino será como Deus quiser.



sábado, 19 de dezembro de 2015

DINASTIA: CAPÍTULO XI - BEATRIZ




A volta foi triste, silenciosa. Não havia o que se dizer, nada iria diminuir a dor. Nem mesmo a paisagem que os Granata sempre gostaram ao viajar de trem.

Algumas vezes o silêncio era cortado com algum dos irmãos oferecendo algo para a menina.

“Quer um lanche?” Perguntou Oscar, a menina com a cabeça baixa só respondia com um fiapo de voz “não, obrigada”.

O silêncio permaneceu até a chegada a São Paulo. Desceram do trem e foram para a casa de bonde. Bateram na porta e uma feliz Constância atendeu.

Constância ao ver os rapazes na porta correu para dentro gritando “Os bambinos!! Os bambinos voltaram!!”. Antonieta e Dora correram das dependências da casa e abraçaram Oscar e Pepe.

Depois dos abraços e choros pela volta dos rapazes notaram a presença de uma assustada Mariana. Dora perguntou quem era e Pepe, fazendo carinho na cabeça da assustada menina que lhe abraçava o quadril respondeu que era uma longa história.

Oscar lamentou não encontrar o pai e perguntou se alguém tinha notícias dele. Dora abaixou a cabeça e respondeu “está lá em cima no quarto”.

Os rapazes felizes com a notícia se apressaram em subir as escadas para ver o pai e Antonieta pediu que esperassem, pois, tinha algo a lhes contar.

Pepe e Oscar ouviram o que a avó tinha a dizer e subiram para ver Salvatore enquanto as mulheres davam lanche a Mariana.

Abriram a porta devagar e viram Salvatore deitado na cama olhando a janela. O homem olhava na verdade para o nada, como se não estivesse ali. Pepe tirou o chapéu e disse “papa?”.

Salvatore olhou os filhos e disse nada voltando a olhar a janela. Os rapazes se aproximaram e abraçaram o pai que deixou cair lágrimas de seus olhos.

Ao lado da cama uma cadeira de rodas. Salvatore estava paraplégico.

Oscar e Pepe sentaram na beirada da cama e ficaram observando o pai. Salvatore ainda com lágrimas nos olhos respirou fundo e exclamou “malditos!!”.

O homem fora atingido no front com uma bala que atingira a coluna.

Olhou os filhos e pediu para morrer, que eles ajudassem nessa missão. Pepe irritado falou “Nunca, o senhor está forte, com saúde, vamos sair dessa juntos!!”. Salvatore gritou “De que vale um homem se não pode contar nem com suas pernas??”.

Pepe chegou próximo ao rosto do pai e disse “Muito, porque o que faz um grande homem é isso aqui”. Apontando para a cabeça.

De noite foram jantar com Salvatore e Mariana em silêncio. Dora tentou quebrar o clima dizendo que a menina era uma graça e cuidaria dela como uma filha. Mariana só agradeceu e ficou com a colher mexendo na sopa. Salvatore perguntou quem era a “ragazza” e Oscar respondeu “uma vítima da guerra como o senhor”.

Pepe perguntou a mãe como estavam os negócios e Dora respondeu que não estavam bem, pois, tinha que tomar conta da casa e da loja, mas dava pra sobreviver.

Pepe limpou a boca com guardanapo, bebeu um pouco de água e falou que ele e o irmão assumiriam a loja no dia seguinte para assim dar descanso para a mãe e que o pai iria junto.

Salvatore saiu de seu transe e disse que não iria a lugar nenhum, não sairia de casa em uma cadeira de rodas. Pepe como se fosse seu pai olhou feio e respondeu que iria sim, porque ainda estava vivo e era o chefe daquela família.

Pela primeira vez em muito tempo Salvatore sorriu e comentou “parece seu Benito falando”.

No dia seguinte abriram bem cedo a loja e começaram o trabalho. Para recuperar o prejuízo causado pela revolução trabalhavam até mais tarde, faziam promoções e assim conquistavam fregueses e dinheiro.

Não era muito, mas o suficiente para o sustento da família.

Davam assim um pouco de vida a Salvatore que começava a se acostumar com a vida na cadeira de rodas. Os três nunca foram tão próximos quanto naquele período e além de trabalhar saíam para se divertir também.

Eram torcedores fanáticos do Palestra Itália e numa dessas foram ao futebol juntos, não mais football. Pepe lembrava ao pai do tempo de meninos que jogavam o esporte e a mãe reclamava. Salvatore ria e reclamava dos jogadores.

Na saída encontraram o técnico do time e Oscar cheio de coragem perguntou como fazia para ser um jogador de futebol. O treinador respondeu que se ele quisesse poderia ir ao clube fazer um teste dando-lhe endereço.

Dessa forma Salvatore e Pepe voltaram alguns meses depois para assistir outro jogo do Palestra, mas com Oscar em campo, inclusive fazendo gol.

A vida caminhava lentamente mesmo com o amargor que Salvatore carregava com a vida. Pepe como o irmão mais velho gerenciava a loja. Oscar dividia-se entre o comércio e o futebol. Pepe deixou a contabilidade a cargo do pai.

Um dia Pepe sozinho fazia anotações no balcão quando entrou uma moça na loja. Ele não prestava atenção, continuava anotando enquanto ela caminhava pelo local olhando algumas peças até que chegou ao balcão.

Pepe continuava anotando quando ela perguntou “o senhor poderia me atender?”.

Pepe nunca mais esqueceu aquelas palavras e aquela voz.

Ouvindo aquela voz doce, suave como a de um anjo imediatamente Pepe parou para olhar e viu aquela cena que nunca mais esqueceria.

Viu uma mulher branca com cabelos negros, olhos azuis, vestindo um chique vestido branco, luvas e um chapéu, além de um lindo sorriso.

Pepe pediu perdão por não notar sua presença e perguntou como poderia ajudar. A moça respondeu que uma amiga sua vinha de fora para São Paulo e queria lhe presentear como boas vindas. O rapaz se prontificou a ajudar.

Procurou pela loja e viu uma caixinha de músicas. Mostrou a moça e perguntou o que ela achava. Ela abriu, deu um sorriso contando que a música era linda e iria levar.

Pepe embrulhou para presente e entregou a moça que pagou e contou que voltaria, pois, a loja era linda. Apertou a mão de Pepe que aproveitou e deu um beijo na mesma dizendo que esperaria.

Ela sorriu e saiu.

Salvatore apareceu de dentro da loja perguntando quem era e Pepe completamente extasiado respondeu “um anjo”.

O rapaz continuou trabalhando, mas não conseguia esquecer a moça. A voz dela perguntando se poderia lhe atender e o sorriso na despedida. Pepe nunca sentira algo parecido antes, conheceu algumas mulheres ao longo da vida, mas aquilo era diferente.

Parecia amor, amor a primeira vista.

Oscar chegou na loja na hora de fechar e perguntou se o irmão queria sair para beber. Pepe respondeu que não, estava cansado e o rapaz estranhou já que nunca viva o irmão recusar noitada.

Pepe não conseguia tirar a mulher da mente, queria chegar logo em casa e sonhar com ela.

O pai e o irmão foram beber. Pepe entrou em casa e encontrou tudo silencioso na sala, nada entendeu e sentou-se no sofá. Olhou sobre a mesinha de frente ao sofá uma caixinha, estranhou.

Pegou e era uma caixinha de música. Abriu e percebeu que era a caixa que tinha vendido à moça.

Antes que esboçasse alguma reação Giuliana, sua irmã, saiu de dentro da casa vestida de freira, rindo e acompanhada de sua mãe.

Além da mãe acompanhada da moça da loja. 

Pepe assustado se levantou e a moça também se assustou ao ver o rapaz com a caixinha na mão. Ela sorriu e disse “oi moça da loja”, ele respondeu “boa noite senhorita da caixinha”.

Giuliana perguntou se já se conheciam e Pepe respondeu “um pouco”. A moça apresentou o irmão à amiga e contou a ele que se chamava Beatriz.

Cumprimentaram-se novamente como na loja e o encantamento estava feito.

Dora convidou a moça para jantar e Pepe não conseguia tirar os olhos de Beatriz que desviava sem jeito. Giuliana contava de sua vida como freira e que Beatriz era sua amiga de convento, mas descobriu que não era sua vocação e partiu. Pepe sem querer soltou um “que bom" que foi reparado pelas pessoas. Notando a gafe emendou “perdão, eu quis dizer que pena”.

Envergonhado não sabia onde meter a cara.

Depois do jantar sentaram na sala e falaram um pouco da vida. Pepe o tempo todo em silêncio apenas observava a moça. Em determinado momento Dora virou para Pepe e perguntou porque no dia seguinte ele não mostrava um pouco da cidade para as duas.

Pepe alegou que as duas eram paulistanas, conheciam a cidade, mas Beatriz se animou e rebateu que conhecia muito pouco São Paulo e adoraria. Poderiam aproveitar o domingo.

No fim Giuliana levou Beatriz até a porta e comentou que esperava a moça no dia seguinte. Antes de ir Beatriz se despediu de Pepe que apaixonado só conseguiu levantar a mão e acenar.

Depois que Beatriz foi embora Giuliana mandou que ele nem tivesse esperanças que a amiga estava de casamento marcado. Ele respondeu que não sabia do que a irmã falava e Giuliana completou que ele sabia sim.

Pepe não conseguiu dormir naquela noite. Virava para um lado e para o outro, desceu para beber água, encontrou Constância no caminho e nem tentou ir com a moça para o quarto, estava diferente mesmo.

Deitou novamente e Oscar deitado na cama ao lado perguntou o que o irmão tinha. Ele respondeu que nada, mas Oscar sabia da presença de Beatriz e comentou “ a amiga da Giuliana né? Foi fisgado”.

Pepe mandou o irmão dormir e quieto sobre a cama pensou “é, fui fisgado mesmo”.  

No dia seguinte Beatriz estava cedo na casa dos Granata e os três partiram pra passear por São Paulo. Foram no recém inaugurado Mercado Municipal, Estação da Luz, a Catedral da Sé e por fim assistiram regatas no rio Tietê.

Enquanto tomavam sorvete Pepe lembrou que tinha jogo do Palestra Itália e convidou as moças para assistirem.

O encantamento entre Pepe e Beatriz era evidente, as trocas de olhares. Giuliana percebeu e beliscava o irmão mandando se conter. Mas como mandar no coração?

No estádio Pepe explicou as regras do jogo para as meninas e Giuliana sentou entre Beatriz e Pepe que se olhavam. O jogo estava difícil, mas Oscar de repente driblou três jogadores e fez um golaço.

No instante do gol enquanto a torcida festejava Beatriz e Pepe se abraçaram e ficaram próximos de um beijo. Notando o clima que se criou se afastaram.

Pepe e Giuliana levaram a moça até sua casa. Era uma casa enorme em uma região mais abastada de São Paulo e Giuliana finalmente percebeu que não poderia brigar contra o que ocorria e contou aos dois que compraria uma revista se despedindo de Beatriz.

Pepe e Beatriz se olharam por um instante na porta e o rapaz perguntou quando a veria novamente. Ela abaixou a cabeça e respondeu não saber se seria bom, pois, estava noiva.

O rapaz lamentou e contou que ela sabia como achá-lo. Deu um beijo em sua mão na hora em que seu pai apareceu.

O pai de Beatriz mandou que ela entrasse e com cara séria olhou Pepe desejando boa noite e fechando a porta.

Pepe não conseguiu mais se concentrar no trabalho, em nada só pensando em Beatriz. Pedia a Giuliana que enviasse recados. Dormia mal, mal se alimentava, mal vivia.

Um dia estava no trabalho com pensamento longe e Oscar foi até o irmão correndo pra ele atender cliente. Triste Pepe perguntou se ele na podia fazer isso e o irmão respondeu que não, tinha que ser ele.

Emburrado foi até o balcão e deu de cara com Beatriz que sorrindo falou “não disse que voltaria?

Oscar ficou tomando conta da loja e os dois saíram pra passear. Pepe comprou sorvete para os dois e enquanto andavam o rapaz percebeu que a moça tinha um pouco de chocolate na bochecha.

Foi limpar, ficaram cara a cara e Pepe não resistiu beijando Beatriz.

Depois do beijo a moça se afastou dizendo que não podia e correu pela rua. Pepe correu atrás segurando a mão de Beatriz e ao se virar a moça lhe beijou. Ali, no meio da rua.

Um beijo de muito amor.

Beatriz contou a verdade para Pepe. Interna do convento com Giuliana ela não queria ser freira, não tinha aptidão.

O pai ouviu tudo o que a filha tinha a dizer e respondeu que aceitava que ela saísse do convento e assim quebrasse uma promessa de sua mãe ao nascer, mas com uma condição.

Teria que casar com o pretendesse que ele escolhesse.

A família de Beatriz passava por dificuldades financeiras e seu pai viu ali a chance de melhora, na filha fazer um bom casamento. Não pensou duas vezes e assim que Beatriz saiu do convento comunicou que lhe arrumara um pretendente.

E até aquele momento, o do beijo com Pepe, ela não conhecera o noivo.

Pepe ficou indignado com aquelas informações e disse não aceitar que naquela época ainda fizessem casamento daquela forma. Segurou a amada e disse olhando em seus olhos que não permitiria esse casamento.

Beatriz perguntou como e Pepe respondeu que daria um jeito. Levou a moça até em casa e antes que ela entrasse pediu que o rapaz fosse embora por não querer que o pai lhe visse sem Giuliana perto.

Não adiantou falar. Logo após o pai apareceu mandando que entrasse. Beatriz entrou e ameaçador o homem mandou Pepe se afastar da filha.

 Mas não se afastou continuando o casal a se encontrar às escondidas. Giuliana avisava do risco, mas o amor de Pepe e Beatriz era grande demais e o compromisso não impedia esse amor de explodir.

Uma noite Pepe levou Beatriz até a esquina de sua casa e despediu-se da amada com um beijo. Nessa hora apareceu o pai da moça com quatro homens. Gritando ele disse que tinha mandado o “moleque” se afastar da filha e ele não ouviu, veria ali o que era bom.

Pegou a filha pelo braço enquanto os quatro homens pegaram Pepe e colocaram dentro de um automóvel saindo em disparada. Foram até um descampado e surraram o rapaz que mesmo sendo bom de briga não conseguiu impedir a covardia.

Beatriz foi impedida de sair de casa e aos poucos Pepe se recuperava das feridas. Não do corpo, mas do coração.

Prometia a todos que Beatriz não casaria com outro e faria o possível e o impossível para impedir. Salvatore discutiu com o filho e ordenou que ele esquecesse a moça.

Pepe com calma respondeu ao pai que não tinha como, já estava enraizada em seu coração e era um Granata, um Granata não se acovardava.

Irritado Salvatore comentou que coragem não era a mesma coisa que burrice e Pepe finalizou dizendo que ficaria com ela nem que tivesse que fugir. 

Estava determinado mesmo. Invadiu a festa em que Beatriz era apresentada ao noivo e na frente de todos na sala disse em alto e bom som que queria conversar com o pai de Beatriz.    

O homem aproximou-se e falou em seu ouvido “moleque insolente”. Pepe devolveu “Podemos falar em seu escritório ou quer que eu fale aqui na frente de todos?” O homem engoliu em seco e respondeu “me acompanhe”.

Foram até o escritório em um clima tenso. Nele Pepe contou que amava Beatriz e queria casar com ela. O homem deu uma gargalhada, sentou-se, acendeu um charuto e respondeu que o rapaz não tinha onde cair morto.

Sem abaixar a cabeça Pepe foi até a frente do homem e disse que era trabalhador, honesto, sua família tinha uma loja, a que mais crescia na região do Brás e teria como sustentar Beatriz.

O homem se irritou, levantou e humilhou o rapaz.

“Carcamano!! Você não passa de um carcamano, você, seu pai e seu avô!! Já puxei a ficha de vocês!! Vocês tem uma mísera lojinha, uma casa velha, vieram da Itália porque passavam fome lá!! Se acha no nível de minha filha? Ela vai casar com um dos maiores industriais de São Paulo!!”.

Pepe sentiu-se humilhado, mas não abaixou a cabeça retrucando que ainda teria muito dinheiro. O homem continuou a humilhação “Não, não terá porque é um carcamano, um pobre infeliz que nasceu nesse país, mas nunca será como nós. Se você ama mesmo minha filha vá embora e deixe que ela se case com alguém que lhe dará um futuro”.

Pepe engoliu em seco, nunca fora tão humilhado na vida, mas ainda encontrou forças para responder “ainda serei muito rico e esfregarei meu dinheiro em seu rosto”. O homem rindo respondeu “Sabe onde moro, espero ansiosamente por esse dia”.

Pepe furioso saiu em disparada da casa com Beatriz vendo seu amado ir embora e derramando uma lágrima de sua face.

Pepe entrou em depressão, não conseguia mais trabalhar e só ficava na cama mesmo com os apelos dos familiares para que reagisse. Não procurou mais Beatriz e a aparência era de quem tinha desistido de viver.

Em uma noite chuvosa, deitado na cama, Pepe ouviu baterem na porta. Não queria abrir, mas insistiram. Desanimado levantou e abriu.

Era Giuliana contando que tinha uma visita para ele. Saiu e apareceu Beatriz tremendo de frio.

Assustado Pepe nada disse e a moça quebrou o clima perguntando “Está muito frio, posso entrar?”.

Pepe puxou sua amada para dentro e os dois se beijaram ardentemente. Trancou a porta e os dois fizeram amor.

No fim deitados na cama Pepe perguntou que loucura era aquela da amada indo até lá. Beatriz respondeu que o pai viajara e ela teve ajuda da empregada da casa para fugir. O rapaz riu comentando que aquilo era uma loucura.

Beatriz perguntou se achava ruim e Pepe respondeu que não, era uma loucura maravilhosa e beijou a amada.

Beatriz chorou contando que seu casamento era em uma semana e seu noivo era pelo menos trinta anos mais velho. Chorava por amar Pepe e por não se imaginar sendo tocada por aquele homem. O rapaz propôs que fugissem.

Beatriz primeiro assustou-se e depois se animou respondendo que topava. Pepe contou que só precisava arrumar umas coisas, conseguir dinheiro e lhe encontrava em três dias as oito da manhã na Estação da Luz.

A moça perguntou para onde iriam e ele respondeu “para as estrelas” lhe beijando.

Pepe contou apenas para Oscar o que planejava. O irmão ainda tentou demovê-lo, mas em vão. Pepe pediu apenas que o irmão esperasse seu embarque para contar.

Na hora marcada Pepe estava lá esperando a amada na Luz, mas nada dela chegar. Os minutos se passaram, as horas e Pepe se enervava perguntando se algo ocorrera com a amada.

Até que um menino se aproximou perguntando se ele era Pepe Granata.

O rapaz respondeu que sim e dessa forma o menino entregou um bilhete. Ele abriu, era de Beatriz.

No bilhete a moça dizia que sentia muito, mas não poderia fugir com o rapaz. Contou que o pai precisava dela então que ele não lhe procurasse mais.

 O mundo de Pepe desabava.

Arrasado voltou para casa e encontrou todos chorando. Perguntou o que ocorria e Dora abraçando o filho contou que Antonieta passara mal e estava em estado grave no hospital.

Vivia um drama. Pepe perdendo a mulher de sua vida e com a avó em situação desesperadora.

Três dias de agonia com a velha senhora lutando entre a vida e a morte até que ela não aguentou e se juntou ao seu querido Benito Granata.

Apesar de todos já esperarem pelo pior uma grande dor tomou conta dos Granata. A tristeza era tão grande que até por alguns minutos Pepe conseguiu esquecer Beatriz. 

Durante o enterro Giuliana se abraçou ao irmão que era o único que não chorava. Impassível via o caixão da avó descer a sepultura. A moça comentou com Pepe que estava próximo de começar o casamento de Beatriz.

Pepe respondeu apenas “eu sei” e a irmã perguntou se ele permitiria, o rapaz sem deixar de olhar o caixão respondeu “ela quis assim”.

Giuliana colocou a mão no ombro do irmão e contou que nem sempre expressamos o que o coração sente. Falou e se afastou deixando Pepe sozinho.

Pepe olhou a sepultura por mais algum instante. Lembrou de sua avó que estava ali sendo enterrada, de seu avô Benito, exclamou “Um Granata não desiste!!” e saiu.

Pegou a bicicleta e correu para a Catedral da Sé.

Atravessou quase a cidade inteira gritando o nome de Beatriz. Chegando ao largo da Sé deixou a bicicleta e correu em direção a igreja gritando seu nome e que não casasse.

Mas antes que chegasse à porta da igreja viu Beatriz saindo vestida de noiva, sorrindo ao lado do marido que realmente aparentava ser bem mais velho e recebendo chuva de arroz.

Ofegante, destruído Pepe via toda a cena e Beatriz antes de entrar no carro notou a presença do rapaz. Olhou seu amado por alguns segundos e entrou no carro com o novo marido.

O carro todo enfeitado, com latas amarradas partiu deixando Pepe para trás.

Pepe sentou-se em um banco que tinha no largo e olhou o céu. Começava a anoitecer e surgia a Lua que tanto embalara os amores e dores dos Granata. Sentia-se sozinho, perdido, Beatriz foi embora e deixou seu coração em pedaços.

Não chorou apesar de ter vontade. Respirou fundo e pegou a bicicleta para partir. Naquele instante apareceu um menino pedindo um trocado para ele.

Pepe olhou bem o menino e lhe entregou a bicicleta dizendo que era sua para felicidade do garoto. Nunca mais andaria de bicicleta.

Naquele dia Pepe Granata decidiu ser rico.


CAPÍTULO ANTERIOR:

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

ANÁLISE: OS SAMBAS DE 2016



*Coluna publicada no blog Ouro de Tolo em 13/12/2015




Hoje acabam as férias. A partir desse domingo nossa casa, a Marquês de Sapucaí, reabre para o maior espetáculo da Terra. Não é o desfile propriamente dito mas os ensaios técnicos que são uma atração a parte e já fazem parte do calendário cultural do Rio de Janeiro.

As escolas vão testar os quesitos de chão e seus sambas. Ali começaremos a ter uma real noção do que cada um pode render. Mas, claro, desde escolhidos esses sambas já vem sendo debatidos (Fizemos essa semana e passada no Bar Apoteose) e todos tem suas opiniões.

Também tenho a minha.

De novo volto aquele velho argumento que já deve ter cansado vocês. A safra de 2016 ratificou o que eu sempre digo, que samba-enredo é o melhor gênero musical do país. Nenhuma música produzida no Brasil em 2015 é melhor que pelo menos cinco sambas. Se os sambas não ficam, se não vendem como já venderam um dia deve-se a inúmeros detalhes que, pelo menos hoje em dia, nada tem a ver com qualidade musical.

Não tivemos um super samba como Portela 2012 e Vila 2013, apesar de ter samba que se aproxima disso, mas também nenhuma escola passará vergonha com sua obra. O nível ficou alto, o que faz com que algumas agremiações que escolheram sambas melhores que do ano passado e melhores até que dos últimos anos mesmo assim fique na “rabeira” do cd.

Também não tivemos nenhum “erro grosseiro” nas escolhas.  Aliás, a falta dos erros grosseiros tornaram-se uma tendência nos últimos anos. Cerca de um mês e meio atrás no Bar o historiador Luiz Antonio Simas levantou a questão que a força da internet, das redes sociais, o fato de hoje os sambas serem muito conhecidos desde a inscrição, impedem esses erros. Acho que ele tem razão.

Os sambas vêm melhorando desde 2010, desde o “Mar de fiéis” da Imperatriz e da homenagem a Noel da Vila. Tinha medo de uma queda no carnaval próximo devido ao excesso de notas 10 dadas no de 2015, mas ainda bem me enganei. Esse ano me parece o de maior maturidade da safra. Independente dos enredos, previamente criticados, me parece que os compositores souberam explorar ao máximo as sinopses oferecidas e algumas vezes até extrapolar.

Casos de Imperatriz e Tijuca que vem com sambas muito melhores do que imaginávamos nos lançamentos dos enredos. Tudo bem que tem pouco da cidade de Sorriso e da dupla Zezé di Camargo & Luciano nas sinopses, mas os compositores foram muito felizes.

Gusttavo Clarão e parceiros fizeram o melhor samba da Tijuca desde Agudás e a Imperatriz mostrou a força crescente de sua ala escolhendo aquele que tem grande chance de ser mais uma vez o samba do ano do especial (Viradouro é o do ano para mim) com o lendário Zé Katimba. No pré carnaval esse samba vem sendo o preferido dos sambistas.

Mangueira vem com um senhor samba enredo da mesma parceria do ano passado comandada por Alemão do Cavaco e Cadu. Portela vem com o veterano Wanderley Monteiro, o novato (na escola) Samir Trindade e um samba delicioso que remete os últimos sambas da agremiação e a parceria de Marcelo Motta vem com um samba poderoso e que retrata bem o malandro. Para mim a escola é a favorita para 2016 e vem com um samba do nível desse favoritismo.

Esses eu digo brincando que são meus sambas para se classificarem a Libertadores. Abaixo tem o samba da Vila que eu ainda não consigo ter uma definição devido as várias mudanças, mas não é um samba para se jogar fora, evidente. Quero ouvir hoje ao vivo.

Acho bem definido que a safra está dividida em dois grupos de seis sambas e a maioria das pessoas com as quais conversei concordam com os dois grupos. Mas mesmo o grupo das seis não citadas não é ruim. Estácio vem bem falando de São Jorge, apesar de alguns clichês naturais do enredo. Beija-Flor escolheu um bom samba mostrando que sua safra não era o que diziam. São Clemente vem com um samba que é a sua cara e refrão forte, Mocidade vem com um samba superior ao de 2015, mesmo caso da Ilha saindo um pouco da tão decantada “Cara da Ilha” e a Grande Rio aposta no malandreado, que deu certo, no último carnaval.

Esse samba da Grande Rio, que alguns vem apontando como o pior do ano para mim pode surpreender. Tem um grande cantor e tem cara que pode render na avenida.

Lógico que as opiniões vão mudando ao longo do tempo, mas reafirmo outra coisa, para mim samba não cresce, o que cresce é cabelo. Um samba ruim não passa a ser bom ou vice Vera com o tempo. Ele é melhor apresentado.

Enfim, hoje começamos a matar nossa ansiedade..

E que venham os ensaios técnicos.

Twitter - @aloisiovillar

Facebook – Aloisio Villar 



quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

SOBE O SOM: CLUBE DOS 27




Hoje o “Sobe o som’ fala de um clube curioso. O clube dos 27.

Para quem não sabe esse clube é formado por artistas que morreram aos 27 anos de idade. Artistas talentosos que morreram no auge de suas carreiras sucumbindo as drogas.

Algo tão curioso que tem até página no Wikipédia, que descrevo abaixo:

“O Clube dos 27 , também às vezes conhecido como o Para Sempre Clube 27 ou Clube 27 , é um grupo de músicos do Rock ou blues influentes que morreram aos 27 anos de idade, Os 27 anos são, no mínimo, míticos dentro do universo musical. Alguns dos grandes artistas que o mundo já conheceu coincidentemente vieram a falecer com esta idade. Além do talento inquestionável e da época da vida em que morreram, um outro fator é comum a estas estrelas: a personalidade polêmica e, num dos casos, a virgindade. Este é composto por Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison, Kurt Cobain e Amy Winehouse.”

Grandes artistas. Imortais artistas que mesmo vivendo tão pouco deixaram suas marcas na história da música e legião de fãs. Muitos que nem conviveram com esses artistas em vida. 

Jimi, Janis, Jim, Kurt e Amy vivem para sempre em suas criatividades e em nosso imaginário. Explosão criativa que ganhou a eternidade. Vinte e sete anos que valem por mil.

Então vamos lá!!



Sobe o som Clube dos 27!!



Rehab (Amy Winehouse)


Back to black (Amy Winehouse)


You know I`m not good (Amy Winehouse)


Valerie (Amy Winehouse)


Smell like teen spirit (Kurt Cobain)


The man who sold the world (Kurt Cobain)
 


Come as you are (Kurt Cobain) 



Heart-Shaped box (Kurt Cobain)



Purple haze (Jimi Hendrix)


Hey Joe (Jimi Hendrix)


All along the watchtower (Jimi Hendrix)


Little wing (Jimi Hendrix)


Summertime (Janis Joplin)


Cry baby (Janis Joplin)


Farewell song (Janis Joplin)


Down on me (Janis Joplin)


Riders on the storm (Jim Morrison)


Roadhouse blues (Jim Morrison)


Hello, I love you (Jim Morrison)


Light my fire (Jim Morrison)



Bem. Aí está um pouco desses artistas que para sempre estarão vivos em nossa saudade. Semana que vem tem uma dupla que vive, inspira e faz história na MPB há décadas. Tem Gal Costa e Maria Bethânia. 



Enquanto isso continuaremos ouvindo músicas que soam como hino. 



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SULLIVAN E MASSADAS

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

CINEBLOG: O ÚLTIMO AMERICANO VIRGEM




Cineblog fala hoje de um filme “estranho”. Digo estranho porque é um filme engraçadíssimo, típica comédia americana dos anos 80 que em sua reta final revela um drama e tem um dos fins mais tristes e que mais me irritaram até hoje.

Cineblog orgulhosamente apresenta:


O último americano virgem


The Last American Virgin (br: O Último Americano Virgem) é um filme estadunidense, de gênero comédia, lançado em 1982. Trata-se de um remake de um clássico filme israelense do mesmo diretor, Boaz Davidson, chamado Eskimo Limon e lançado em 1978


Sinopse


Gary (Lawrence Monoson) é um entregador de pizza de Los Angeles. Com seus amigos, aproveita todas as loucuras da juventude na escola e nas festas, se metendo em diversas confusões. Até que Karen (Diane Franklin), uma linda garota, se muda para a vizinhança, despertando a paixão em Gary. Mas ela acaba se aproximando de Rick (Steve Astin), o conquistador da turma. 

Após uma noite de amor, na primeira vez dela, Rick engravida Karen e a abandona. Mas Gary se prontifica a ajudá-la, dispondo de suas economias e a leva a um médico para realizar um aborto. Quando finalmente tudo parece caminhar para um final feliz, na festa de aniversário de Karen, ele flagra a moça novamente nos braços de Rick, e volta para casa aos prantos. Esta comédia se tornou um raro exemplo de filme em que o protagonista não tem seu famoso "final feliz".

 

Trilha sonora


A trilha sonora do filme é uma coletânea de clássicos dos anos 80
  • "Oh No" - The Commodores
  • "Whip It" - Devo
  • "Open Arms" - Journey
  • "Keep On Loving You" - REO Speedwagon
  • "I Will Follow" - U2
  • "I Know What Boys Like" - The Waitresses
  • "De Do Do Do, De Da Da Da" - The Police
  • "Just Once" - Quincy Jones feat. James Ingram
  • "Are You Ready For the Sex Girls?" - Gleaming Spires
  • "That's the Way (I Like It)" - KC and the Sunshine Band
  • "Love Action (I Believe In Love)" - The Human League
  • "Better Luck Next Time" - Oingo Boingo
  • "Since You’re Gone" & "Shake It Up" - The Cars
  • "Besame Mucho & Granada"- Los Fabulosos 3 Paraguayos
  • "It Aint Easy Comin' Down" - Charlene
  • "When I Find You" - Phil Seymour
  • "Zero Hour" - The Plimsouls
  • "Teen Angel Eyes" - Tommy Tutone
  • "Airwaves" - The Fortune Band
  • "In the Flesh" - Blondie
  • "España Cani" - The Dancing Brass
  • "One More Night - Phill Collins



Cineblog continua semana que vem com o polêmico “O último tango em Paris”.



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sábado, 12 de dezembro de 2015

DINASTIA: CAPÍTULO X - REVOLUÇÃO




Voltaram para São Paulo e Salvatore montou um novo negócio. Uma loja que vendia de tudo. Fogões, geladeiras, móveis. O negócio começou muito bem, fazendo sucesso.

São Paulo vivia o começo dos anos trinta. Pepe chegava à maioridade.

Salvatore crescia nos negócios e acabou sendo chamado para fazer política. Participava de reuniões, fez planos, queria ser deputado.

Nessa mesma época a política brasileira entrou em ebulição.

Em 1930 uma revolução impediu que o presidente do estado de São Paulo Júlio Prestes assumisse a presidência da República e derrubou do poder o então presidente Washington Luís dando fim à “República velha”.

Era a época da “política do café com leite”, essa política criada pelo presidente da República Campos Sales fez se alternar no comando do país políticos de São Paulo e Minas Gerais. Os estados mais ricos e populosos da União. 

Pelo revezamento o presidente em 1930 deveria ser mineiro. Mas Washington Luís em julho de 1929 depois de fazer consulta aos 20 presidentes de estados recebeu apoio de 17 para a candidatura de Júlio Prestes.

Com isso Minas Gerais rompeu com São Paulo, se aliou à bancada gaúcha e esses lançaram o nome de Getúlio Vargas.

Júlio Prestes venceu a eleição, mas não tomou posse. Em julho de 1930 o candidato a vice-presidente da chapa de Getúlio Vargas, João Pessoa, foi assassinado e esse crime foi utilizado como estopim de um movimento.

Os revolucionários conseguiram tomar o poder e Getúlio Vargas tornou-se presidente.

Instalou uma ditadura no país, suspendeu a constituição e nomeou interventores em todos os estados. Dissolveu o congresso nacional, estaduais e municipais.
 
Isso foi um grande golpe para São Paulo que passava a ser comandado por interventores de outros estados, um golpe em seu orgulho.

Começou um burburinho por todo o estado contra o governo federal. Naquele instante aquilo não afetava Pepe que vivia seu caso com Constância longe dos olhares dos outros e Oscar que também vivia o despertar de sua maturidade. Giuliana, a caçula fora enviada para um convento.

E a loja dos Granata ia bem a ponto de Salvatore conseguir comprar um automóvel, artigo de luxo para a época.   

Mas Salvatore estava cada vez mais engajado politicamente e todas as manhãs, na hora do café, esmurrava a mesa quando lia as notícias. Naquela época Pepe conseguira um emprego no jornal “Folha de São Paulo”, mas o jornal foi destruído.

Salvatore participava de reuniões semanais com outros comerciantes, empresários e artistas. A insatisfação aumentava cada vez mais e já se falava em pegar em armas.

Uma noite Salvatore não voltou para casa. A preocupação foi grande na casa dos Granata com Pepe e Oscar revirando a cidade atrás do pai. Salvatore apareceu apenas de manhã com aspecto cansado e dizendo que fora levado para interrogatório.

Pepe naquele momento despertava de sua vida feliz de juventude e via que algo sério ocorria.

Dora e Antonieta pediam a Salvatore que parasse com a política e apenas cuidasse do comércio, mas Salvatore se recusava alegando que São Paulo que recebera a família de braços abertos trinta anos antes, era o seu chão e não permitiria que violassem sua terra. Pepe ouviu as palavras do pai e disse que estava com ele na defesa do estado.

No aniversário da cidade em 1932 ocorreu um mega comício na região da Sé em defesa de São Paulo com a presença da família Granata.

Vários outros comícios aconteceram e Pepe preocupado alertava seu irmão Oscar do que estava por ocorrer. O irmão respondeu que não deixariam seu pai sozinho.

Os paulistas reclamavam e pediam o fim do “governo provisório”, pediam respeito a São Paulo que era tratada como “terra conquistada”.

Em 23 de maio de 1932 cinco jovens foram mortos no centro de São Paulo por partidários da ditadura pertencentes a “Legião Revolucionária”. O povo soube do ocorrido e saiu às ruas provocando grandes comícios e passeatas. No meio do tumulto invadiram a sede da “Legião Revolucionária” e foram recebidos a balas.

Em 9 de julho eclodiu o movimento revolucionário. Quando o levante se iniciou uma multidão novamente saiu às ruas apoiando e tropas paulistas foram mandadas para os fronts em todo o estado.

Foram abertos alistamentos de civis para o confronto e Salvatore comunicou à família que se alistaria. Dora implorou para que ele não fizesse e mais uma vez Salvatore respondeu que devia isso a São Paulo. O homem partiu e por um bom tempo a família ficou sem notícias suas.

Um dia Pepe acordou Oscar contando que o pai estava na região do “Vale do Paraíba”, região entre São Paulo e o Rio de Janeiro. Oscar espantado perguntou como o irmão sabia disso e ele respondeu que soube por amigos do pai.

Oscar perguntou o que eles deviam fazer e Pepe respondeu que iria atrás do pai. Oscar comentou que era loucura e o irmão poderia morrer. Pepe respondeu que não poderia deixar o pai sozinho nessa missão.

Oscar concordou e respondeu que iria com ele. Pepe pediu que ele ficasse e tomasse conta da família, mas Oscar se recusou e exigiu ser levado junto.

Pepe deixou uma carta, mais uma, para a família e partiu com o irmão. Alistaram-se e prosseguiram para o Vale do Paraíba.

Dora leu a carta aos prantos e Antonieta se perguntava o que ocorria com os homens daquela família. Constância ouvia a tudo e respondeu “são homens de fibra”.

Dora limpou as lágrimas e contou que tomaria conta da loja enquanto eles estivessem na guerra.

Os planos paulistas previam um rápido e fulminante movimento ao Rio de Janeiro, capital federal. O movimento começaria pelo “Vale do Paraíba”, a ideia era começar tomando a cidade fluminense de Resende.

Com essa esperança de vitória Pepe e Oscar chegaram ao Vale do Paraíba.

O local que comporta a região que é parte inicial da bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul abrange parte do leste do Estado de São Paulo e sul do Estado do Rio de Janeiro. Lugar de reservas naturais importantes contém algumas das montanhas mais altas do Brasil e é reduto de Mata Atlântica.

Não conseguiam encontrar o pai, nunca pegaram em armas na vida, tudo foi dificuldade para Pepe e Oscar. As forças do governo eram mais fortes, com mais combatentes e armas mais poderosas.

Mas encontraram também gente disposta a ajudar.

Em uma noite cansados, com fome e sede Oscar viu uma pequena casa com uma lavoura e chamou o irmão. Pepe respondeu que não era uma boa bater na casa, pois, poderiam pensar que eram inimigos. Oscar respondeu que custava nada tentar.

Oscar bateu palmas gritando “ô de casa!!”. Ninguém atendeu, tentou mais um pouco e nada.  

Pepe comentou com o irmão que era melhor desistir quando uma menina de olhar assustado, mais ou menos seis anos de idade apareceu na porta.

Oscar gritou que a menina não precisava se assustar, eles só queriam um pouco de comida e água. Naquele instante apareceu um senhor, aspecto cansado, enrugado, cabelo branco, um chapéu e bengala perguntando o que queriam.

Pepe ratificou o que o irmão disse e gritou que eram soldados paulistas e precisavam de comida e água. O homem pensou um pouco e mandou que entrassem. Pepe abriu o portãozinho que protegia a casa e foram em direção a porta.  

O homem se apresentou como Viriato Virgínio e era um pequeno agricultor da cidade de Cunha. Mandou que entrassem e contou que eram bem vindos.

Pepe e Oscar sentaram-se em cadeiras velhas. O calor era intenso e os dois irmãos apresentavam aspecto extenuado. A menina que apareceu na porta reapareceu na frente deles e Pepe perguntou seu nome. Ela olhou firme para o rapaz e não respondeu.

Viriato ressurgiu e contou que a menina não era de falar muito, principalmente com estranhos e Pepe sorriu para a menina dizendo que ela estava certa e iria se apresentar. Estendeu a mão e contou que se chamava Pepe Granata.

A menina sorriu e perguntou se ele era italiano. Pepe respondeu que não, seu pai era, mas ele era brasileiro e paulista como ela.

Naquele instante uma moça apareceu de dentro da casa com olhar desconfiado assim como a menina. Viriato mandou que ela relaxasse que eram boas pessoas, seus defensores.

Viriato contou aos irmãos que a mais velha se chamava Dulce e a mais nova Mariana e elas aprenderam com a mãe a serem desconfiadas. Oscar perguntou onde estava a mãe delas e o homem contou que morrera.

Oscar respondeu que sentia muito e Viriato sorrindo comentou que não precisava, já fazia muito tempo e feliz gritou para a filha mais velha colocar mais dois pratos na mesa.

Depois disse aos irmãos que eles nunca recebiam visitas e era uma honra receber dois soldados de São Paulo.

Sentaram pra comer e Viriato animado contou da vida deles. Tinha um pequeno pedaço de terra onde cultivava feijão, arroz e assim quase todo seu alimento vinha dali. Viajava às vezes e vendia alguns de seus produtos, dessa forma sobreviviam.

Pepe contou a saga dos Granata. De seu avô Benito Granata que era comerciante na Itália e para fugir da miséria viajou com a esposa e filhos ao Brasil. Contou tudo o que ocorreu na vida do avô e do pai e que o pai naquele momento estava na região, mas não conseguia encontrá-lo.

Mostrou uma foto de Salvatore para Viriato e perguntou se vira o pai por lá. O homem olhou bem e respondeu que não. Pepe contou que estava preocupado por não ter nenhuma notícia do italiano e Viriato mandou que não se preocupasse, pois, Deus sabia o que fazia.

Oscar interrompeu a conversa dos dois para dizer que a comida era deliciosa e há muito tempo não comia nada tão gostoso. Dulce sorriu e Viriato completou que a filha que fizera a comida.

Oscar brincou que a moça já podia casar e Viriato de bate pronto perguntou se ele não queria casar com sua filha. Faria muito gosto. Envergonhada Dulce apenas disse “papai!!” e Oscar sorriu.

Viriato convidou os dois para dormirem na casa e virou a noite conversando com Pepe na sala. No lado de fora Oscar, que pegara a mania do pai, olhava a Lua junto com Dulce.

Os dois, tímidos, ficaram um bom tempo em silêncio até que Oscar perguntou se era verdade que daria sua mão a ele. Dulce apenas sorriu e disse que só ele poderia confirmar.

Ficaram mais um tempo em silêncio e perguntou a moça se ele podia pedir sua mão em casamento ao pai. Dulce sorriu e ficou um tempo em silêncio. Oscar, nervoso, pediu que ela respondesse, pois, seu coração estava acelerado.

Ela sorriu e respondeu que sim, ele podia. Oscar deu um largo sorriso que parceria iluminar a noite e pegou na mão da moça. Os dois de mãos dadas olhando a Lua.

Entraram um tempo depois e Oscar contou que tinha uma pergunta a fazer ao dono da casa. Pepe assustado perguntou o que o irmão aprontara e Oscar encheu-se de coragem e pediu a mão de Dulce em casamento.

Pepe colocou a mão na cabeça com a ousadia do irmão e Viriato olhou um tempo em silêncio. Dulce nervosa pediu uma resposta ao pai e o homem sorrindo respondeu que iria abrir um vinho para comemorar.

Na manhã seguinte Pepe e Oscar voltaram ao front. Oscar deu um beijo na testa de Dulce prometendo voltar. Despediram-se e voltaram para a realidade.

Os paulistas chegaram a bombardear a cidade de Resende, mas com a falta de apoio de Minas Gerais em vez de atacarem tiveram que se defender.

Os combates mais importantes ocorreram no Túnel da Mantiqueira que divide São Paulo e Minas Gerais e era considerado um lugar estratégico de grande importância.

O terreno acidentado do Vale do Paraíba paulista e a existência de diversas cidades levaram a um combate encarniçado entre as tropas. Porém a superioridade de tropas e armamentos das forças de Getúlio Vargas levou a ocupação de diversas dessas cidades e ao recuo das tropas paulistas em direção à capital no final do conflito.

A guerra era perdida.

Com a tropa desmantelada era hora de Pepe e Oscar voltarem para casa sem conseguir cumprir o principal papel da missão, achar o pai. Antes de voltarem a São Paulo Oscar lembrou-se da promessa, iria casar com Dulce.

Voltaram a Cunha e Oscar bateu palmas chamando pelas pessoas da casa. Pepe notou que havia algo errado. O portão estava quebrado. Achou melhor entrarem.

Entraram e encontraram as plantações destruídas. Oscar notou a porta arrebentada e entraram. Os irmãos chamavam por Viriato, Dulce e Mariana e ninguém respondia. Um silêncio ensurdecedor.

Pepe viu manchas de sangue pela casa e Oscar começou a se desesperar. Gritava pela noiva quando ouviu um choro.

Gritou perguntando quem estava chorando e notou que vinha do quarto. Abriu a porta e olhou debaixo da cama. Era Mariana.

O rapaz contou que estava tudo bem e pediu que a menina saísse. Ela saiu e deu um abraço em Oscar com o choro ficando ainda mais forte.

Pepe deu um copo de água para a menina e perguntou o que acontecera.

As tropas do governo foram até a casa procurando por integrantes da tropa paulista, receberam a denúncia que alguns tiveram por lá. Bateram na porta de Viriato perguntando onde estavam os paulistas e o homem recusou-se a responder.

Estupraram Dulce na frente de Viriato que não disse uma palavra. Depois mandaram o homem cavar. Viriato foi obrigado a cavar sua própria sepultura e ao terminar gritou.

“Morro, mas São Paulo vence”.

Tomou um tiro na cabeça e foi enterrado no local. Dulce foi levada pelos soldados e nunca mais foi vista.

A menina contou toda a história e se abraçou a Oscar chorando copiosamente. Oscar e Pepe também tinham lágrimas nos olhos. O mais novo tentava consolar Mariana abraçado enquanto Pepe olhava pela janela, para o nada.

Pepe virou-se para Mariana e perguntou se ela tinha família além do pai e da irmã. A menina respondeu que não então ele perguntou se ela queria ir pra São Paulo com eles.

Mariana limpando as lágrimas respondeu que sim. Pepe mandou que ela pegasse suas coisas e se apressassem para irem embora. Quanto mais rápido fossem embora melhor.

A menina pegou e eles saíram da casa. Oscar viu um amontoado de terra e apontou para Pepe, era o local que Viriato foi enterrado. Os dois fizeram o sinal da cruz e partiram.

Pepe e Oscar não encontraram o pai, mas conheceram a guerra.

Viram o quanto ela é cruel, sangrenta, covarde e dolorosa e se a guerra por si só é tudo isso o que dizer de uma guerra entre irmãos? Em que matam pessoas com o mesmo sangue?

Getúlio Vargas venceu, mas os paulistas e os brasileiros em geral voltaram a ter o direito de votar. Ocorreu um processo de redemocratização e em 3 de maio de 1933 ocorreu eleição para a Assembleia Constituinte quando as mulheres pela primeira vez tiveram direito a voto.

Um civil paulista foi nomeado interventor de São Paulo, o governo federal fez as pazes com o estado e Getúlio Vargas participou pessoalmente da inauguração da Avenida 9 de julho em 1938.

A revolução constitucionalista se transformou em um grande
orgulho para São Paulo.

E um doloroso caminho de volta para Pepe, Oscar e Mariana.

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