terça-feira, 8 de agosto de 2017

QUINZE ANOS: CAPÍTULO V - ABRIL


Abril chegou e eu desesperado por estar atrasado peguei uma bicicleta. Mesmo sem saber andar de bicicleta andei em disparada e por um grande milagre não caí.

Desviava de carros, pessoas, buracos, desafiava o sinal vermelho. Eu era o cara, era o bom.

Em um momento de distração me vi a frente de um abismo e não consegui parar. Apertei os freios e nada. Em um grande ato de desespero fechei os olhos e gritei.

E por incrível que pareça a bicicleta voou. Voou com o Sol a fundo em uma imagem linda que parecia saída de um filme vencedor de Oscar.

Com o voo ganhei impulso e desci bem a frente do colégio para espanto de todos. Ericka era uma das que me assistia. Larguei a bicicleta e corri ao seu encontro lhe pegando nos braços e dando um beijo apaixonado sob aplausos de todos.

Enquanto beijava Ericka escutei uma voz dizendo “ET..minha casa..telefone”, quando olhei um ser estranho saía da cestinha da bicicleta com um dedo enorme que acendia.

Todos gritavam e enquanto eu gritava minha mãe me puxava na cama mandando que eu acalmasse que era só um sonho.

Assustado eu gritava perguntando pelo ET quando levantaram da cama ao lado. Era George que resmungou “burro eu sou, tudo bem, mas ET é sacanagem”.

Ele tinha ido dormir lá em casa e eu nem lembrava.

Tomamos café e fomos correndo pro colégio. Pra variar não cheguei a tempo e recebi o carimbo de “atrasado” de seu Juarez.

Abril de 1989 me serviu em algumas coisas. Primeiro pra ter a certeza que pela primeira vez em muitos anos eu não teria professores chatos. A mãe de George só dava aulas para 5° e 6° série. A segunda que eu poderia lucrar com o tal de “samba-enredo”.

A professora de história pediu que fizéssemos um trabalho em cima do samba “Liberdade, liberdade, abra as asas sobre nós” que a Imperatriz Leopoldinense foi vencedora do último carnaval carioca e mostrássemos os erros históricos do samba.

Na época não tínhamos internet, google nem pensar e só eu conhecia o samba. Foi muito bom negociar com meus colegas..

Em troca de copiar a eles a letra do samba ganhei muitos lanches. Copiei várias, mas pra um gordo como eu valeu muito a pena, por uma semana não precisei comprar lanche nem levar de casa.


IMPERATRIZ LEOPOLDINENSE 1989

(Niltinho Tristeza, Preto Jóia, Vicentinho e Jurandir)

Vem, vem reviver comigo amor
O centenário em poesia
Nesta pátria mãe querida
O império decadente, muito rico incoerente                                                                                                   Era fidalguia                                                                                                                                                                                                                                          
Surgem os tamborins, vem emoção
A bateria vem, no pique da canção
E a nobreza enfeita o luxo do salão, vem viver

Vem viver o sonho que sonhei
Ao longe faz-se ouvir
Tem verde e branco por aí
Brilhando na Sapucaí

Da guerra nunca mais
Esqueceremos do patrono, o duque imortal
A imigração floriu, de cultura o Brasil
A música encanta, e o povo canta assim

Pra Isabel a heroína, que assinou a lei divina
Negro dançou, comemorou, o fim da sina
Na noite quinze e reluzente
Com a bravura, finalmente
O Marechal que proclamou foi presidente

Liberdade! Liberdade!
Abre as asas sobre nós
E que a voz da igualdade
Seja sempre a nossa voz

As coisas prosseguiam como em março. Não tive mais notícias de Fabíola, tinha virado amigo mesmo da Raquel sem nenhum interesse a mais, vivia uma parceria inesquecível com grandes cinco amigos e estava completamente apaixonado por Ericka.

Saía com eles. Ia a pizzaria, dava voltas de dia, jogava tênis no aterro do Cocotá, esporte que eu adorava mesmo sendo péssimo, mas a Ilha não tinha muitas opções de lazer, o shopping só foi inaugurado em 1992.

Mas no bairro da Portuguesa eis que surge o “Patin House”. Lugar dançante feito para os adolescentes se divertirem.

O Patin foi o assunto durante a semana toda no colégio. Meus amigos doidos para ir faziam mil planos e descobri que até a Ericka iria à danceteria.

E eu?

Estava doido de vontade de ir, mas eu era um garoto tímido, desajeitado e não sabia dançar. Sempre tirei onda que dançava bem, era o maioral, mas a verdade é que eu sabia dançar nada.Falei para eles que não sabia se iria, tinha compromissos sábado, mas eles ficaram me enchendo e eu cheio de vontade de ir com eles não sabia o que fazer.

Em casa minha mãe comentou da inauguração e eu reclamei “até você mãe?”. Ela perguntou qual era o problema e eu depois de muito relutar confessei que não sabia dançar. Minha mãe respondeu que também não sabia, mas lá em casa mesmo tinha uma pessoa que sabia, minha avó.

Minha avó sempre foi uma pessoa extremamente musical. Na minha infância e adolescência era normal eu acordar ao som de Cauby Peixoto, Ângela Maria, Aguinaldo Timóteo e Julio Iglesias com som altíssimo e minha avó cantando mais alto ainda. Eu ficava irritadíssimo, péssimo humor, mas pelo menos ela cantava bem.

Quando eu levantava ao som da vitrola e via a mesa recheada de coisas boas era a senha. Ventania vinha aí.

Ventania era o nome do namorado de minha avó. Ex jogador do América nos anos 40, quebrou a perna e nunca mais jogou. Trabalhou na Caixa Econômica Federal e lá conheceu minha avó quando ela foi fazer penhora de jóias. Já namoravam há um bom tempo, se divertiam, eram apaixonados.

Gostava de conversar com ele e ouvir coisas de seu tempo, de quando jogava bola. Eu gostava de joga bola com ele e foi o Ventania que me ensinou a rodar peão.

Ventania passava a manhã em nossa casa pelo menos uma vez por semana, geralmente quinta-feira. Chegava, tomava café da manhã conosco, os dois dançavam e sumiam. Eu na minha inocência dos quatorze anos não sabia para onde iriam.

Quando minha mãe falou do lado dançarino de minha avó lembrei-me dela dançando com Ventania na sala de nossa casa e pensei que fosse uma boa. Procurei por ela e contei meu problema. Minha avó sorriu e respondeu que seria fácil de resolver. Pegou vários LPs no armário e me chamou para dançar.

Começamos a dançar, mas falei com ela que algo ia errado. Não dançariam bolero e tango no Patin House e eram as danças que ela queria me ensinar. Minha avó pediu que eu me acalmasse que tudo daria certo.

Acabou que fui à inauguração. Minha mãe me levou de carro e pedi que ela parasse na esquina porque era vergonhoso chegar com mãe a danceterias.

Quando desci dei de cara com Luis Felipe também descendo do carro de sua mãe. Atravessei a rua e olhei bem sério para ele. Felipe entendeu o meu recado e disse “ninguém vai saber” de pronto apertei sua mão e retruquei “segredo nosso”.

Ao chegar à frente do Patin House demos de cara com Gustavo, Rodrigo, Marco Aurélio e George que nos esperávamos. George com smoking em um lugar que todos estavam de camisa, tênis e cança jeans era o mais animado dizendo que a noite prometia e que iria finalmente transar.

Rodrigo riu de George por ele ainda ser virgem e Gustavo cutucou o irmão mandando que ele parasse de querer se mostrar porque também era. Começamos a rir e furioso Rodrigo respondeu que não era, lembrando ao irmão de uma ida deles a uma fazenda do tio no verão anterior.

Gustavo gargalhando respondeu que galinhas e vacas não contavam como transas e a gargalhada foi geral.

Ericka chegou com meninas do colégio e nos cumprimentou. Meu coração acelerou só em responder “Oi Ericka”. Elas se afastaram e Marco Aurélio me abraçando contou que eu não precisava ficar nervoso porque tinha ali a solução para tudo.

Perguntei qual era e ele mostrou uma sacola. Dentro dela tinha uma garrafa de uísque e perguntei onde ele tinha arrumado aquilo, Marco respondeu que roubara de seu pai. Gustavo ainda tentou argumentar que aquilo daria problema com “seu coroa”, mas Marco mandou que ele relaxasse e tomasse um gole.

Gustavo relutou um pouco, mas tomou e depois fez careta dizendo que era muito forte. Marco respondeu que a intenção era mesmo essa. Rodrigo, Luis Felipe e George fizeram fila para beber e no fim Marco perguntou se eu não iria experimentar. Respondi que não, pois, não gostava de bebida alcóolica.

Marco guardou a bebida me dizendo “você que sabe” e George insistiu para que entrássemos porque queria transar.

Entramos e a danceteria estava cheia, esfumaçada como uma boa danceteria dos anos oitenta. Os meninos logo começaram a se divertir e Gustavo e Luis Felipe, os menos feios da turma já estavam dançando com meninas. Marco Aurélio que era esperto já estava em um canto beijando enquanto George, Rodrigo e eu acompanhávamos a tudo em um canto do salão.

George animado dançava sozinho dizendo que iria transar muito naquela noite enquanto parado eu olhava as pessoas se divertindo torcendo para que tocasse algum bolero ou tango.

Mas o som estava muito longe desse estilo. Tocava predominantemente rock. Titãs, Paralamas, Barão Vermelho, Cazuza, Nenhum de Nós, Inimigos do rei dando algum espaço para Michael Jackson, Madona e Prince.

E eu lá parado acompanhando.

No alto da madrugada vi a Ericka conversando com amigas em um canto e meu nervosismo aumentava a cada rapaz que chegava perto dela e a tirava pra dançar.

Mas ela estava comportada. Saía para dançar com eles e voltava ao mesmo lugar para ficar perto das amigas, sem beijar ninguém, fazer nada demais. Gustavo e Luis Felipe já beijavam, Rodrigo encontrou companhia pra dançar, Marco Aurélio já estava na quarta menina e George me contava o que faria com a garota quando fosse transar.

Eu de saco cheio daquele papo fui atrás do Marco e pedi um gole do uísque.

Marco perguntou se eu tinha certeza do que fazia e respondi que sim pedindo a garrafa. Ele me entregou e dei um gole. Até que não estava tão ruim.

Olhei para Ericka no outro canto e comecei a sentir mais confiança em mim. Bebi mais um gole, outro, outro, outro.. Marco pedia pra eu maneirar, mas como eu não lhe dava mais atenção deixou a garrafa comigo e foi beijar.

Acabei com a garrafa, joguei em um canto e olhei Ericka cheio de amor pra dar. A noite chegava perto do fim com o banho de espuma, tão tradicional da época, já rolando. Enchi-me de coragem e atravessei o salão puxando Ericka, ela sem entender foi junto comigo para a pista de dança e comecei a dançar para ela.

Tocava “Night Fever” e eu me transformei em John Travolta em “Os embalos de sábado a noite”. Dancei como ele carregando Ericka como minha partner. No fim ninguém mais dançava, só nós dois no meio do salão com todos em volta batendo palmas acompanhando nosso show. Até Ericka parou pra me ver, eu era o Travolta.

Até que George reclamou que eu não deixara nenhum gole do uísque pra ele.

Caí em mim e eu ainda estava no outro lado do salão vendo Ericka com as amigas. Dessa vez era vida real, deixei George falando sozinho e atravessei o salão atrás de Ericka. Cheguei na moça, puxei pela mão e fomos pro meio da pista com ela sem entender nada.

No meio com os outros olhando comecei a dançar e escorreguei no sabão que ficara na pista. Ia cair de bunda no chão, mas botei meu braço direito pra amparar. Ao colocar o braço só ouvi um “crec”.

Mas fui macho, consegui resistir sem chorar..por exatos dez segundos. Depois abri o berreiro e Gustavo correu pra fora do Patin House e ligou de um orelhão para minha mãe.

Assim fui levado por minha mãe e meus amigos a um hospital sob os olhares da Ericka e do resto dos frequentadores, um grande mico..

No hospital foi constatada fissura no meu braço e eu teria que botar gesso. Ficaria com o braço engessado por quinze dias e aí caiu a minha ficha, veio o desespero.

Um menino de quatorze anos com o braço engessado tem sua vida sexual seriamente comprometida.

Mas amigos..a força vem da dificuldade e foi nesse período de extrema necessidade que me descobri ambidestro, minha vida sexual estava salva.

Segunda-feira voltei ao colégio de braço engessado e cheio de vergonha. Sentei em minha cadeira querendo me afundar nela para que ninguém me visse quando Ericka entrou na sala.

Ela veio direto ao meu encontro e perguntou se eu estava bem. Respondi que sim dentro do possível e ela disse “graças a Deus” e que ficara preocupada.

Meus olhos brilharam com aquelas palavras e eu só consegui perguntar “É?”, Ericka respondeu que sim e que só não me telefonou porque não tinha meu número.

Meu coração acelerava, eu ainda tentava entender todas aquelas informações quando ela perguntou se podia assinar meu gesso. Irradiando alegria respondi que sim e Ercika pegou uma caneta e escreveu uma dedicatória para mim. No fim deu um beijo em meu rosto e desejou melhoras.

Saiu de perto e aos gritos de “se deu bem” de meus amigos olhei a dedicatória.

“Quinzinho..que você fique bom logo para que possamos dançar no Patin House beijos, Ericka”.

Vieram a minha mente logo versos da música “Frisson” do Tunai “Meu coração pulou/você chegou me deixou assim/com os pés fora do chão..”.

E ela deixou os meus...


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MARÇO

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