terça-feira, 2 de maio de 2017

AMAR DE NOVO: CAPÍTULO VIII - ESCOLHAS


Eu almoçava com Gabriel em um restaurante quando o telefone dele tocou. Meu filho atendeu e logo começou a falar "Se acalme, por favor se acalme, me conte o que está acontecendo". Depois de um tempo ouvindo ele disse “Estou indo praí" e desligou. Perguntei qual era o problema e ele respondeu que não entendera direito, era algo relacionado a Ronaldo e precisava ir ao hospital.

Levei meu filho. Entramos no local e Thais veio correndo abraçar Gabriel. Ele pediu com calma que ela contasse o que ocorria e Thais relatou que o noivo tivera uma parada cardíaca em campo e estava em uma cirurgia entre a vida e a morte. Reparei que um homem não parava de olhar para nós, mas fingi não perceber. Gabriel pedia a moça para se acalmar, que tudo daria certo e comentei baixinho "não tem borboleta".

Thais nos apresentou as pessoas que ali estavam, parentes de Ronaldo e o homem que não parava de olhar. Era João, pai de Thais.

Nos cumprimentou com firmeza, olhos nos olhos, parecia incomodado com nossa presença. Gabriel não reparou, mas eu não consegui mais tirar os olhos daquele homem.

Depois de um tempo o médico saiu do centro cirúrgico e todos foram a ele saber notícias. O doutor relatou que a cirurgia fora bem sucedida, mas que o rapaz tivera que colocar ponte de safena e mamária. O pai de Ronaldo não se conformou, o rapaz tinha apenas vinte e três anos e já passava por uma situação como aquela. Evidente que sua carreira no futebol, o que mais amava, se encerrava ali.

Thais sentou chorando e Gabriel sentou ao lado. Meu filho não sabia o que fazer. Não sabia se dava um abraço, pegava na mão, apenas ficou ao lado mostrando que estava ali para o que desse e viesse. Eu olhava para ele e previa tempos difíceis para meu menino.

Ronaldo tinha que passar por um período difícil de recuperação. Aceitar que não poderia mais jogar futebol, as limitações de seu corpo, nada era fácil. Não foi fácil para Thais que não saía de seu lado tentando dar toda força possível, menos ainda para Gabriel que tinha que assistir a tudo aquilo.

A moça pedia paciência a ele. Dizia que era só por um tempo e quando ele estivesse mais forte separaria e assim os dois poderiam viver seu amor. Gabriel tinha toda paciência do mundo, entendia Thais, mas sofria.

Ronaldo fazia exames regulares e aparentemente as coisas melhoravam. Thais já se sentia mais forte para dar fim ao noivado e em um encontro com Gabriel comentou isso. Meu filho perguntou se tinha certeza e ela respondeu que sim. Naquela tarde ele faria mais uma consulta e após a mesma pediria o fim.

A moça foi com Ronaldo a consulta e o médico com semblante sério, começou com aquela frase que me dá frio na espinha "As notícias não são boas".

Ronaldo, com muito medo, perguntou qual era o problema e o médico contou que o coração estava muito prejudicado, mais do que imaginavam e não havia outra solução se não um transplante. Thais sentiu o noivo fraquejar tremer e firme apertou sua mão com força enquanto ouviam o médico.

Algumas horas depois Gabriel estava em casa quando a campainha tocou. Ele abriu a porta e Thais entrou chorando muito e lhe abraçando.

Não era uma situação fácil. Existia o amor forte entre Gabriel e Thais e a compaixão que Thais sentia por Ronaldo. A moça ficava em uma encruzilhada. De um lado o amor que sentia, a sua felicidade, do outro saber que a felicidade de alguém, a vida de alguém dependia dela. Ainda estava fresco na memória de todos a situação de Bia e Nando e as consequências de uma escolha. Bia estava errada? Não estava, mas evidente que acontecimento como aquele faz pensar.

Foram meses de agonia em uma fila de transplantes até que surgiu um doador. Thais cada vez mais cuidava de Ronaldo e se afastava de Gabriel que se entristecia, não era mais aquele garoto feliz e risonho de sempre.

Uma tarde estava em minha empresa quando a secretária comentou que tinha um homem querendo falar comigo, mas sem hora marcada. Respondi que sem hora marcada não tinha como atender e ela completou "Disse que é João, pai de Thais".

Estranhei aquela situação e mandei que o homem entrasse.

O homem entrou, me cumprimentou, pedi que sentasse e perguntei se ocorrera algo. João, muito sério, foi direto ao assunto. Ele disse que a filha nunca contou, mas ele não “nascera ontem”  e sabia que algo ocorria entre ela e meu filho.

Respondi que só os dois poderiam dizer e ele completou. "Acho que pro bem de todo mundo é melhor que os dois se afastem".

João respondeu "Ronaldo precisa muito mais dela agora que seu filho que é jovem, saudável, cheio de vida pela frente e de oportunidades". Perguntei se era isso que ele pensava do amor, era algo que se precise não sinta e ele continuou "Antonio, sei do que ocorreu com você, sinto muito, também perdi minha esposa e não é fácil viver com essa dor. Não quero que minha filha viva essa dor".

Respondi "Nós não podemos escolher que nossos filhos vivam uma dor ou não, apenas torcer para que valha a pena tudo que ocorreu até chegar a ela e se sua filha não ama o noivo não vale".

João se irritou e disse que sabia do que valia a pena para sua filha mais  que eu que devolvi "Meu filho não vale a pena para você, não é?".

João, enfim foi direto "Seu filho matou uma mulher, responde perante a lei, não quero minha filha envolvida com ele." Devolvi "Ele responde a lei e eu vou responder também se não sair imediatamente da minha sala. Vou responder por jogar um canalha da minha janela". João se levantou, olhou para mim e pediu que falasse com Gabriel para se afastar de Thais, respondi que ao contrário dele não achava meu filho minha propriedade e ele que decidiria o que fazer.

João saiu e algum tempo depois Gabriel entrou perguntando se aquele não era o pai de Thais e o que ele queria. Respondi "Parece que você não é muito popular com seu sogro".

Alguns dias se passaram. Foi marcado o transplante de Ronaldo ao mesmo tempo em que chegou o aniversário de Thais. Todos fomos a festa e a moça estava lindíssima em um vestido branco. João foi cortês comigo e respondi a cortesia, mas evidente que o homem estava incomodado com nossa presença.

Gabriel tentava falar com Thais que toda hora fugia de meu filho, sem olhar em seus olhos respondia que depois conversavam. Ronaldo tinha aparência frágil, mas se mostrava feliz, confiante que tudo daria certo.

Na hora dos parabéns Ronaldo pediu a palavra.

Todos pararam para ouvir. Emocionado Ronaldo agradeceu a todos que convidou e compareceram ao aniversário de Thais, que era o amor de sua vida. A companheira que ficou a seu lado o tempo inteiro, nos melhores e piores momentos e a quem devia tudo, principalmente a vida, pois sem ela não teria motivos para lutar.

Contou que na semana seguinte faria sua cirurgia e teria todos os motivos para estar apavorado, mas não estava porque a noiva lhe dava a força necessária e por fim anunciou que sairia vivo dali, recuperado e em dois meses casariam.

Todos aplaudiram com entusiasmo aquele momento, menos Gabriel que ficou sem reação e eu que não conseguia tirar os olhos dele. Gabriel saiu do local e fiz menção de ir atrás dele. Mas desisti. Por experiência própria sei que em alguns momentos precisamos ficar sozinhos.

No dia seguinte Gabriel estava em casa, a campainha tocou e era Thais. Ele abriu e os dois ficaram em silêncio, um olhando o outro. Em um rompante Thais agarrou meu filho e lhe beijou. Os dois dali foram para o quarto e fizeram amor.

Deitados na cama abraçados e ouvindo Eduardo Dusek ficaram em silêncio. Depois de longos minutos Gabriel tomou coragem e perguntou "Isso é uma despedida , não é?". Thais apenas ficou em silêncio. Meu filho prosseguiu “Eu devia dizer que você está totalmente certa. Ele precisa muito mais de você hoje que eu. Sei que o amor é doação, é querer ver o outro bem, mas não acredito no amor que não tenha pelo menos uma pequena dose de egoísmo”.

Thais olhou para ele e chorando disse "Desculpa". Gabriel abraçou forte a moça e os dois ficaram ali, em silêncio.

A cirurgia de Ronaldo foi bem sucedida, o pós-operatório complicado, mas Thais não abandonou o rapaz em nenhum momento até que o casório chegou.

Ericka foi convidada para ser madrinha e antes de ir para a igreja passou em nosso apartamento para conversar com Gabriel.

Meu filho disse que a tia estava "gata" e perguntou o que ela queria. Ericka respondeu com uma pergunta "Sabia que tem casamentos que se desfazem na porta da igreja ou mesmo na hora do sim?". Gabriel respondeu "Sim, com meus pais foi assim". Ericka emendou "Que bom que você sabe".

Minha irmã foi embora e Gabriel ficou um tempo na sala pensando. De repente gritou "Guga, vou pegar seu carro!!" pegando a chave em cima da mesa e saindo em disparada".

Gabriel ainda não podia dirigir, mas não quis nem saber. Depois de meses pegou no volante e saiu em disparada em direção a igreja. No local Ronaldo esperava Thais no altar.

Thais entrou linda, mas não tinha o sorriso de quem vai se casar e começar uma vida em conjunto. Ronaldo beijou sua mão, cumprimentou João e levou a moça ao altar. Ouviram os dizeres do padre, falaram os "sim", trocaram alianças e saíram.

Ronaldo e Thais saíram da igreja casado e sob chuva de arroz. Gabriel, encostado no carro, assistia a tudo do outro lado da rua sem ser percebido.

Depois de algum tempo estava sozinho no Arpoador quando eu cheguei. Coloquei a mão em seu ombro e sem olhar ele disse "Sabia que você vinha". Sentei ao seu lado respondendo "Eu nunca saí de perto de você".

Ficamos um tempo em silêncio até que Gabriel começou a chorar e dizer "Eu não consegui". Colocou a cabeça em meu colo e chorando compulsivamente continuava "Eu não consegui!! Eu não consegui acabar com o casamento!!". Eu nada falava, apenas ouvia meu filho e entendia sua angústia. Ver a felicidade, o amor indo embora sem poder fazer nada. Não conseguiu ser egoísta na hora da perda e acabou praticando aquele que é o maior ato de amor. O da doação. Doação e egoísmo. O amor sobrevive e se regenera através deles e nem sempre é fácil decidir em qual momento usamos cada um desses sentimentos.

Ficamos em silêncio. Ele com a cabeça no meu colo e chorando. Eu olhando a vista do Arpoador e tentando entender porque os homens daquela família não conseguiam ser felizes no amor

Um pouco depois de voltar da Lua de Mel Ronaldo e Thais decidiram se mudar. Foram para Houston, Estados Unidos, onde tinha os melhores médicos e assim continuar o tratamento. Gabriel prosseguiu sua vida mesmo devastado com a perda de Thais. Conseguiu se livrar da pena e continuou trabalhando em nossa ONG por vontade própria auxiliando minha mãe no gerenciamento. Conhecia várias moças, tinha seus casos que podiam durar semanas ou apenas uma noite, mas nada que pudesse levar a sério. Estava virando um novo Guga, apesar de que sobre esse haviam suspeitas de estar apaixonado e com relacionamento sério apesar dele negar.

Falando em Guga, uma manhã ele se aprontava para ir ao fórum quando percebeu uma menina tomando café em nosso apartamento. Ele foi, voltou e cumprimentou. A moça que vestia apenas um blusão mal abotoado devolveu o cumprimento e continuou tomando café. Ele se sentou e se apresentou como Gustavo, mas que poderia lhe chamar de Guga.

Ela sorriu e quando ia dizer o nome ele interrompeu "Não precisa dizer, vou adivinhar, no mínimo seu nome é Linda e você é uma princesa, acertei?". Ela riu e devolveu "cantada engraçada tio, já conseguiu pegar alguém com ela?".

Antes que Guga se recompusesse do “tio” ela continuou "Não sei se você reparou tio, mas essa blusa é muito grande pra mim, eu estou usando a blusa do meu acompanhante que eu acho que se chama Gabriel, eu estava muito bêbada ontem, não lembro e ele está no banho. Como agora estou sóbria digo que não acho legal ficar com dois caras que moram na mesma casa em intervalo tão pequeno, você me entende né tio?".

Guga sorriu amarelo, pegou uma torrada e disse que estava atrasado se despedindo e saindo.

Nisso Gabriel saiu e foi cumprimentar a moça dizendo "oi..oi.." ele esquecera o nome quando ela cortou e disse "relaxa, foi só sexo, senta que o café está esfriando".

O tempo foi passando, os anos também e a vida tentava andar. Como eu disse Gabriel trabalhou um pouco com minha mãe na ONG, mas livre da pena logo voltou a se aventurar pelo mundo. Ficou quatro meses como mochileiro fazendo suas andanças até que voltou ao Rio de Janeiro apenas para me contar uma coisa. Decidira levar a sério a carreira de ator. Como eu disse anteriormente o menino levava jeito.

Concordei, disse que todos nós devíamos seguir atrás de nossos sonhos e perguntei como ele pensava em fazer. Ele mostrou que se matriculara numa academia de cinema em Los Angeles, quatro anos de curso. Ri e comentei que ele era rápido, já se matriculara e que ficaria com saudades naqueles quatro anos de afastamento.

Gabriel me deu um abraço e respondeu que seria rápido completando "Serei o maior ator do Brasil".

Dessa forma Gabriel viajou para Los Angeles e eu toquei minha vida, trabalhando e procurando não pensar em meus fantasmas.

De vez em quando ia a Los Angeles visitar Gabriel, trocávamos mensagens e nunca meu filho tocava no nome de Thais. Não tivemos mais notícias dela e imagino que as lembranças dela lhe faziam sofrer. Gabriel não se estabeleceu em nenhum relacionamento de forma fixa, nem falava muito de sua vida pessoal.

Mas algumas coisas aconteceram naquele período. Guga realmente estava apaixonado e começou a namorar. Tal qual nosso espanto descobrir que era com Ericka!! Sim, minha irmã. Minha mãe deu
força dizendo que conhecia Guga desde garoto. Osmar ficou injuriado e foi contra o namoro, mas acabou cedendo. Em três meses de relacionamento já estavam morando juntos.

Jessé, que passara um tempo morando conosco após a tragédia na família, continuou estudando com afinco e se formou na escola naval se tornando oficial. Fui a sua emocionante formatura e imaginei o quanto Nando ficaria orgulhoso ao ver seu garoto com roupa de oficial da Marinha. Jessé continuava brigado com Bia e não convidou a mãe para a formatura mesmo com a insistência dela.

No fim da cerimônia dei um abraço no garoto, falei que estava orgulhoso e tentando amenizar a sua situação com a mãe comentei que só faltava uma pessoa ali. De pronto Jessé respondeu "Sim, meu pai" encerrando o assunto.

Não seria ali a reconciliação. Só o tempo diria se ela iria ocorrer.

E eu pela primeira vez me via realmente sozinho. Sem Gabriel, Jessé e Guga dividindo o apartamento me sentia vazio. Os anos passavam, todos encaminhavam suas vidas e eu continuava preso ao meu passado.

Ainda sonhava com Camila. Não sonhava com frequência, mas de vez em quando ela aparecia e conversava comigo. Parecia real, parecia que realmente ela estava próxima de mim.

Determinada noite sonhei com ela na praia. Andávamos pela mesma praia que casamos em silêncio. Determinado instante Camila me perguntou "Não está na hora de você voltar a viver?".

Olhei para ela, continuando a andar e comentei que nunca parara de viver, que acordava cedo todos os dias, trabalhava, crescia, produzia..Camila, ainda andando riu e disse "Falo viver para você, você está enganando a vida".

Olhei para ela com cara de quem não entendia e Camila continuou "Sabe o que acontece? Sua vida anda muito calma, parece que está em um voo tranquilo, em piloto automático".

Não entendi e perguntei se não era aquilo que todos procuram. Camila passou a mão em meu rosto e completou "Às vezes precisamos de turbulências". Parei e Camila continuou andando. Ela olhou para mim e perguntou "Me ama?" respondi "Pra sempre". Camila voltou a andar, virou-se para mim e disse "A vida precisa de turbulências..".

Turbulência...

Foi Camila falar aquilo e tomei um susto. Tive esse sonho em um avião vindo de Belém depois de participar de um congresso. Acordei assustado e ao lado uma moça simpática, na altura de seus vinte e cinco anos perguntou se eu estava bem. Respondi que estava e só me assustara com a turbulência. A moça sorriu e comentou que era normal, ela também se assustava às vezes e completou "Mas turbulência às vezes faz bem".

Tomei um susto com o que ela disse e pedi que ela repetisse. A moça mandou "Durma de novo, acho que você estava tendo um sonho bom. Sorria enquanto dormia". Eu me assustava com aquele papo e ela finalizou "Não lembro muito de meus sonhos. Queria poder lembrar e sorrir como você".

Tentando absorver aquela história toda me ajeitei na poltrona quando novamente entrou em turbulência e em um impulso peguei na mão da moça. Percebi depois o que fizera e pedi desculpas. Ela pegou novamente minha mão, sorriu e comentou "Não precisa ter medo. É só turbulência".

Não nos falamos mais durante o voo, apenas para nos despedirmos quando ele aterrissou. Desci do avião e peguei o celular para falar com diretores da gravadora. Falava com eles e saí do aeroporto para chamar um táxi. Atravessei a rua sem olhar os lados falando no mesmo quando de repente fui atropelado.

Caí no chão só ouvindo abrir de portas e vozes. Uma mulher perguntou "Meu Deus, será que morreu?" enquanto um homem respondeu "não tive culpa moça, ele apareceu do nada na minha frente".

Abri os olhos e dei de cara com um homem vestido de taxista aliviado e dizendo "Ta vivo". A mulher, aflita, disse para que eu não me mexesse que já tinha chamado ambulância e pedindo desculpas pelo atropelamento.

Apenas olhei para ela espantado e antes de desmaiar comentei.

"Atropelamento. Não pode ser".


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AVENTURA

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