quarta-feira, 10 de maio de 2017

AMAR DE NOVO: CAPÍTULO IX - A MOÇA DE BELÉM


Acordei no quarto de um hospital com a sensação que já vira aquele filme. O médico me olhava junto com a enfermeira e comentou que só fora um susto. Ainda anestesiado, sei lá, respondi "Não tem borboletas, tá tranquilo". O médico nada entendeu e eu fiquei pensando se na minha morte apareceriam borboletas.

Determinado momento ouvi uma voz feminina, suave, perguntando se poderia entrar. O médico respondeu que sim e ela entrou. Conhecia aquela moça. Mais ou menos vinte e cinco anos, branquinha, cabelos negros com uma franjinha, peitinhos empinados, ok não estou morto, e carinha de menina carente. Parecia assustada com tudo. Era a moça do avião, a que me atropelou.

Ela se aproximou e perguntou se estava bem. Fiz cara de muita dor e respondi que estava morrendo. O médico riu, ela ficou aflita e falei "Relaxa, tenho nada". A moça suspirou aliviada e o doutor comentou que em poucas horas teria alta.

Dormi mais um pouco e fui liberado. Troquei de roupa, saí do quarto e dei de cara com a moça. Tomei um susto e ela disse "Achei melhor te fazer companhia, você não sabe andar sozinho".

Saímos do hospital e carro com motorista já me esperava. A moça disse "Está entregue, foi um prazer". Me deu um beijo no rosto e saiu andando. Olhei para ela e pedi que esperasse. Ela se virou e perguntei para onde iria. Ela respondeu que não sabia, tinha o dia de folga. Olhei para ela, olhei o motorista e dispensei o mesmo alegando que já tinha quem cuidasse de mim.

Aproximei dela e perguntei se conhecia o Rio de Janeiro. Ela respondeu que muito pouco, só tivera na cidade uma vez e por 24 horas. Sorri, dei o braço para ela e falei "Arrumou o melhor guia”.

Ela agradeceu, me deu o braço e perguntei seu nome, era Fernanda. Falei "pois bem Fernanda, acho que está nascendo uma bela amizade" e saímos andando.

Levei Fernanda para conhecer a Vista Chinesa, Mirante do Leblon, Floresta da Tijuca e claro, os famosos Pão de Açúcar e Corcovado. Tiramos aquelas fotos típicas de turistas com os braços abertos como o Cristo e nos divertimos muito. Tempo que eu não me divertia tanto.

Do alto do Corcovado olhei a vista e comentei com Fernanda "Acredita que eu nunca tinha vindo aqui?". Ela riu e perguntou "Eu que sou de Belém e nunca morei aqui já vim o mesmo número de vezes que você?". Ri enquanto ela continuou comentando "Aqui da sensação de paz, tranquilidade". Continuei apenas olhando quando ela completou "Você me passa a impressão que precisa disso".

Perguntei porque ela achava isso e ela comentou "Seus olhos dizem isso. Nossos olhos falam por nós e eles guardam pureza e tristeza ao mesmo tempo". Tentei desconversar e perguntei o que mais ela via em mim. Fernanda brincou, pegou minha mão e começou a ler olhando depois meus olhos.

"Alma pura, bom coração, que parece carregar uma dor. Tem grana porque tem motorista, mas é simples porque até churros comeu aqui no caminho. É divertido, espirituoso e poderia viver como guia turístico. Se for corintiano é perfeito".

Ri, respondi que não era e ela completou "Ninguém é perfeito. Mas enfim, para ser um guia perfeito falta me levar a Copacabana". Aceitei de pronto e perguntei "De onde você surgiu?". Ela rindo e descendo a escadaria do Corcovado correndo respondeu "Da turbulência, não lembra?".

Fomos até a praia. Fernanda, que carregava uma mochila, deixou a mesma na praia e foi correndo para a água, de roupa e tudo. Se jogou na água enquanto eu gargalhava que ela era louca. Ela se jogava como criança e mandava que e eu entrasse que a água estava ótima. Sentei na areia e gritei "Você é louca!!".

Do nada ela começou a se debater na água e gritar por socorro. Perguntei o que ela tinha. Era nítido, estava se afogando. Olhei para os lados, pedi ajuda e tinha ninguém. É, tinha que ser eu mesmo...

Arrumei coragem e corri até a água. Botei o dedo no mar e vi que estava gelado. Mas a moça cada vez mais se desesperava e gritava socorro. Não teve jeito. Entrei na água e nadei até seu encontro.

Peguei em meus braços e ela estava com os olhos fechados, como desmaiada. Perguntei se estava bem, Fernanda abriu os  olhos e sorrindo disse "Meu herói". Fiquei injuriado, ela estava fingindo.

A moça começou a gargalhar e falei "Ah é? Vai ver o que é bom" me jogando com ela na água. Parecíamos duas crianças, de roupa, no mar jogando água um no outro.

Sentamos na areia e de lá vimos o por do Sol. Comentei que estava frio e Fernanda respondeu "Em Belém essa hora estaria chovendo". Comentei que fui poucas vezes a Belém e pedi que ela me contasse como era a cidade. Ela emendou "É um bom lugar, de gente acolhedora e feliz, que ama e tem orgulho de sua cidade. É muito quente também".

Ri e perguntei o que ela fazia, Fernanda respondeu que fazia faculdade de genética, era fascinada pelo assunto e se especializava em câncer, entrava agora no último ano da faculdade. Respondi a ela que o assunto câncer me gelava e ela respondeu "Posso parecer doida, mas me fascina. Fascina saber que posso ajudar a combater esse mal". Olhei para ela sério e comentei "Você tem razão, parece doida".

Repetiu que estava no último ano e anos antes, logo no começo, tinha vindo a cidade participar de um congresso, agora no fim voltava para participar de outro, no dia seguinte iria para Búzios participar do congresso e ficaria até domingo quando voltaria a Belém. Comentei que era pouco tempo e ela respondeu que sim, mas era fascinada pelo Rio de Janeiro e tinha planos de fazer mestrado na UFRJ no ano seguinte. Ri e comentei "Será muito bem vinda" quando ela comentou "você devia sorrir mais, tem sorriso bonito". Respondi que nem sempre a vida me permitia enquanto ela me olhou nos olhos e respondeu "Que bom que hoje está permitindo".

É..Estava..Como há muito tempo não permitia.

Vi um clima surgindo e tratei de acabar com ele voltando a olhar o mar e dizendo que estava realmente frio. Fernanda apontou o Arpoador e perguntou o que tinha ali. Respondi que era o Arpoador, ela comentou que devia ser bonito perguntando se podíamos ir. Eu não queria ir ao Arpoador com uma mulher que não fosse a Camila e respondi "Melhor deixar para outra vez. É perigoso essa hora".

Voltamos a andar, ela olhou o relógio e comentou que tinha que ir para o albergue, pois muito cedo iria pra Búzios. Respondi que levava e pegamos um táxi. Na porta do local descemos e ela agradeceu pelo dia especial e que eu devia investir na profissão de guia. Ri e desejei bom congresso a ela. Fernanda sorriu e falou "Anota meu telefone, vai que você decide aparecer lá de surpresa".

Anotei, dei um beijo em seu rosto e me encaminhei para o táxi. Naquele instante ela gritou "espera" e eu virei. a menina se aproximou e lambeu meu rosto. Assustado e rindo perguntei o que era aquilo. Com cara de moleca e andando para a porta do albergue Fernanda gritou "beijo de lesma".

Ela entrou, eu entrei no táxi e percebi que algo muito diferente ocorrera naquele dia.

Entrei em casa feliz, ainda pensando no dia que tive quando dei de cara com Gabriel sentado no sofá. Minha alegria aumentou mais ainda e dei um abraço apertado em meu filho perguntando o que ele fazia ali. Gabriel riu e perguntou em qual planeta eu estava já que avisara que vinha de Los Angeles naquele dia e eu tinha até combinado buscá-lo no aeroporto.

Ri e ele perguntou o que tinha ocorrido comigo de tão especial. Respondi "Fui atropelado" e pedi licença para tomar um banho.

Pedimos pizza e Gabriel comentou que acabara o curso e voltava de vez. Fiquei feliz com aquela notícia enquanto ele comentava que já tinha teste marcado para tentar entrar numa companhia de teatro. Queria mesmo ser ator. Perguntei se ele tinha notícias de Thais e ele desconversou dizendo "Não conheço nenhuma Thais".

Continuamos comendo e Gabriel perguntou qual era o motivo de minha felicidade e pediu que eu explicasse o atropelamento. Contei toda a situação e Gabriel gargalhou. Perguntei qual era a graça e ele respondeu "Caraca!! Não acredito!! Você está apaixonado!!".

Pra mim aquilo soava como ofensa. Eu apaixonado por alguém que não fosse a Camila? Impossível!! Levantei e comecei a colocar a louça na cozinha enquanto ele perguntava "Beijou? Deu uns pegas? É gostosa?" Mandei que me respeitasse que eu era o pai dele. Gabriel ficou rindo, voltei da cozinha e disse "É só amizade, tive empatia por ela".

Gabriel respondeu "É assim que começa" e joguei o pano de prato em sua cabeça.

Sim. Não iria negar que a Fernanda mexeu comigo mas não sabia ainda de que forma. Gostei de estar ao seu lado, me diverti como há muito não ocorria e era uma mulher cativante, doce, engraçada, cheia de vida, a vida que talvez eu não tivesse mais e precisava. Mas eu não podia nem pensar na hipótese de me apaixonar. Parecia ser uma afronta a Camila, como se tivesse lhe esquecendo e eu nunca permitiria que isso  ocorresse.

Camila era meu amor. Fernanda? Sem chance. Peguei o papel com seu telefone, amassei e joguei na lata de lixo. Cinco minutos depois estava revirando a lata e peguei de volta.

Dormi e não sonhei com Camila. Sonhei com a Fernanda. Nós dois no Arpoador e aquilo me assustou.

No dia seguinte, sexta, fui trabalhar. Imaginei que Fernanda fora para Búzios e fiquei ali sentado olhando o papel com telefone. Guga bateu na porta perguntando se podia entrar e entrou sem eu mesmo responder. Sentou e disse que tinha uma novidade para me contar, mas antes perguntou que papel era aquele na minha mão.

Mais uma vez, antes que eu pudesse falar algo, Guga pegou o papel de minha mão e leu. Fez cara de desconfiado e disse "Hummm, Fernanda". Respondi que era amiga que tinha conhecido e perguntou "É gostosa? Pegou nos peitos dela? Toda Fernanda que conheci era gostosa". Mandei que ele parasse de bobagem e que era apenas uma amiga realmente e ele perguntou se era o telefone dela e onde estava.

Respondi que era e ela estava em um congresso em Búzios. Guga perguntou se eu ia ligar para ela, respondi que não e ele botou o papel no bolso dizendo "Beleza, vou ligar, falar que sou seu amigo e dar uns pegas". De forma imediata levantei, disse que não e peguei o papel do bolso de meu amigo. Ele reclamou que eu não iria ligar e mulher não se desperdiça quando eu disse que Fernanda era diferente, não era pro bico dele. Guga riu e comentou "Você não consegue esquecer que te tomei Amanda".

Mais uma vez falei que não, eu já tinha terminado com ela e voltamos a velha discussão.

Continuei com aquele papel na mão sem saber o que fazer. Na noite seguinte era festa de aniversário de Ericka e eu compareci. Guga perguntou se eu tinha ligado para Fernanda e respondi que não fazendo ameaça "Se continuar pedindo vou falar com sua esposa, que vem a ser minha irmã, e ela é braba". Guga respondeu "Não ta mais aqui quem falou" e perguntei qual era a novidade afinal que ele queria me contar. Guga respondeu "Nada demais, vou fazer prova pra juiz".

Ri e perguntei "Juiz de futebol?". Ele respondeu de direito e que se eu não me ligasse para Fernanda me meteria em cana.

Conversávamos quando a campainha tocou e minha irmã foi abrir a porta. Abriu e deu um grito dizendo "Não acredito!! Você veio!!".Quando olhei quem era tomei um susto. Gabriel que se aproximara de mim e Guga se assustou mais ainda.

Era Thais.

Gabriel perguntou se eu sabia que ela iria e respondi que não. Ericka chegou com ela no meio dos convidado e disse "Minha querida amiga Thais diretamente de Houston". Thais deu um sorriso sem graça e olhou para meu filho que desviou o olhar.

Mas era inevitável. um olhava o outro de vez em quando. Perguntei a Gabriel o que ele faria e ele respondeu que não tinha o que fazer.

Eram cinco anos desde a partida de Thais, desde o casamento. Muitas coisas ocorreram e é curioso o que a vida faz com casos de amor.

Gabriel saiu um instante para se servir de sobremesa e sem querer esbarrou na pessoa ao lado. Era Thais. Inevitável que aquele encontro ocorresse. Gabriel cumprimentou e Thais devolveu o cumprimento. Gabriel perguntou como ela estava, Thais respondeu que bem, devolveu a pergunta e Gabriel perguntou por Ronaldo.

Thais contou que falecera, Gabriel disse "Sinto muito" e ela se afastou.

Me aproximei e perguntei se estava tudo bem. Sem tirar os olhos dela Gabriel respondeu "Ronaldo morreu" e foi atrás de Thais que estava na sacada. Ele se aproximou e perguntou "Morreu como?".

Thais respondeu que quatro meses depois de chegarem a Houston. A saúde dele já estava muito abalada no Brasil e ela sabia que não resistiria muito tempo, foi um dos motivos de casar.

Perguntou se ela tinha casado por pena e Thais respondeu "Por amor, mas você nunca entenderia".

Thais se afastou e Gabriel ficou sozinho na sacada.

Continuaram se olhando afastados e Guga comentou comigo. Respondi que tinha reparado e ele emendou "Em vez dele ir lá e tascar um beijão nela fica de longe olhando. Os caras da sua família são muito parados, por falar nisso me passe o telefone da tal Fernanda". Recusei e enquanto Guga esbravejava um "chato pra caralho"  Ericka pediu a palavra.

"Queria muito agradecer a todos vocês pela presença. Meu pai e minha mãe, exemplo maior de casal que conheci até hoje, meu querido e doce irmão mais velho Toninho, meus irmão de coração, a todos vocês meus irmãos de coração. Quase todas as pessoas que amo estão aqui hoje, excetuando minha tia Bia e até o Guga, a mala que escolhi para marido está. To brincando amor, nem tanto, você é mala sim".

Todos riram e ela continuou.

"Enfim, queria agradecer a todos vocês e falar daquilo que nos une, que nos faz estar aqui celebrando essa noite. O amor. Não foi inventado nada mais importante no mundo que o amor e devemos agradecer todos os dias a Deus por existir esse sentimento e ser cultivado. Falta amor ao mundo. Um amor que não pede nada em troca, que não tem intolerância, preconceitos, humilhações até porque se existem essas coisas não há amor. Vamos amar mais até porque quem ama não precisa se preocupar com o mal. O amor só nos traz bondade e paz de espírito. Isso que eu desejo a todos você, a todos nós, que o amor entre a gente sempre prevaleça".

Todos aplaudiram. Samuel, que era um dos deputados federais de maior destaque da câmara carregando justamente a bandeira do amor e do fim do preconceito brincou que ela devia escrever seus discursos. Dona Hellen chorava de orgulho e Osmar brincava que Guga não tinha estragado o lado romântico de sua filha.

Guga e eu olhávamos para Ericka sendo cumprimentada e meu amigo comentou "Até me sinto mal, me sinto safado com uma mulher linda dessas fazendo esse tipo de declaração e ao mesmo tempo pedindo a você telefone de outra mulher". Respondi "Finalmente você está criando bom senso" quando ele contra-atacou "passou o mal estar, me passe o telefone da garota".

Mandei que ele parasse de bobagens e fosse cumprimentar sua esposa. Guga foi até Ericka e deu um beijo em suas mãos lhe convidando para dançar. Foram até o meio da sala e o DJ colocou um bolero. Começaram a dançar com Ericka interrompendo e dizendo "Para com isso, não é essa".

O DJ interrompeu e colocou a música de Pulp Fiction que John Travolta dança com Uma Thurman. Bem mais a cara deles.

Gabriel e Thais continuavam se olhando de longe e eu pensando em Fernanda. Olhei o relógio, comentei com Gabriel que estava tarde e eu iria embora. Meu filho comentou que estava cedo e respondi que tinha sono. Me despedi dele, de minha mãe, Osmar, minha irmã e saí à francesa.

Cheguei no apartamento, deitei na cama e não conseguia pegar no sono. Rolava na cama e dessa forma vi o dia amanhecer. Já tinha Sol quando eu estava sentado na mesa olhando o papel com o telefone de Fernanda.

De repente me deixei levar por impulso. Impulso que guiava o velho Toninho na juventude. Levantei, peguei a chave e saí.

Dirigi até Búzios.

Chegando lá liguei para Fernanda. Perguntei se ela estava bem e lembrava de mim. A moça respondeu que sim e falei que ela ficava muito bem de blusa vermelha e saia jeans.

Fernanda me perguntou como eu sabia e respondi " Porque estou falando com você encostado ao meu carro do outro lado da rua".

Ela me viu e veio correndo me abraçando forte.

É..Vamos ver aonde isso vai dar...



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